Brincadeiras com o gás hilariante e com o éter

Esta é uma história contada e recontada. Na manhã de quarta-feira, 11 de dezembro de 1844, em Hartford, Connecticut, Horace Wells (1815-1848), 29 anos, bonito, gorducho e de costeletas escuras – inventor de uma solda sem sabor para firmar dentes falsos, que falhou, apesar da garantia financeira de um paciente – sentou na própria cadeira de dentista para que seu colega, o Dr. Riggs – que deu nome à doença de Riggs que provoca a queda de todos os dentes -, extraísse seu dente siso dolorido. Eles acabavam de deixar Union Hall, onde Gardner Quincy Colton (1814-1898), atendendo a um pedido especial, havia feito uma exibição privada de “óxido nitroso ou gás hilariante”, que, na noite anterior, havia alegrado uma palestra muito anunciada como sendo “sob todos os aspectos, um evento elegante”.

Colton era um estudante reprovado de medicina que vivia da ciência popular. O admirável desejo de aprender e a falta do que fazer em casa, à noite, que não fosse ouvir ou tocar piano, fazia com que esse tipo de palestra fosse muito popular, especialmente quando acompanhada por lampejos elétricos, explosões químicas e odores desagradáveis convincentes.

O óxido nitroso foi criado em 1772 por Joseph Priestley (1733—1804). Ele era um ministro presbiteriano, constrangedor e ímpio, eram Birmingham, e seu livro, História da Corrupção do Cristianismo, foi queimado pelo carrasco em Dort, em 1785. Filho de um comerciante de tecidos de Yorkshire, sem nenhuma educação científica, Priestley tornou se o “pai da química moderna… Que jamais reconheceu sua filha”(porque apegou—se cegamente à teoria deque a matéria continha um misterioso flogiston, o material do fogo).

Quando Priestley aceitou o convite para jantar, em julho de 1791, para comemorar a importância da Queda da Bastilha para Birmingham, um bando de desordeiros invadiu sua casa, destruiu seus papéis e seus aparelhos. Ele se mudou para Londres para ser o pregador matinal em Gravel Pit, Hackney, onde suas opiniões sobre a bíblia não foram bem recebidas,e então emigrou para a Pensilvânia. Um ano antes de descobrir o óxido nitroso, Priestley havia extraído o oxigênio puro da atmosfera, que misteriosamente aumentava a claridade do fogo das velas e alongava o tempo de vida dos ratos. Ele inventou a água gasosa.

Sir Humphrey Davi (1778—1829) gostava de inalar óxido nitroso para curar suas dores de cabeça. “Uma sensação agradável… ideais vívidas passam rápidas pela mente, e o controle dos movimentos é completamente destruído, fazendo cair dos meus lábios abertos a máscara do gás”. Um nativo do Leste, Davy, foi o descobridor do K (potássio), Na (sódio), Ba (bário), Sr (estrôncio), Ca (cálcio), Mg (magnésio) e Cl (cloro), e era.com professor educado que dirigia o elegante Instituto Pneumático, perto de Bristol. Ele inventou a lâmpada dos mineiros.

Davy achou que o óxido nitroso podia ser útil para operações cirúrgicas. Porém, apesar de ter segurado os membros dos pacientes e ouvido seus gritos quando era um jovem aprendiz de cirurgião em Pezance, não fez nada a respeito. Limitou—se a borrifar o óxido nitroso em Robert Southey, Samuel Taylor Coleridge e Roget do Thesaurus, que o aspirava entre goles de champanhe e dizia que o fazia sentir-se como o som de uma harpa.

O pôster de Quincy Colton, em Hartford, citava tentadoramente Southey (poeta):a atmosfera do mais alto de todos os céus possíveis deve ser composta desse gás.” Ele fazia a pessoa “rir, cantar, dançar, falar ou brigar etc., de acordo com o traço predominante do seu caráter”. É sempre divertido ver as pessoas agindo como tolas. Oito homens fortes sentavam na primeira fila, para proteger o público do frenesi dos doze jovens que se ofereciam para inalar o gás da bolsa de borracha e que, como uma precaução contra a vulgaridade, deviam ser todos cavalheiros extremamente respeitáveis.

Um desses cavalheiros era Sam Cooley, um empregado de farmácia, que alegremente começou a correr como um doido entre os bancos. Mais tarde, olhando atônito para suas canelas e joelhos ensanguentados, exclamou: “um homem pode entrar numa briga e nem perceber que está ferido.” E acrescentou: “se um homem estivesse seguro, poderia submeter-se a uma cirurgia sem sentir nenhuma dor no momento.”

Cooley acabava de anunciar o Fiat lux da anestesia. Horace Wells estava entre o público. “Então, o homem pode extrair um dente sem sentir dor, com o gás hilariante?”, pensou ele. Na manhã seguinte ele pôs a ideia em prática. “Uma nova era da extração de dentes!” Exclamou, depois. Como no caso do homem que inventou uma ratoeira mais aperfeiçoada, o mundo com dor de dente fez fila na frente da sua porta. Depois de um mês ele foi para Boston, para ganhar mais dinheiro.

Seu antigo sócio, William Thomas Green Morton (1819-1868), tinha estudado no Colégio de Cirurgia Dental de Baltimore e trabalhado algum tempo no Hospital Geral de Massachusetts, em Boston, fundado por John Collins Warren (1778-1856) em 1811. Morton apresentou Wells a Warren, que de boa vontade organizou uma demonstração para extrair o dente de um aluno de Harvard. Foi um fracasso. Todos riram. Wells voltou para Hartford, matou um paciente, perdeu o interesse pelo óxido nitroso, desistiu da odontologia.

Passemos agora para o cão spaniel de Morton.

O éter era “óleo doce de vitríolo” para seu descobridor, em 1540, o botânico alemão Valerius Cordus (1515-1544). Seu Dispensatorium de 1535 foi a primeira farmacopéia publicada e campeã de vendas (35 edições). Rebatizado com o nome de aether em 1730, o vapor pungente, aspirado, havia soltado o catarro de três séculos. Morton leu na Materia Medica de Pereira, de 1839, que Michael Faraday (1791-1867) havia notado, em 1818, que o éter anestesiava como o óxido nitroso. Por toda a parte as pessoas estavam se deliciando com “farras de éter”, a alternativa da festa de gás de Colton, ambos ancestrais dos coquetéis de nossos dias. A anestesia, como a embriaguez, nasceu do desejo de eterno do homem de escapar de si mesmo, e felizmente escapou de ser sacrificada num ato de infanticídio pelos cruéis puritanos.

Roubando abertamente a ideia de Wells, Morton experimentou o éter no cachorro que “amoleceu completamente nas suas mãos e permaneceu insensível a todos seus esforços para acordá-lo, mexendo nele e beliscando-o”. Dois minutos depois, e o fiel Nig estava tão esperto como sempre! Morton continuou a experiência no cão, em si mesmo e nos seus aprendizes. Tudo no maior segredo. Ele queria patentear o processo e fazer fortuna.

Roubando abertamente a ideia de Weel, Morton experimento o éter no cachorro que amoleceu completamente nas suas mãos e permaneceu insensível a todos seus esforços para acordá-lo, mexendo nele e beliscando-o. Dois minutos depois, e o fiel Nig estava tão esperto como sempre! Morton continuou a experiência no cão, em si mesmo e nos seus aprendizes. Tudo no maior segredo. Ele queria patentear o processo e fazer fortuna.

Morton ofereceu cinco dólares, no porto de Boston, para quem quisesse servir de cobaia, mas ninguém se interessou. Na noite de 30 de setembro de 1846, Eben H. Frost apareceu no consultório de Morton com uma tremenda dor de dente, aspirou éter num lenço e, quando acordou, seu dente estava no chão.

Dezesseis dias depois, Morton deu éter para o Hospital Geral de Massachusetts para que John Warren extraísse um tumor venoso da mandíbula esquerda de Gilbert Abbot, de 21 anos. Morton se atrasou 15 minutos. “Como o doutor Morton ainda não chegou, suponho que deve estar ocupado com outra coisa”, disse Warren, secamente, para o grupo de médicos que esperava a demonstração. Todos riram outra vez.

Warren se sentou, bisturi em riste. Momento dramático! Morton entrou apressado, seu novo inalador, um globo de vidro contendo uma esponja embebida em éter, com válvulas de couro para garantir fluxo unidirecional para os pulmões do paciente. Sucesso! Warren dirigiu-se aos que assistiam: “Cavalheiros, isso não é uma farsa” Fim da gênese da anestesia.

O mecanismo do triunfo de Morton era simples. O éter é mais poderoso do que o óxido nitroso, que tem maior probabilidade de provocar asfixia antes da anestesia.

A boa notícia viajou rapidamente. Na tarde de segunda-feira de 21 de dezembro de 1846, Robert Liston (1794-1847), dedos de relâmpago realizou a primeira operação sob anestesia na Europa, no University College Hospital, ao norte de Londres, o cirurgião era um escocês com 1,84m de altura, capaz de amputar uma perna em dois minutos e meio. Com o paciente acordado, a rapidez do cirurgião era tão misericordiosa quanto a do carrasco. Liston segurava o bisturi ensanguentado com os dentes, como um açougueiro, ficar com as mãos livres e economizar para tempo, e orgulhosamente marcava o cabo dos bisturis de amputação como um pele-vermelha marcava o número de vítimas no seu tacape.

Liston amputou a perna direita enquanto Peter Squire, dono de uma farmácia em Oxford Street, aplicava o éter com a esponja dentro do inalador, que parecia um copo de vinho do porto. “Cavalheiros, este truque ianque ganha de longe do mesmerismo”, admitiu o cirurgião vaidoso, irônico e agressivo, com grande e significativa generosidade. No quadro que representa essa operação histórica felizmente o artista não o cirurgião, remove a perna errada.

SALVE ESTA HORA FELIZ! CONQUISTAMOS A DOR Essa foi a manchete do People’s Londom Journal. Até o Natal daquele ano, o mesmerismo – do nome de Franz Anton Mesmer, de Viena, o hipnotizador da moda em Paris, que emitia “magnetismo animal” – ou ópio, ou cannabis, mandrágora ou bebida alcoólica eram usados nas cirurgias, todos com mais compaixão do que esperança. Os assírios faziam a pessoa ficar inconsciente pressionando as artérias carótidas no pescoço. Helena de Tróia oferecia ânforas de nepente. Os chineses, em 2000 a.C. fabricavam uma droga do sono com pó de jasmim e rododendro. A marinha usava uma mordaça embebida com rum, o exército fazia morder uma bala. Nada funcionava. Era tão desanimador quanto as massagens de terebentina na barriga dos doentes de cólera, feitas por Florence Nightingale, e tão ineficaz quanto o atual tratamento do câncer. Não havia alternativa para a coragem.

Antes da primavera de 1847, o velho cirurgião de Napoleão, Joseph François Magagne (1806-65), especialista em rótula, havia registrado cinco anestesias com éter em Paris. Johann Fnedrich Dieffenbach, um velho cirurgião plástico, havia administrado éter em Berlim. Em Edimburgo seu inovador foi James Syme, primo de Robert Liston. Nikolai Pirogoff administrou éter, em São Petersburgo, pelo reto. O Conselho de Saúde de Zurique o proibiu por ser perigoso.

A famosa velocidade de cirurgiões como Pirogoff e Liston comparados com virtuosos do violino ou duelistas de um momento para outro tornou-se tão fora de moda quanto a pequena carruagem de duas rodas.

 

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Um bom lar para uma causa perdida

O verão de 1940 acordou as torres sonhadoras com o alarme de ataque aéreo. A guerra começava a se fazer sentir. A Inglaterra há nove meses tateava no escuro do blackout, e naquela primavera tinha cantado: “Vamos estender nossas roupas para secar na linha Siegfried.” Agora, manteiga, carne, chá e gasolina estavam racionados, o scotch era difícil de encontrar e 15 depois do começo oficial da guerra, com os panzers cruzando as fronteiras dos países vizinhos, os alemães chegaram a Boulogne, na França. Segundo a tradição de Drake, o críquete continuava a ser jogado no Parks.

Ao sul do Parks, num anexo do Departamento de Patologia da Escola de Medicina de Oxford, que geralmente abrigava cobaias e ratos de laboratório, uma construção de garrafas de limonada de cabeça para baixo, comadres, tubos de borracha, tubos de vidro, uma estante de mogno de Bodleian, uma centrífuga para leite, banheira, caixa de correspondência de bronze e campainha elétrica – o que teria feito a delícia do lápis de Heath Robinson – estava fabricando o medicamento mais necessário do século.

O professor de patologia era Howard Walter Florey (1898-1968), australiano de Adelaide, parecido com Glenn Miller. Ele chegou a Oxford depois de ter sido professor de patologia em Sheffield, em 1935, e como muitas vassouras novas no mundo acadêmico varreu seus assistentes para a Biblioteca de Ciências, encarregando-os de procurar pesquisas esquecidas ou abandonadas que merecessem uma revisão.

Florey notou que uma parte do trabalho realizado pelo professor Alexander Fleming, no Hospital Santa Maria, em Londres, em 1929, talvez devesse ser examinada. Fleming estava estudando o germe estafilococo, causador de furúnculos, carbúnculos, abscessos, infecção de feridas, osteomielite, mastite, pneumonia, septicemia e morte. Ele estava examinando as variações de cor nas colônias amarelas brilhantes dos estafilococos que cresciam no ágar nutritivo nas placas de Petri, rasas e arredondadas. Essas mudanças de cor eram mais acentuadas quando os micróbios cresciam ao ar livre do que no incubador.

Aparentemente, o professor Fleming foi passar férias na Escócia, quando terminou a experiência, e deixou as placas de Petri empilhadas num balde com um forte anti-séptico. Porém, a placa de cima havia escapado sem que lhe notasse, e durante sua ausência de um mês o bolor o invadiu e começou a devorar os estafilococos. O professor chamou o bolor de penicillium (escova) e, engenhosamente, o usou para limpar as placas de Petri daqueles germes irritantes e contaminadores, como estafilococos e outros. Assim, ele poderia cultivar o puro Bacillus influezae, que é imune a penicillium e que causa bronquite e sinusite, às vezes meningite, mas nunca a gripe.

Florey notou que a penicilina do seu colega podia ser redirecionada para atacar aqueles germes comuns, mas ferozes no interior do corpo. Seu químico, o alemão – russo Ernest Chain ( 1906-1979), cultivou o bolor em levedo de cerveja e extraiu o suco e, em 12 de fevereiro de 1941, Florey experimentou o resultado na Enfermaria Radcliff, num policial com septicemia estafilocócica resultante de um ferimento na boca, quando podava os arbustos do seu jardim. A penicilina produzida na estante de livros booleana era tão pouca que tiveram que subir de bicicleta a ladeira até o Departamento de Patologia, levando urina do paciente para fazer uma nova dose.

O paciente morreu, mas a experiência foi um sucesso. Florey restringiu seus esforços à tentativa de salvar a vida de crianças, que podia ser tratadas com doses menores do precioso líquido. Sua equipe planejou passar o bolor na roupa e fugir, se os alemães aparecessem no High. Ele publicou seus primeiros resultados na revista Lancet de 28 agosto 1940. Para surpresa de Florey, no dia 2 setembro Alexander Fleming (1881-1955) apareceu em Oxford. Ainda não estava atrasado.

Fleming teve sorte. Aquela placa de Petri do Hospital Santa Maria (encontra-se agora no Museu Britânico) foi exposta em um dos horríveis meses de agosto da Grã-Bretanha, a temperatura ideal para o crescimento do bolor. O bolor não caiu do céu, subiu do laboratório no andar inferior, onde o colega de Fleming estava estudando os diversos tipos de bolor. Fleming ignorava o potencial da penicilina porque sua mente estava atrás de uma cortina, mesmo no mais versátil e inventivo laboratório de microbiologia da Europa, sob autoridade rigorosa de Sir Almroth Wright. Para Florey, as cortinas estavam abertas. O fato de que germes “comuns” invasores podiam ser mortos no sangue por substâncias químicas foi definitivamente estabelecido em Wuppertal, um mês antes de Hitler dominar a Alemanha, pelo professor Gerhard Domagk (1895-1964) várias centenas de ratos.

I. G. Farbenindustrie, na Renânia, sempre fabricou belos corantes. Um obscuro químico vienense chamado Gelmo, em 1908, havia sintetizado a sulfonamida, que o chefe de Domagk, o químico professor Heinrich Hörlein (1882-1954) rapidamente transformou numa substância tenaz, de um vermelho muito vivo. Em 1919, dois americanos, sem muito entusiasmo, tentaram usá-la para matar bactérias em tubos de ensaio, pondo em prática ideia de um alemão que, em 1913, havia usado corante vermelho como desinfetante da pele.

Foi o professor Hörlein quem teve a inspiração de usar a sulfonamida como antisséptico no interior do corpo. Foi o sonho da moda. Em toda a Alemanha, os químicos estavam sintetizado compostos capazes de curar, com a tenacidade dos seus antepassados na identificação das bactérias, na década de 1880, mas sem resultado. Os químicos eram animados pela descoberta de Paul Ehrlich (1854-1915), de Frankfurt, em 1909, a famosa injeção 606 de arsênico (” a bala mágica “) para matar o espiroqueta da sífilis no sangue. Os químicos da L. G. Farben, em 1930, chave na transformada um corante amarelo vivo no medicamento mepacrina, para matar os parasitas da malária no sangue.

Hörlein encarregou seus químicos Mietzsch e Klarer de sintetizar inúmeros compostos diferentes contendo sulfonamida, que Domagk sistematicamente dava os ratos que ele havia infectado com 25 bactérias comuns. Estas incluiu bacilo da tuberculose, gonococos, pneumococos, meningococos e o estreptococo, o germe causador da amidalite, escarlatina, febre puerperal, erisipela, de infecções de ferimentos e o fatal envenenamento do sangue. Todos os ratos morreram. Domagk, era o arquétipo do homem com avental branco.

De acordo com a tradição da firma, I. G. Farben patenteou a sulfonamida no dia de Natal de 1932. Na véspera de Natal, Domagk notou que 12 ratos infectados com estreptococos de um homem que estava morrendo de septicemia estavam vivos e muito bem dispostos. Um composto chamado sulfanilamida tinha funcionado.

Domagk ganhou o prêmio Nobel em 1939, mas Hitler não queria que os alemães fossem contaminados com prêmios estrangeiros, e Domagk foi preso pela Gestapo. Hörlein foi aprisionado pelos americanos em 16 agosto 1945. I. G Farben fabricou também o gás zyklon-B, usado pela SS para matar seus prisioneiros. Ele foi julgado em Nuremberg em 1947, mas foi libertado. Enquanto isso, os britânicos haviam se apossado da patente quando a Guerra começou, e desenvolveram eficaz sulfanilamida antiestreptococica no composto sulfapiridine, eficaz contra pneumonia. A penicilina que fora cultivada por Florey em comadres do hospital foi fabricada pelos americanos em barris de cerveja, assim havia o bastante para os exércitos de Eisenhower e Montgomery, no Dia D. Os americanos, como a I. G. Farben, patentearam o processo e, daí em diante, ficaram com todo o dinheiro.

Ironia, teu nome e progresso.

Florey e Fleming dividiram o primeiro Nobel de 1945, mas mal conseguiram conversar. Então Fleming de repente pensou que era Robert Bruce. O pequenino, seco, astuto, inarticulado, incompreensível escocês viajou pelo mundo todo como salvador da humanidade, o descobridor da penicilina, e dominou completamente o coração dos clubes femininos norte – americanos. Florey se aposentou com magnífica solenidade acadêmica.

Quem foi o pai da penicilina? Florey e Fleming foram o esperma e o ovo? Quem se lembra ainda das palavras do grande médico eduardiano Sir Willian Osler: ” na ciência, o crédito vai para o homem que convence o mundo, não para o homem que teve a ideia em primeiro lugar”?

Quem se lembra ainda das ordenhadoras de Gloecestershire e dos meninos de Shropshire que, inteligentemente, evitavam que seus cortes fossem infectados fazendo um curativo com pão embolorado?

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Nascimento e morte

Lord Lister era bonito, robusto, gentil, impassível, resoluto e impermeável à crítica ou ao ridículo. Ignaz Philipp Semmelweiss (1818-1865), da Hungria, era calvo, usava bigode bem tratado, era excitável, sensível e louco. Quando Lister era ainda estudante, em 1846, Semmelweiss era assistente na Primeira Clínica Obstétrica de Allgemeines Krankenhaus, em Viena, o maior hospital do mundo para pacientes internos. A Primeira Clínica ensinava estudantes de medicina. A Segunda Clínica ensinava só parteiras. Na Primeira Clínica a febre puerperal, que aparecia uma semana depois do parto provocando hemorragia, trombose, peritonite, abscesso, septicemia e estupor, matava três vezes mais do que na Segunda Clínica. Toda Viena sabia tão bem, como conhecia o preço do Bratunurst, que as mulheres grávidas imploravam histericamente para dar à luz na Segunda Clínica.

Semmelweiss notou que a febre puerperal imitava outra doença violenta que matava os médicos desafortunados que cortavam os dedos nas autópsias. Ele lembrou que cada mulher tinha um ferimento aberto, o útero, depois de livre da placenta. Notou que os estudantes da Primeira Clínica vinham da sala de anatomia, onde dissecavam cadáveres, e as parteiras da Segunda Clínica chegavam de suas casas. Concluiu então, imediatamente: “A febre puerperal é causada pelo transporte para as mulheres grávidas de partículas putrefatas derivadas de organismos vivos, através dos dedos de quem as examina”.

Ele fez os estudantes lavarem as mãos com um desinfetante, cloreto de cálcio. O índice de mortalidade na primeira clínica caiu de 18 para 1%. Voltando a Pasteur, isso foi 17 anos antes dele identificar as “partículas putrefatas ” como micróbios e 19 anos antes de Koch relacionadas micróbios com as doenças. Como Jenner, Lister e Lind, Semmelweiss curou o que ele não sabia que estava curando. Os obstetras vienenses a deram tão pouca atenção ao seu tiro no escuro quanto os de Londres deram ao de Lister.

Lister acabou como um membro fundador da Ordem do Mérito, com um instituto, um memorial na Abadia de Westminster e uma estátua ao lado de fora do prédio da BBC. Semmelweiss acabou num asilo para loucos em Budapeste, onde morreu em 15 dias. Ele havia cortado o dedo na sua última operação e o ferimento infeccionou, e a gangrena invadiu seu corpo e o matou com um abcesso nos pulmões, exatamente como as vítimas da febre puerperal. Setenta anos mais tarde, entre as mulheres que davam à luz, três contraíam a febre, e entre 100 com febre, três morriam. Semmelweiss conseguiu contê-la, mas foram as sulfas que a erradicaram.

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A digitalis ou dedaleira

“Se o inverno chega, pode a primavera estar longe?” foi a observação cretina de Shelley, embora tenhamos que admitir que ele estava vivendo na Itália, nessa época. Quando o inverno chega na Inglaterra a primavera está ainda muito além do próximo Grande Nacional, e muitas vezes bem no meio da estação de críquete. Mas quando os bosques ingleses usam maquiagem verde e a noite começa a levantar sua saia, comemoramos nossa escapada dos perigos médicos do inverno, aproveitando com prazer as ofertas maduras da terra – como amoras, aspargos e batatas novas, hoje tão convenientemente trazidas de avião da Califórnia, do Chile e do Egito.

Quando Shakespeare estava falando sobre “O mundo verde na recém-chegada primavera”, os ingleses tiravam o inverno do sangue tomando chá de ervas que brotavam do sol: Margarida amarela, a aquáticas beldroega e Hampshire, folhas de framboesa, ou comiam a geléia de amora negra da primavera no anterior, ou tomavam suco de nabo (que se extrai açucarando pedaços crus). Nesse chás eram, sem que ninguém soubesse, anti-escorbuto, como o suco de lima de Lind, admirável quando baixava o nível da vitaminas C no sangue equinocial.

William Withering (1741-1799) e era um clínico geral rural, de Stafford, que ganhava 100 libras por ano e que se mudou para Birmingam e passou a ganhar 1.000 libras por ano, mas que gostava de passear no campo. Birmingham era uma próspera cidade industrial dizem que fabricou 15.000 esperadas para Crownwell, por ocasião da guerra civil. Ela atraía os homens de espírito prático, como Joseph Priestly, que descobriu o oxigênio, James Watt, que inventou a estrada de ferro, William Herschel, que descobriu o planeta Urano, John Smeaton, que construiu o farol de Eddystone, Josiah Wedgwood, que fez as placas. Eles criaram a Sociedade Lunar, que se reunia nas noites de lua cheia para discutir ciência e filosofia. Withering era seu botânico. Seu livro A Botanical Arrangement of all Vegetable Naturally Growing in Great Britain foi um enorme sucesso de um ano de 1776. Ele era médico-chefe do Hospital Geral de Birmngham. Combinando os conhecimentos do epidemiologista que estudou e a escarlatina e do mineralogista que descobriu o carbonato de bário, e ele criava cães, tocava flauta, como Jenner, e como Jenner conversava com ordenhadoras.

Cavalgando nas suaves colinas de Shropshire em 1775, Whitering encontrou uma e velha mulher que conhecia o segredo da cura da hidropsia nas pernas. Pernas que não cabiam nas calças, o que sei arrastavam debaixo das saias, com pés que não podiam ser calçados, melhoravam com seu chá de vinte ervas – quando o paciente conseguia argumentar os vômitos violentos e a diarréia. Ele curava onde os médicos locais não podiam curar. ” Não mãe era muito difícil para uma pessoa que conhecia o assunto “, escreveu Whitering, “Perceber que é erva ativa só podia ser a digitalis”. Era o mesmo princípio divino contido na erva de Escorbuto. Nicholas Culpeper (1616-1654) já havia indicado, em 1654, que a dedaleira “A do ossada com açúcar ou meu serve para limpar e purgar o corpo, tanto para cima quanto para baixo”.

Whitering imediatamente experimentou o xangô seus pacientes, em os pobres aos quais ele dedicava uma hora por dia. Os doentes de hidropsia o urinaram copiosamente, um efeito omitido pela velha senhora de Shropshire. Quando soube que o diretor de Brasenose, Oxford, fora curado de hidropsia peitoral (efusão da pleura) com a raiz da dedaleira, em 8 de setembro de 1775 , Whitering administrou chá de dedaleira a um construtor de 50 anos que sofria de asma e excesso de fluidos no abdome, o qual ” fez uma grande quantidade de água. Sua respiração gradualmente ficou mais fácil, a barriga desapareceu e dentro de dez dias e ele começou a comer com enorme apetite”.

Ao contrário da velha senhora, Whitering compreendeu que a hidropsia fora bombeada para os esgotos de Birmingham pelo coração, estimulado pela dedaleira. Como digitalis, o nome dado a dedaleira em 1542, a feitiçaria deWenlock Edge entrou respeitavelmente para a Farmacopéia de Edimburgo em 1783. O relato de Whitering, História da dedaleira, foi o enorme sucesso de 1785. Por acaso ele havia descoberto o poderoso medicamento cardíaco cujos vários derivados são usados até hoje.

Como Jenner, Whitering atraiu oponentes ferrenhos. O Dr. Lettson, de Londres, matou oito pacientes com digitalis, incluindo Charles James Fox. Houve muitos desastres devido ao fato de a hidropsia ser um sintoma, não uma doença. Pode ser causada por insuficiência renal, tanto quanto por insuficiência cardíaca. Isso foi estabelecido em 1827 pelo jovial, gorducho, operoso Richard Bright (1789-1858), o explorador da Islândia, que foi da Universidade de Edimburgo para a Guy’s, em Londres. A hidorpsia na Guy’s era ainda considerada uma doença isolada, como entre os camponeses de Whitering, no Shropshire porém, Bright viu uma conexão entre três itens: hidropsia, a albumina que aparecia em quantidade anormal na urina dos pacientes e a deixava turva, quando aquecida, e os rins rigidamente contraídos no iminente estado de post-mortem. “Depois de uma vida de calorosa afeição, pureza imaculada e grande utilidade”, Bright morreu de insuficiência cardíaca e vive para sempre na doença de Brigth.

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O tempero da vida

A vitaminas são substâncias químicas caracteristicamente ausentes nos alimentos que usamos. Foram inventadas em Cambridge, em 1912, por Sir Frederick Gowland Hopkins (1861-1947). Os médicos mais antigos de Cambridge, como eu, lembra ainda a exclamação murmurada “É, Hopkins!” – como Pasteur ou Lister – quando ele aparecia nos laboratórios de bioquímica, entre os Colégios de Pembroke e Downing.

Hopkins descobriu que uma pequena gota de leite podia tornar perfeita a dieta que estava matando os ratos. Ele foi também o sogro póstumo de J. B. “Bons Companheiros” Priestley.

Em 1907 foi provocado o escorbuto em cobaias, na Noruega. Os cientistas da nutrição começavam a aprender que a alimentação humana não era exclusivamente constituída por proteínas, gordura, carboidratos e minerais, mas que misteriosamente era necessário algum aditivo. As cobaias de Hopkins tinham se desenvolvido muito bem só tomando leite. Mas quando alimentadas com os elementos do leite, separados, elas morriam.

Em 1932 a vitamina C foi cristalizada por engano por Szent Györgi, na Hungria, depois na América, retirada do suco de limão como ácido ascórbico. era uma substância química simples, que curava o escorbuto e identificava as confusões a respeito da doença: o limão era mais eficaz do que a lima porque era três vezes mais rico em vitamina C. Os oficiais, que se alimentavam melhor, deixavam o porto com maior quantidade de vitaminas C armazenada no corpo. Toda a tripulação embarcava na primavera, ou seja, depois do inverno, quando comiam menos vegetais. A vitamina C é fabricada nos organismos de todos os animais, exceto naquelas cobaias, no homem e nos macacos.

Em 1886, os holandeses preocupavam-se com o Beribéri, em cingalês, significa “eu não posso”, indicando a fraqueza dos músculos e das pernas inchadas que precedia a morte por insuficiência cardíaca. O médico do exército holandês, Christian Eijkman (1858-1930), pensava que o beribéri fosse uma infecção, até que a crise de 1897 o obrigou a alimentar as galinhas do laboratório com restos de comida do hospital e elas contraíram beribéri. Quando o arroz branco e polido dos curries e podia fizera substituído pelo arroz escuro e não-polido, de gosto desagradável, elas melhoravam. Ele experimentou o arroz polido nas galinhas, complementando com gordura e sais minerais. Não adiantou. Tentou arroz polido e um extrato do polimento do arroz, e as galinhas logo voltaram a ciscar e a por ovos. Eijakman declarou, em 1901, que os itens conhecidos da dieta necessitavam de “algo mais” desconhecido, em quantidades mínimas e sem valor nutritivo, para nos manter vivos. Mas ninguém deu muita atenção. Seu algo mais era a vitamina B do germe do arroz, que era retirado pelo polimento, saindo com a pele escura. Isso se tornou aparente só depois que Hopkins aplicou sua imaginação ao enigma. Tudo acabou bem, em 1929 eles ganharam o prêmio Nobel.

As outras vitaminas foram identificadas e sintetizadas antes de 1940. A vitamina A no leite, na manteiga, nos ovos e óleo de fígado de peixes prevenia certas formas de cegueira. A vitamina B é formada por várias vitaminas do cereais e evita vários problemas graves de pele, pelagra (dermatite, diarréia e demência) e o beribéri das galinhas de Eijakman e também de 40% da Marinha Japonesa, entre 1878 e 1882. A vitamina D, que vem junto com a A, evita raquitismo; a K, nos vegetais verdes, evita hemorragias. Ninguém sabe o que faz a vitamina E. Quando foi descoberta, em 1936, acreditaram que aumentava a fertilidade, e os idosos médicos de Cambridge cantaram em uníssono:

“Vitamina E é para mim!

Vamos acabar com a esperança da velhice

Tomando-a com o nosso chá.”

No nosso mundo de boas moradias, saudável e hedonista, a insuficiência de vitaminas atinge somente os decréptos, que não podem ter uma dieta normal, e os seguidores das novas modas, que não querem comer normalmente. Essa parte triste da história de nossa dieta acontece predominantemente no terceiro mundo, descoberto relativamente há pouco tempo. É uma terra da qual sabemos vagamente que é repleta de florestas, onde nada há para fazer senão sexo, onde os nativos usam paletós xadrez rasgados e gravatas vistosas, enquanto assistem à televisão em branco e preto e ouvem discos de vinil nas suas cabanas, sentados em cadeiras de plástico ou deitados em almofadas, entre uma profusão de outros itens dos quais felizmente há muito tempo nos desfizemos. Só a deficiência da vitamina A, ou ceratomalácia, cega centenas de milhares de crianças todos os anos, mas ninguém faz muita coisa a respeito disso.

A vitamina C não cura resfriados, ferimentos na cabeça nem elimina os efeitos da bebida. A vitamina A não nos faz enxergar no escuro (desinformação da RAF, em 1940 – na verdade era o radar). Uma overdose de vitamina A ou D pode nos deixar doentes. Mas nenhuma vitamina podem nos tornar mais saudáveis. Elas não podem aumentar a inteligência dos nossos filhos. Como não são distribuídas de graça, são um desperdício pouco inteligente de dinheiro. Um primeiro-ministro inglês do nosso tempo toma um comprimido de vitamina C todas as manhãs

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Limões e limas

Naquela época, acreditava-se que, para cada doença enviada por sua ira, Deus, misericordiosamente, plantava uma erva para curá-la. A medicina herbal, ecoava por toda a Bíblia.

O herbalista e barbeiro-cirurgião de James I. Gerarde (1545-27 12), em 1597 proclamou divinamente a descoberta da erva do escorbuto. Essa Cochlearia officinalis, com 30 cm de altura e flores brancas, que crescia perto do mar, é uma das quadripétalas da família das crucíferas, parente dos nabos, rabanetes, agrião, mostarda goivo amarelo. O brado das ruas ” compre a erva do escorbuto! ” Era bastante comum em Middleton e no livro de Decker, The Roaning Girl, de 1611. em era possível comprar cerveja de erva do escorbuto. Em 1764, o avô de Bayron, Almirante ” mau tempo Jackie “, prudentemente incluiu entre as porções do Dolphin, para a viagem ao redor do mundo, a erva do escorbuto e cocos.

Os marinheiros estavam descobrindo que frutas tropicais comidas em terra curavam o escorbuto a bordo. Laranjas a azedas e limão eram a ração favorita de Sir Richard Hawkins , o cirurgião da Companhia das Índias Orientais, John Woodall (1569-1643), no The Surgeon Mate. Em 1612, recomendava o armazenamento de suco de limão a bordo de todos os navios da companhia. Os holandeses preferiam Sauerkraut, o capitão Cook recomendava geleia de cenoura ou mosto de cereja. Vinagre, para tomar ou lavar o convés, óleo de vitríolo e enterrar o paciente até o pescoço, na terra fria, todos esses métodos tínhamos seus defensores, embora mal orientados.

James Lind (1716-1794), de Edimburgo, nove anos no mar, com a Marinha, bravamente denunciou as acomodações para os doentes, a comida rançosa, a água imunda e deixou o mar para ser médico do Hospital Naval Haslar, em Portsmouth, que em 1790 tinha ainda 1.754 casos de escorbuto. Lord Anson são perdeu três quartos de sua tripulação na viagem ao redor do mundo, em 1740-1744. Em 1778, a Frota do Canal, depois de 10 semanas no mar, tinha 2400 caso de escorbuto . Porém, em 1753, o Tratado Sobre Escorbuto, de Lind, determinou um curso entre as supostas causas e supostas curas que flutuavam ainda no mar da ignorância.

Em 20 de Maio de 1747, a bordo do Salisbury, voltando para casa, tendo saído há um mês de Plymouth, Lins realizou uma experiência clínica. Doze doentes de escorbuto, na enfermaria em Bordeaux, na proa, alimentava— se de mingau no desjejum, caldo de carne de carneiro e pudim no almoço e sagu, passas de Corinto e passas de uvas no jantar. Lind dava a cada um meio litro de cidra por dia. Dois tomaram óleo de vitríolo. Dois tomaram vinagre. Dois, água do mar. Dois chuparam laranjas e limão, e dois um preparado de pó de alho, rabanete, bálsamo-do-Peru e mirra. Os dois que recebam laranjas e limão estavam aptos para o trabalho dentro de seis dias, e passaram a tratar dos que continuavam doentes.

Johannes Bachstrom (1686-1742), de Leyden,13 anos antes havia declarado que o os corpo do mar e o de terra era mão única doença que só tinham uma cura: comer verduras. Fim de afirmou a mesma coisa:

” O marinheiro em ignorante e o médico cultos sentem necessidade, igualmente, e com a mesma intensidade, de vegetais verdes e das frutas frescas da terra. “

Lind receitou suco de limão ou de lima.

Ele havia encontrado o remédio específico, sem idéia de como funcionava, para uma doença cuja causa ninguém conhecia.

Um ano depois da sua morte, o almirantado concordou com ele. Duzentos gramas de suco de limão, com cem gramas e meio de açúcar, eram distribuídos para toda a tripulação depois de seis semanas no mar. O escorbuto desapareceu como o Holandês Voador.

Mais tarde, o suco de limão passou a ser preservado com a adição de um quarto de seu volume de rum. Os donos de navios mercantes, a partir de 1854, foram obrigados a “servir o suco de limão ou de lima à tripulação, sempre que os homens haviam consumido alimentos salgados durante dez dias “. As limas das índias orientais eram preferidas aos os Limões do Mediterrâneo e, por muito tempo, a palavra passou a designar os ingleses nos pontos da América (embora durante um tempo os limeys fossem também os ” novos amigos” que desembarcavam na Austrália). As usinas, estranhamente, não era tão eficazes contra o escorbuto quanto o limão. A viagem em busca do pólo norte, comandada por Sir George Nares, em 1875, quando só foi o usado suco de lima, teve casos de Escorbuto, e a de Sir Alexander Armstrong, em 1850, com suco de limão, não teve nenhum. Às vezes,85% dos pacientes de Florence Nightingale, em Scutari ir ela tinha um Escorbuto, apesar das frações de suco de lima, mais isso logo foi explicado pelo fato de as minas teriam ficado todas em Balaclava. Ao humanidade teria de esperar 50 anos pela resposta certa.

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Um osso duro de roer

“Todos estavam juntos no convés,

Para ver a construção de uma prisão-túmulo:

Todos ficavam em mim seus olhos frios

Que à luz dominar brilhavam.”

Samuel Taylor Coleridge,

The Rime off The Anciest Marine

Gengivas inchadas, esponjosas, arroxeadas, sangrando, hálito fétido, dentes amolecidos e cuspidos, sangramento em volta dos pelos do corpo, logo grandes equimoses, juntas inchadas, hemorragia nasal, olhos injetados, vômito sangrento, ferimentos não-cicatrizados, lassidão, fraqueza, insuficiência cardíaca e morte súbita. Quando os marinheiros saíram de Bristol, no século XVIII, deixando Dr. Jenner entre os ordenhadoras, tudo isso era tão comum a bordo quanto o enjoo do mar.

Vasco da Gama, em 1497, o primeiro a dar a volta ao Cabo da Boa Esperança, perdeu desse modo 160 homens de sua tripulação. A doença intrigou Fernando de Magalhães, o primeiro a dar a volta ao Cabo Horn, em 1520. Um ano e três meses depois de sair de Sevilha, após passar três meses de inverno em São Juliano, na Patagônia, as gengivas do seus homens “cresceram, cobrindo os dentes, impedindo-os de se alimentar, e eles morreram de fome”. Jacques Catier, de St. Malo, descobridor do São Lourenço, passou o inverno de 1535 ancorado no Rio Charles, que divide Québec, e perdeu 50 homens em dezembro, quando essa ” doença desconhecida começou a se espalhar entre nós do modo mais estranho jamais visto ou ouvido “. Em fevereiro, dos 110 tripulantes apenas 10 tinham condições de trabalhar, outros 25 morreram em terra, a despeito das orações contínuos.

O veterano da Armada, Sir Richard Hawkind, autor de Voyage into the South Sea, seguiu a esteira de Drake, para circunavegar o globo no Reputance (rebatizado, por ordem da rainha Elizabeth I, com o nome de Daintie), liberalmente aprisionado em 1593, em Plymouth, com carne de boi, de porco, biscoitos e cidra, e foi atacado pela doença no Equador. Nos seus 20 anos de mar, Sir Richard admitiu ter visto 10.000 casos.

O Escorbuto era uma doença identificada pelo número de mortos. Os comandantes se perguntavam se seria uma infecção dos misteriosos fômites ou provocada pela preguiça evidente de suas vítimas , por quiasmas demoníacos, entre um um convés e outro, o sal ar, o trabalho duro, beijar mulheres em terra, a comida. A ração diária da Marinha, em 1615, era de 236 gramas de queijo, 118 gramas de bacon 118 de manteiga, meio quilo de biscoitos, geralmente bichados “fedidos como mijo”, mas toleráveis com o meio litro de cerveja.

O Escorbuto no mar era grave e rápido, raro entre os oficiais, até mesmo entre os oficiais subalternos, atacando mais rapidamente nas viagens que começavam na primavera. Nos porões-prisões ancorados ao largo de Woolwich, no Tâmisa, o escorbuto era um carrasco muito ocupado. Os traficantes de escravos queixavam-se que o número de vítimas da doença, nos seus navios superlotados, custava a eles a perda de vidas valiosas. O escorbuto em terra era mais insidioso no seu ataque às guarnições, às cidades cercadas, aos Países Baixos, ao norte da Rússia e Escandinávia e às regiões romanas, que ela atravessavam o Reno .

Felizmente para os romanos, os holandeses tinham uma erva curativa, bem como os índios da margem do São Lourenço. Atônito com os casos dos índios que se recuperavam numa semana, tomando chá de agulhas de pinheiro, Jacques Cartier mandou fazer o chá para sua tripulação e, satisfeito, viu todos curados, sendo sua alegria maior pelo fato de não precisar repetir a desagradável tarefa de abrir o corpo de um amigo morto na neve, sem descobrir a causa da terrível doença.

Johannes Bachstrom (1686-1742), de Leyden,13 anos antes havia declarado que o os corpo do mar e o de terra era mão única doença que só tinham uma cura: comer verduras. Fim de afirmou a mesma coisa:

” O marinheiro em ignorante e o médico cultos sentem necessidade, igualmente, e com a mesma intensidade, de vegetais verdes e das frutas frescas da terra. “

Lind receitou suco de limão ou de lima.

Ele havia encontrado o remédio específico, sem idéia de como funcionava, para uma doença cuja causa ninguém conhecia.

Um ano depois da sua morte, o almirantado concordou com ele. Duzentos gramas de suco de limão, com cem gramas e meio de açúcar, eram distribuídos para toda a tripulação depois de seis semanas no mar. O escorbuto desapareceu como o Holandês Voador.

Mais tarde, o suco de limão passou a ser preservado com a adição de um quarto de seu volume de rum. Os donos de navios mercantes, a partir de 1854, foram obrigados a “servir o suco de limão ou de lima à tripulação, sempre que os homens haviam consumido alimentos salgados durante dez dias “. As limas das índias orientais eram preferidas aos os Limões do Mediterrâneo e, por muito tempo, a palavra passou a designar os ingleses nos pontos da América (embora durante um tempo os limeys fossem também os ” novos amigos” que desembarcavam na Austrália). As usinas, estranhamente, não era tão eficazes contra o escorbuto quanto o limão. A viagem em busca do pólo norte, comandada por Sir George Nares, em 1875, quando só foi o usado suco de lima, teve casos de Escorbuto, e a de Sir Alexander Armstrong, em 1850, com suco de limão, não teve nenhum. Às vezes,85% dos pacientes de Florence Nightingale, em Scutari ir ela tinha um Escorbuto, apesar das frações de suco de lima, mais isso logo foi explicado pelo fato de as minas teriam ficado todas em Balaclava. Ao humanidade teria de esperar 50 anos pela resposta certa.

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Fazendo a limpeza

As ideias de Lister não abrangeram todos os problemas da sua profissão. Na década de 1880, o cirurgião menos confuso de Londres admitiu relutantemente a existência das bactérias, mas zombou da ideia de que podiam transmitir doenças através das nossas mãos. Um médico com título de nobreza, no King College Hospital que, descuidadamente enfiou o dedo na incisão feita por Lister foi violentamente empurrado pelo cirurgião para longe da mesa. A sanitização no teatro operatório era considerada ridícula, efeminada e afetada, equivalente a limpeza do cepo do açougueiro ou do carrasco.

Robert Lawson Tait (1845-1899), ginecologista na próspera cidade de Birmingham, ligava negava ferozmente que as bactérias fossem responsáveis pelo ” pus louvável ” que pingava livremente das decisões incisões cirúrgicas. Mas fazia questão de lavar seu teatro operatório com água e sabão com o zelo de uma dona de casa, todos os seus casos de ovariotomia sobreviveram, e Ernest Bergman (1836-1907), em Berlim, esterilizava tudo com vapor. A ideia de limpeza surgiu logo depois do começo da aceitação da divindade do cirurgião.

O método anti-séptico de Lister, que consistia em matar os germes na sala de operação, foi substituido, no fim da sua vida, pela assepsia, que usava autoclaves e água fervente para evitar que eles entrassem. Somente 15 anos depois da operação de Jummy Greenless, em Glasgow, William Stewart Halstead (1852-1922), no Hospital John Hopkins, em Baltimore, começou a praticar a cirurgia asséptica em lugar da anti-séptica. Os aventais cirúrgico eram previamente fervidos e as luvas de borracha começaram a ser usadas em 1890, depois que o professor Halstead notou que a sua enfermeira assistente, Miss Hampton, estava manchando as mãos sensíveis para fazer assepsia dos instrumentos. A experiência foi tão bem sucedida que o professor casou com ela no mesmo ano. Porém, Lister lutou contra a nova ideia, como o criador de cavalos lutou contra o automóvel, o coronel de cavalaria contra o tanque de guerra e como todos que se opuseram ao seu burro mecânico.

Hoje a assepsia e tudo, todos os instrumentos não esterilizados remotamente por meio de raios gama e acondicionados em envoltórios de papel, como band—aid; os cirurgiões usam uniformes, gorros, máscara e luvas esterilizados que se tornaram, para um devotado público de televisão, vestimentas cerimoniais como os mantos e as casulasda Igreja.

A divisão da história da cirurgia em pré e pós-listeriana ainda venera Lister por abrir os lugares sagrados do corpo – as juntas, o abdômen, o peito e o crânio – antigamente selados pelos demônios da infecção. Contudo, a identificação e a aceitação da existência dos germes, no fim do século XIX, certamente teria feito isso, mesmo que Lister tivesse seguido o pai do comércio de vinho.

“Não vamos ouvir mais bobagem sobre Lister ter resolvido os problemas da cirurgia pré-listeriana. Isso não é verdade “, escreveu nem delicadamente Lawson Tait em 1898. Talvez o mal-educado estivesse certo. Tiros no escuro tornando-se desnecessários quando se espera pacientemente pelo nascer do dia. Com tudo: “ninguém sabia como prevenir o perigo de uma picada alfinete, nem como fazer um curativo, até a vinda de Lister! “.

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O burro mecânico

Embora o inimigo fosse ainda desconhecido, a recomendação para matá-lo era o “hospitalismo”: a infecção, o envenenamento do sangue e a gangrena negra, que esvaziavam as salas de cirurgia nos cemitérios e dava aos sucessivos ocupantes da mesa de operação uma chance pior do que a de um soldado em Waterloo.

Joseph Lister (1827-1912), filho de um comerciante de vinhos em Londres, ainda estudante assistiu à primeira operação com anestesia realizada na Europa por Robert Liston no Hospital Colégio da Universidade em 1846. Lister estudou a inflamação nas patas de sapos. Na sua opinião, a infecção fatal das incisões cirúrgicas não era causada pelos vagos miasmas, como pensava a crença popular, mas por algo sólido que flutuava no ar. Como Jenner, Lister antecipou Louis Pasteur que, em 1864, identificou aquelas partículas invisíveis como coisas vivas que acidificavam o vinho. Lister especulava que, se coisas sólidas faziam apodrecer os vinhos que seu pai vendia, deviam provocar a putrefação das incisões feitas por ele.

Lister tentou então destruir essa massa de germes variados no local em que o bisturi do cirurgião facilitava sua entrada usando um desinfetante no campo operatório. Ele escolheu o ácido carbólico que, sabia, tinha funcionado nos esgotos de Carlisle. Nessa época Lister era professor de cirurgia na Enfermaria Real de Glasgow, construída sobre um cemitério repleto de vítimas da epidemia de cólera. Ele resolveu experimentar sua ideia em 12 de agosto de 1865, aplicando panos embebidos em ácido carbólico na perna esquerda de Jimmy Greenless, de 11 anos, que estava com fratura da tíbia.

Em seguida, Lister adaptou vaporizadores usados para perfume, manejados por um estudante, que durante todo o tempo vaporizava a mesa comum, coberta por uma toalha com bordas como preparada para o chá da tarde, onde se processava a operação. A equipe de cirurgia usava a mesma roupa com que chegava ao hospital, e só o cirurgião arregaçava os punhos. Alguns cirurgiões usavam sempre a mesma sobrecasaca para operar, com fios de sutura presos nas casas dos botões, endurecidos com sangue e pus secos; quanto mais sujos, maior era a clientela do cirurgião. A sala de operação tinha pias de cozinha com torneiras de bronze, bancadas de banheiro com tampo de mármore para os vidros e toalhas, bacias de louça com as esponjas cheias de sangue e um balde cheio de areia, que era espalhada com uma pá no assoalho de madeira sujo de sangue. Um aquecedor a carvão aquecia a sala no inverno e facilitava a alguns cirurgiões mais conservadores o estancamento das hemorragias com ferro em brasa, como faziam seus ancestrais elizabetanos.

Lister aperfeiçoou os vaporizadores de perfume, criando seu “burro mecânico”, um tripé de madeira com um vidro de ácido carbólico vaporizado manualmente por meio de uma alavanca (o qual pode ser visto no corredor do Colégio Real dos Cirurgiões). Como não podia deixar de acontecer, logo passou a ser movido a vapor, como as locomotivas e os navios. O desconforto provocado na equipe pela nuvem constante de fenol no rosto, dai após dia, pode ser compreendido pelo jardineiro que resolve vaporizar suas árvores frutíferas num dia de vento forte. Em 1887, Lister abandonou o burro mecânico e voltou à gaze impregnada com ácido carbólico.

Em 1871, Lister operou a axila real. A rainha Vitória estava com um abcesso de 15 centímetros de largura na axila esquerda, e pior do que a dor era a indignidade de tal coisa na pessoa real. Na atmosfera impressionante da operação, feita com anestesia local, infelizmente a rainha recebeu uma baforada do vaporizador no rosto. “Eu sou apenas o homem que maneja os foles”, protestou arrasado, o assistente alvo da ira real. Lister se gabou delicadamente, depois da morte da rainha: “Acredito que eu fui a única pessoa que jamais praticou no seu corpo divino a arte da cirurgia.” Para os amigos, ele disse: “Cavalheiros, eu fui único homem que enfiou a faca na rainha!”

No seu septuagésimo aniversário, Lister conheceu Pasteur, apresentado pelo presidente Carnot, da Sorbonne. “Não existe no mundo todo um indivíduo a quem a ciência deva tanto quanto ao senhor”, disse Lister elegantemente para Pasteur. Eles se beijaram e todos gritaram Vive! Nesse rasgar de seda acadêmico, Lister era lord há três meses, o primeiro da medicina.

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