Glândulas musicais

Robert James Graves, de Dublin (1796-1853), um homem de ação que foi preso na Áustria como espião e esmagou uma rebelião no Mediterrâneo, observou em 1835:

“Palpitações longas e violentas nas mulheres, todas com uma peculiaridade em comum, o aumento da gandula tireóide… os olhos assumem um aparência singular, pois parecem aumentados, de modo que quando ela dorme, ou tenta fechá-los, as pálpebras não se fecham.”

 Desse modo, ficamos conhecendo para sempre a doença de Graves, provocada por uma hiperatividade da tireóide.

 A gandula pruitaria, na base do cérebro, tornou-se, mais tarde, a regente da orquestra endócrina, um conjunto de sete instrumentos. Foi Harvey Williams Cushing (1869-1939), professor de cirurgia no Hospital Johns Hopkins e em Harvard, quem iniciou a orquestra. Ele começou identificando a pituitária em 1912, e descreveu a Síndrome de Cushing em 1932, na qual o doente apresenta o rosto redondo como a lua.

Thomas Addison (1795-1860), filho de um merceeiro, um homem rude que foi de Newcastle para a Guy’s, em Londres, em 1849, deu seu nome à anemia fatal sem causa conhecida, a “anemia perniciosa” Em 15 de março de 1855 ele descreveu para a Sociedade Médica do Sul de Londres uma segunda doença de Addison, uma disfunção das glândulas endócrinas supra-renais que provocava pigmentaçao da pele e risco de vida. Essa foi a overture não ouvida da orquestra endócrina. Addison teve a infelicidade, partilhada por outro homem de Guys, Thomas Hodgkins, de estar tão adiante do seu tempo que ninguém deu atenção ao seu estudo. Ele sofreu uma crise de melancolia e logo depois morreu, em Brighton.

 Em 1935, os médicos estavam equipados com injeções de fígado contra a anemia perniciosa. Em 1922, Sir Frederick Banting(1891-1941) e Charles Herbert Best (1899-1978) os armaram com insulina contra a diabetes. Eles podiam ainda usar como munição as vitaminas de Sir Gowland Hopkins, e tocaiar as doenças com as inoculações de Sir Almroth Wright.

 A medicina se desfazia lentamente dos seus valores vitorianos de dieta, evacuação regular, caldo de carne, descanso e silencio, um regime tão repousante que, para algumas mulheres, signifcava imobilidade durante três meses, deitadas na cama sem visitas jornais ou cartas, o único alivio sendo o realejo no fim da rua. Pacientes com mais sorte eram despachadas em viagens para lugares ensolarados, um modo conveniente para o médico se livrar delas.

 Até a segunda metade do século XX, a farmácia dos médicos continuou como um pente de balas vazio. Agora começavam a aparecer os armeiros. Hoje temos antibióticos eficazes, medicamentos contra pressão alta, contra arritmia, antieméticos, antidepressivos anticonvulsivos, esteróides contra artrite, broncodilatadores, diuréticos, cicatrizantes das úlceras estomacais e duodenais, medicamentos contra a doença de Parkinson e drogas citotóxicas contra o câncer. As leucemias da infância perderam seu terror, e algumas doenças selvagemente fatais como o seminoma dos testículos perderam seu caráter maligno. Vivemos mais tempo e melhor. O efeito desse avanço vitorioso é menos de júbilo universal do que a reclamação generalizada de nossos políticos no sentido de que vencer essa guerra significa a falência do Serviço Nacional de Saúde e o aumento do lucro das indústrias farmacêuticas.

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O começo da medicina

Os médicos aventuraram-se no século munidos de armas muito leves. Receitavam mercúrio para sífilis e tinha, digitalis para reforçar o coração, iodo para bócio, cólquico para a gota, cloral para os nervosos, um alcalóide de pomegranato para tênia ou solitária. A partir de 1867 passaram a ter nitrato de amil para angina, e foi Thomas Sydenham quem pela primeira vez receitou ferro para a anemia. Os livros grossos de medicina de 1900 são to precisos no que diz respeito ao diagnóstico quanto os de hoje, mas todos os capítulos são trágicos porque falta a eles o final feliz do tratamento eficaz.

 Claude Bernard (1813-78), filho do dono dos vinhedos de onde vinha o Beaujolais, quando era um jovem assistente de farmácia em Lyons escreveu uma comédia musical A rosa do Ródano – que foi um sucesso tão grande de bilheteria que ele se dedicou ao teatro e escreveu a peça em cinco atos, Artur da Bretanha, e a apresentou para a opinião do crítico parisiense Saint-Marc Girardin, que o aconselhou a estudar medicina.

 Bernard era um médico laboratorista, um pesquisador cuidadoso. “Tire sua imaginação, como tira seu casaco, quando entrar no laboratório, mas a retome novamente, como veste o casaco quando sai dele.” Em 1857 ele descobriu que o figado produz açúcar, independente do açúcar que o indivíduo ingere. Então os órgãos do nosso corpo não eram um ajuntamento diverso, cada um funcionando para destruir e expelir substâncias químicas ingeridas. Eles podiam criar suas substancias químicas, por meio das quais um órgão podia ajudar o outro. Bernard chamou a isso le milieu intérieur – o clima existente dentro de nós, como existe fora. Essa introspecção introduziu a endocrinologia na medicina.

 Claude Bernard  também destronou o estômago do seu posto de monarca da digestão e instalou o pâncreas como seu príncipe poderoso. Estudou a função pancreática implantando uma cânula num cachorro roubado, que escapou e voltou para o dono, um inspetor de policia. Os antivivisseccionistas de 1850 então discordaram da idéia de permitir que a inteligência excepcional e as idéias originais de Claude Bemard viessem a beneficiar a humanidade presente e futura. Felizmente, o inspetor de polícia ficou do lado dele. A mulher de Bemard também não o compreendia.

 Ivan Petrovich Pavlov (189-1936) era também um pesquisador muito hábil, cuja descoberta da salivação do cachorro ao ver ou farejar o alimento, ou até mesmo ao ouvir uma campanha deu o nome ao frequentemente adaptado “reflexo condicionado” de Pavlov. Contudo, a fama devia ser de Diderot, que escreveu em O sobrinho de Rameau, um século antes:

 “Ele tinha uma máscara igual ao rosto do Tratador das Focas, tarde pediu emprestado o amplo manto de um lacaio. Ele pôs a mascara no rosto. Vestiu o manto. Chamou o cão, o acariciou e deu a ele um biscoito. Então, mudando rapidamente de roupa, ele não era mais o Tratador das Focas, mas Bouret, e chamou o cão e o chicoteou. Com menos de dois ou três dias repetindo essa farsa, de manha à noite, o cão aprendeu a fugir de Bouret, o General-Fazendeiro, e a correr para Bouret, o Tratador das Focas.”

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A mulher médica

Muliebrity era uma necessidade tradicional no tratamento dos doentes. Para sua cura, sua função era mais duvidosa. Sir William Jenner (1815-98) – o médico que usou o burro mecânico para vaporizar ácido carbólico na axila da rainha Vitória, e espirrou o ácido no rosto dela durante a resplandescente meia-idade de Florence Nightingale dizia, choroso, que tinha só uma filha, mas preferia seguir seu enterro do que vê-la se tornar uma estudante de medicina. O próprio Lister criou objeções ao projeto de dar seu nome à nova cadeira de cirurgia em Glasgow: “Considerando as relações que a nova cadeira terá com o ensino das mulheres.” O resto dos profissionais da medicina necessariamente sensatos não concordou com a idéia de a morte ser preferível a aprender como evitá-la.

Elizabeth Blackwell (1821-1910), filha de um religioso refinador de açúcar, com uma família de nove filhos e quatro tias solteiras em Bristol, emigrou para Nova York quando tinha 11 anos. Aos 26, depois de ser rejeitada pela escola de Filadélfia e outras nos EUA, Elizabeth entrou para o Colégio de Medicina Genebra, NY. Formou-se como primeira da classe, estabelecendo um padrão de aplicação acadêmica que as estudantes de medicina se esforçam para superar. Sua primeira dificuldade foi encontrar moradia porque as donas das pensões negavam-se a alugar quartos para moças desacompanhadas. Em 1857, Elizabeth Blackwell fundou a Enfermaria Nova York para Mulheres Indigentes, dirigida por mulheres. Ela comandou as enfermeiras durante a Guerra Civil. Solteira, adotou uma órfã.

Elizabeth Garrett Anderson (1836-1917) foi a primeira dama da medicina britânica, e Sophia Jex-Blake (1840-1913), uma das primeiras escocesas (embora em Edimburgo as mulheres fossem segregadas na escola). Na I Guerra Mundial, mulheres médicas receberam patentes de oficiais do exército britânico, com divisas nos punhos, como os homens. Agora as estudantes de medicina Grã-Bretanha são em maior número do que os homens. E se as mulheres reclamam de discriminação em certas especialidades, como cirurgia, isso se deve à realidade biológica de que ser um cirurgião só precisa de alguns segundos para fazer um filho, mas as mulheres levam um pouco mais de tempo. A Igreja da Inglaterra, no momento, sofre de uma neurose ridícula em relação a mulheres sacerdotes; isso, sob o disfarce de argumentos teológicos, litúrgicos e sociais, expressa o temor bem fundado dos partidários de Sir William Jenner de que as mulheres podem tomar seu lugar.

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A testa febril

Três dos eixos centrais da medicina não era médicos. Charles Darwin era um naturalista navegador, Luís Pasteur era um químico industrial e Florence Nightingale era enfermeira.

Florence Nightingale (1820-1910) e lendária pelos motivos errados. Até a lâmpada está da Dama está errada, iluminando hora a antiga nota de 10 libras, hora a faixa de pedestres na rua da porta do culto clube Ateneu, para cavalheiros, em Pall Mall. Ao longo de seis quilômetros e meio de corredores que compunham as enfermarias de Scutari, ela balançava uma lâmpada de plano do exército turco, enrugada como uma lanterna chinesa, com uma vela de luz amarelada na base. Como a outra mão ela segurava as três essências da política: saber o que queria saber, saber quem podia dar a informação e saber quanto teria de esperar por ela. Podia ter governado o país tão bem quanto Lord Palmerson, se não tivesse ido diretamente para a cama, quando voltou da Crimeia,  de onde não levantou durante 50 anos. Florence Nightingale tinha muitas outras peculiaridades, como bater irritantemente as tampas abertas das privadas.

Quando foi posto em andamento o destino de Churchill como Primeiro Lord do Almirantado, em 1911, Forence Nightingale foi lançada pela Instituição para cuidar de senhoras Respeitáveis em Circunstâncias Desafortunadas, Harley Street, nº 1, um ano antes da Guerra da Criméia. Ela era a superintendente, com o toque de Branca de Neve entre os Sete Anões. Imediatamente despediu o médico residente, passou a encomendar os mantimentos por atacado do Fortnum e os vegetais, por sacos, do Covent Garden; fazia ela própria a geléia, instalou elevadores para alimentos, água quente e campainhas para as pacientes, matou os ratos, os camundongos e outros parasitas e eliminou o perigo das explosões de gás. Em seis meses Florence Nightingale diminuiu pela metade o preço da estada das senhoras internadas. Ela sabia como conseguir o que queria: “Se um conserto não for feito, eu acampo com minhas 12 pacientes no meio da Praça Cavendish e deixo que a polícia e o comitê venham me prender como desocupada.”

Ela só podia ser inglesa. Os Nightingale, de Embley House, em Hampshire, eram viajantes elegantes (Florence nasceu em Florença, podia se chamar Rimini), e da alta sociedade de Londres (metade de um andar do Hotel Carlton, na temporada, duas filhas apresentadas à corte). Florence Nightingale conhecia Sidney Herbert, o Secretário na guerra (não da guerra, ele tomava conta dos livros). Uma vigorosa atividade política conseguiu do gabinete de Lord Aberdeen o voto unânime para sua promoção de Harley Street para superintendente do Estabelecimento de Enfermagem feminina do Hospital Geral Inglês, na Turquia, e dentro de uma semana ela partiu de Dover com 40 enfermeiras.

Florence Nightingale reorganizou imediatamente o hospital que fora criado pelo exército, simplesmente pintando de branco as paredes internas do quartel Selinie, em Scutari. É um prédio enorme, com quatro torres, uma em cada canto, que pode ser visto de Istambul, no outro lado do Bósforo (a paklava doce turca é deliciosa, e o raki é uma variação do gim tônica). Florence Nightingale cintilou intensamente, destacando— se do resto da guerra, que nada tinha de organizada. Em seguida, organizou os uniformes e a alimentação do exército britânico local, gastando nos bazares de Constantinopla as 30.000 libras concedidas pelo Times, depois de ter organizado o embaixador britânico, que havia planejado construir uma igreja protestante com esse dinheiro.

Quando a dor angústia  franziam a testa, Florence Nightingale tinha coisas mais importantes para fazer do que ser um anjo de bondade. Estava sempre organizando o enterro dos pacientes — bem como suas cartas para casa —, mas deixava o trabalho para as enfermeiras sujas. Para ela, eram mulheres “velhas demais, fracas demais, bêbadas demais, sujas demais, calejadas demais ou incapazes de fazer qualquer outra coisa”. As suas enfermeiras haviam embarcado com ela, em Dover, para o inimaginável, por 12 shilings por semana, mais um quarto de litro de cerveja no almoço e um copo de Marsala no jantar. Três anos depois da guerra da Crimeia, as ordens de Florence Nightingale para elas apareceram em Notas de Enfermagem, um pequeno volume que trazia na conta capa da segunda edição de 1895 os os nomes dos dois outros livros, igualmente práticos, Pig-skiing or Hog-Hunting, do capitão Baden Powell, Cricket, Jerkes in from short Leg, de Quid, e as conveniências da estrada de ferro de Bailey parea homens e mulheres.

  • Não faça do seu quarto de doente uma corrente de ar para toda a casa.
  • Comparações estatísticas absurdas são feitas na conversa comum pelas pessoas mais sensatas para benefício do doente.
  • As médias de mortalidade só nos dizem que tentos por cento vão morrer. A observação deve nos dizer quais desses cem vão morrer.
  • Ajude o doente à variar seus pensamentos.
  • Os pacientes não gostam de enfermeiras que usam roupas farfalhantes. Sobre esse assunto, Florence Nightingale acrescenta:
  • Eu gostaria também que as pessoas que usam tecidos transparentes pudessem ver a indecência dos próprios vestidos como os outros os vêem. Uma mulher respeitável. inclinando-se para a frente, vestida com esse tipo de tecido, se expõe tanto para o paciente deitado quanto qualquer dançarina da ópera no palco. Mas ninguém amais dirá a ela essa verdade desagradável.

A luz do gênio é percebida em lampejos. Ela escreveu também Notas sobre Enfermagem para as Classes Trabalhadoras.

Na cama, em South Street, Mayfair, Florence Nightingale organizou o Departamento Médico do Exército, a Escola Nightingale para Enfermeiras, no Hospital St. Thomas, e o serviço sanitário da Índia. Recebeu visitantes da sala do Gabinete das nossas embaixadas, dos palácios episcopais e do Palácio de Buckingham com a ordem do Mérito, pouco antes da sua morte. Um dos visitantes era de Oxford.

“Primeiro venho eu: meu nome é Jowett.

Não há nenhum conhecimento que eu não saiba.

Sou mestre desse colégio.

O que eu não sei não é conhecimento”

O qual queria levá-la para Balliol e casar com ela.

Há alguns anos escrevi um romance no qual indico que Florence Nightingale, por suas declarações quando tinha 41 (“Acredito que eu sou como um homem… Minha experiência com as mulheres é quase tão grande quanto a Europa. E bastante íntima também. Eu vivi e dormi na mesma cama com condessas inglesas e moças prussianas do campo.. Nenhuma mulher despertou mais paixão entre as mulheres do que eu”) era lésbica. Essa denúncia tornou-se um brinquedo popular no play-ground da literatura. O lesbianismo é tão irrelevante para uma pessoa com as qualidades de Florence Nightingale quanto a sensibilidade a correntes de ar. Para ela, teve uma vantagem. Impediu que casasse com Jowett.

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Uma peça antiga

Entre o discreto estalar das elegantes poltronas de couro, o tilintar do cristal, o suave farfalhar do Times nos clubes masculinos de Pall Mall, estão estranhas peças antigas que nem os membros mais antigos sabem identificar.  A banqueta forrada de veludo com borlas, para a gota, debaixo da confortável poltrona do clube, permitia o dedo grande do pé, enfaixado e tão sensível que o zumbido de uma mosca era antecipado com alarme, ser mantido abençoadamente na horizontal.

Muitas doenças têm clubes, com endereços e telefones, desde os Alcoólatras Anônimos e Tratamento da Artrite até as Doenças Venéreas. Algumas doenças crônicas se transformaram em clubes informais, uma camaradagem entre os membros para compensar o triste fato de não haver tratamento para elas. No começo do século XX os sanatórios para tuberculosos, nos Alpes suíços ofereciam a camaradagem do refeitório militar durante a guerra, com um índice de mortalidade bastante inquietante. A gota era doença própria dos clubes de cavalheiros. Suas vítimas, homens claudicantes, com o pé enfaixado, de muletas, gordos, corados, mal-humorados imponentes, inflamavam a imaginação de Gillray, Rowlandson de todos os cartunistas, como as juntas dos seus próprios dedos grandes do pé.

Era uma zombaria mal orientada. Sir Thomas Browne descobriu, em meados do século XVII, que: ” quantos homens famosos, imperadores e pessoas cultas são exemplos dessa doença, provando que não é uma doença de todos, mas de homens sensatos e de valor. “

Seis admiráveis vítimas dessa doença histórica:

  • Byron. (” A gota, que enferruja as juntas aristocráticas “..)
  • W. S. Gilbert. (“um gosto pela bebida combinado com gota o havia curvado para sempre. “)
  • Jaroslav Hasek. O bom soldado Svejk. (“O coronel se transfomou depois de um ataque de gota, de um cordeiro pacifico num tigre feroz… ele rugia com a voz terrível de um homem assado lentamento num espeto: “Saiam todos” Tragam-me um revolver!”)
  • Sydney Smith, humorista. (observo que a gota ama ancestrais e genealogia. São necessárias cinco ou seis gerações de cavalheiros ou nobres para dar a ela a força máxima.”)
  • James Thomson, poeta, (“A gota insone aqui conta os cantos dos galos, um lobo agora o mastiga, agora uma serpente o pica.”)
  • Antony Trollope. (“Velhos cav alheiros geralmente são mal-humorados. A gota e aquela outra coisa, vocês sabem”.)

A gota é sem dúvida uma doença dos literatos.

Havia gota nos esqueletos do ano 3 dC, nos Costwolds. Os romanos engoliam a propensão para a gota com o chumbo dos seus copos de vinho. “Os pobres raramente têm gota”, observava o The Heaven of Health, em 1584. Isso porque os pobres viviam de pão de cevada e queijo, ao passo que a classe dos gotosos comia proteína, que contribui para a doença. O vinho do porto acendia o pavio.

Thomas Sydenham (1624-89) escreveu Tratado sobre a gota, em 1863, onde diz: “A vítima vai para a cama e dorme com boa saúde. Mais ou menos às duas da manhã é acordada por uma dor forte no dedo grande do pé.. é tão acentuada a sensibilidade da parte afetada que não suporta o peso das cobertas nem a vibração de passos no chão do quarto. A noite é passada em tortura e insônia…” O médico escreveu com tanta percepção clínica porque sofria horrivelmente de gota também.

Sydenham, de Wynford Eagle, em Dorset, descreveu graficamente todas as doenças. A coréia de Sydenham, “a dança de São Vito”, nas crianças infectadas por streptpcocos, foi um dos seus originais. Ele notou a diferença entre o sarampo e a escarlatina. “O sarampo geralmente ataca crianças… inquietação, sede, falta de apetite, língua esbranquiçada (mas não seca)… e no quarto dia aparecem no rosto e na testa pequenas manchas vermelhas, como picadas de mosquitos”.

Língua esbranquiçada? Talvez Sydenham tenha notado também os pontos brancos na boca, que permitem um diagnóstico precoce dois séculos antes de Henry Kople (1858-1927), do Hospital Monte Sinai, em Nova York.

Sydenham é chamado de “Hipócrates inglês”, porque ele eliminou as teorias, o misticismo e a magia que infestavam a medicina daquele tempo, Reviveu a idéia de Hipócrates de tratar o paciente na própria cama, por causa do que ele viae o que sabia. Ele preferia Dom Quixote aos livros de medicina. Além disso, possuía o supremo dom clinico de reconhecer quando podia fazer o melhor possível por um paciente e para sua reputação simplesmente não fazendo coisa alguma.

Seu ardente pupilo foi o médico-pirata Thomas Dover, que contraiu varíola e tratou a febre com o método de Sydenham de quarto frio, ar fresco, nada de cobertas e doze garrafas de cerveja fraca a cada 24 horas, Ele distribuía ópio para todos, temperado com açafrão, canela e cravo. Sydenham era modesto, impassível, distante, compassivamente prestando contas a Deus por seus pacientes. Fora um dos capitães de cavalaria de Cromwell e tinha uma das admiráveis qualidades de Cromwell, a de farejar a merda no vento da história.

Depois de Sydenham, a política externa da Grã-Bretanha estabeleceu oficialmente a gota com o Tratado Methuen, de 1703. O objetivo era atrair os portugueses para fora da França, estabelecendo um imposto de sete libras por 253 galões de vinho do porto contra 55 libras por 253 galões de clarete. Os cavalheiros ingleses podiam agora tomar garrafas de vinho do porto a noite, uma vez que não tinham nada para fazer depois de ler o último volume de Pamela, exceto conversar à mesa do jantar até desaparecerem debaixo dela.

Com a louvável igualdade social da nossa era, a gota agora é acessível a seis entre 1.000 britânicos.

O Tratado Methuen foi anulado em 1835.

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O diagnóstico é tudo

Os médicos da era vitoriana eram brilhantes na identificação de todas as doenças cuja cura eles desconheciam por completo.

  • Percussão. o musical Leopold Auenbrugger a (1722-1809), filho do taverneiro de Graz, aplicou a forma de verificação da quantidade de vinho nos barris do pai – batendo na madeira com as pontas dos dedos – para descobrir a existência de fluidos no peito dos pacientes. Os médicos vienenses consideraram o método ultrajante e sem dignidade. Jan Nicholas Corvisart (1755-1821), médico de Napoleão, achou explêndida a ideia e em 1808 a espalhou por toda Paris – como Sir Samuel Wilks, honradamente dando crédito ao seu autor.
  • Ausculação. Para ouvir o coração e os pulmões, todos os médicos, desde Hipócrates, encostavam o ouvido no peito do paciente. Esse método foi descrito por René Theophile Hyacinthe somente ineficaz, mas Laennec (1781-1826) como “não somente ineficaz, mas inconveniente, indelicado e, nos hospitais, até mesmo desagradável”. Muitos médicos pousavam a cabeça sobre colos suaves e adormeciam. Assim, em 1816 Paris produziu outro auxiliar do diagnóstico quando Laennec atendeu uma jovem de seios tão avantajados que ele impulsivamente enrolou uma folha de papel, ouviu de uma distância decente e inventou o estetoscópio. O primeiro era um rolo oco de madeira, passou para uma corneta acústica e depois para o conhecido estetoscópio para os dois ouvidos, equivalente à bengala do cabo oco de ouro.
  • O pulso. Era difícil medir a pulsação antes de surgirem os ponteiros de segundos dos relógios de bolso. O estudante de medicina Galileu (1564-1613) meda seu pendulo pelas batidas de seu coração, depois inteligentemente inverteu a idéia,  passando a medir o pulso pelo movimento do pêndulo. Um professor de Pádua, Sanctorius Sanctorius (1561-1636), em 1625 inventou o pusilógio, um relógio de pulso que depois de dois séculos foi aperfeiçoado em Lichfield por Sir John Foyer (169-1734, passando a marcar os minutos sanctorius passou grande parte da vida sentado numa máquina de pesar para ver quanto peso ganhava com cada refeição, antecipando a ciência do metabolismo do século XX e a obsessão em perder peso.
  • A temperatura. Galileu havia inventado um termômetro sanctorius o aperfeiçoou para set usado em seres humanos, mas tinha 33 centímetros de comprimento e precisava ser chupado durante 20 minutos. O estudioso Sir Thomas Cifford Albutt (1836-1925), o original Dr. Lydgate de George Eliot em Middlemarch, o reduziu a algo que as enfermeiras podiam guardar no bolso. Carl Reinhold Augustwunderlich (1815-1877), de Württemberg, inventou o gráfico da temperatura e, em 1868, compreendeu que a elevação da temperatura do corpo humano que ele registrava não era, necessariamente, como se pensava na época, uma doença. “Ele encontrou a febre como uma doença e a deixou como um sintoma”

Benjamin Rush (1745-1813), o Hipócrates da Pensilvânia, um quacre contrário à guerra, escravatura, aos enforcamentos e ao álcool (atitude muito boa para sua clínica, foi signatário da Declaração da Independência e declamou: “A medicina é minha esposa e a ciência minha amante” (Não acho que essa violação do sétimo mandamento seja lisonjeira para a dona dos seus afetos”, comentou Sir Oliver Wendell Holmes, de Boston) Rush descobriu que a inflamação era o efeito da doença, e não a causa. Wunderlich e Rush tiveram uma visão bastante clara da infecção, antes que a microbiologia prática no fim do século XX a tornasse tão pouco notável quanto uma fotografia.

  • Raios X. Wilhelm Konrad Roentgen (1815-1922), professor de física em Würzburg, na Bavária, trabalhando até mais tarde numa noite de sexta-feira, 8 de novembro de 1895, notou que alguns cristais distantes iluminavam-se no laboratório escuro quando a eletricidade passava pelo tubo de vácuo que ele estava usando dentro de uma proteção de papelão. Ele afastou mais os cristais do tubo. Novamente se acenderam. Pôs um livro entre eles e a corrente elétrica. Um pedaço de madeira. Depois, placas de metal. Continuaram a brilhar Pôs a mão no meio. Mein Gott! seus ossos ficaram visíveis. Ganhou o prêmio Nobel em 1901. Roentgen era um homem simples, triste, sonhador e modesto que detetava a publicidade, e deu as 5o.ooo kroner do prémio Nobel para sua universidade, recusou chamar os raios de Roentgen e a explorá-los comercialmente, disse a todo mundo que o Kaiser ia perder a guerra e morreu sozinho e na pobreza.

Pierre Curie (1859-1906) sua mulher polonesa, ex-governanta de crianças Marie Sklodowska Curie (em 1867-1934), descobriram o rádio em 1897. Pierre fui atropelado em Paris, e Marie morrer de anemia causada por exposição ao norte.

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Pompa e triste circunstância

A bengala de cabo de ouro, de 1827, é a biografia indiscreta de uma bengala com brasão de armas usada sucessivamente por cinco médicos da moda, depois de 1689. Primeiro foi John Radcliffe (1650-1714), que deu a Oxford a Câmera Radcliffe, a Biblioteca Radcliffe e a Enfermaria Radcliffe. Era médico de Guilherme III, que era impaciente, rabugento, bebia muito e devorava as raras ervilhas verdes sem oferecer nenhuma rainha. Não era fácil tratar o rei. Para sangrá-lo, o médico precisava de autorização do Conselho Privado, o arrogante Radcliffe teve uma desavença com Sir Godfrey Kneller por causa de uma porta de jardim usada pelos dois. “Sir Godfrey pode fazer o que quiser com a porta, exceto pintá-la.” Ao que o artista respondeu, através do seu cavalariço “Diga ao doutor Radcliffe que posso aceitar qualquer coisa dele, menos cuidados médicos.” Muito bem, comentaram rindo os freqüentadores de Taverna em Fleet Street, onde Radcliffe despendia generosamente parte das 5.000 libras que ganhava por ano (mais tarde, Sir Godfrey pintou a cena).

O guinéu chegou com a restauração, arredondando os honorários dos médicos, pagos pelos nobres, em 6s8d (está assim no livro). Embora só tivesse sido cunhado depois de 1813, o guinéu continuou como a elegante unidade monetária dos médicos até a divisão decimal do dinheiro, em 1971. As despesas de viagem por carruagem eram extras. A consulta de um médico de Londres em Pitlochry custava 1.500 guinéus. Quando tinha 60 anos, Radcliffe se apaixonou e foi alvo de charges na imprensa Quando a rainha Anne morreu ele estava com gota, e o Parlamento o culpou por não atendê-la, mas Radcliffe se desculpou devidamente, morrendo três meses depois.

“Nunca li Hipócrates em toda a minha vida” disse Radcliffe secamente para um jovem médico que perguntou se ele lia

Hipócrates em grego O senhor não precisa”, disse imediatamento jovem. “O senhor é o próprio Hipócrates” Assim, Richard Mead (1673-1754) providenciou para ser herdeiro da clinica e da bengala com cabo de ouro de Radcliffe. Mead começou a curar as pessoas pelo correio escrevendo receitas por meio guinéu, na Coffee House em Covent Garden, sem se dar ao trabalho de ver os pacientes. No fim do dia ele ta para Batson. Ganhava 7.000 libras por ano. “O doutor Mead”, disse o doutor Johnson. viveu mais tempo em plena luz do sol do que qualquer outro homem.”

A bengala que amaciava as palmas daqueles médicos de dedos de ouro esa agora no Colégio Real de Médicos, fundado por Thomas Linacre (1461-1524), um Fellow de All Souls, Oxford, que conseguiu com Henrique VIII carta patente para os clínicos, em 1518, 22 anos antes de os cirurgiões conseguirem. O Colégio tinha autoridade para expulsar da prática médica os charlatães, monges, artesões e mulheres que provocavam sofrimentos intensos, danos e destruição em muitos súditos do Rei, especialmente àqueles incapazes de discernir os charlatães dos verdadeiros médicos. Essa autoridade era realmente exercida em 1630 e 1637 mandou cortar as orelhas de dois curandeiros não-qualificados. O Bispo de Londres foi apaziguado com a permissão de continuar a licenciar médicos com a mesma liberdade com que ordenava sacerdotes. O Colégio Real de Médicos, exposta a bengala com cabo de ouro, fica hoje perto do zoológico.

Outros valiosos decoradores de dos séculos da medicina:

– O médico do doutor Johnson, William Heberden (1710-1801), que descreveu a angina pectoris e os nódulos de Heberden (artrite nas pontas dos dedos).

– O excêntrico e rígido quacre Thomas Hodgkin (1789-1866), considerado no Guy’s como o tipo de pessoa que eles não queriam na sua equipe de médicos. Ele se contentou com o cargo de curador do Hospital-Museu, onde descobriu, em espécimes patológicos, o aumento simultâneo do baço, no abdome e glândulas linfáticas espalhadas pelo corpo. Durante 33 anos ninguém deu atenção a essa correlação, até que o médico do Guy’s, Sir Samuel Wilks (1824-1911) a ressuscitou e honestamente a denominou doença de Hodgkin.

– A doença que provoca tontura, desequilíbrio e surdez de um dos ouvidos, descrita por Prosper Menière (1799-1862), da Instituição de Surdos-mudos de Paris, um més antes de morrer de gripe.

– Sir William Withey Gull, baronete (1816-90), medico da rainha Vitória, sensatamente suspeitava da eficácia de todos os medicamentos e escreveu Reumatismo Tratado com Agua de Menta. Ele tratou o príncipe de Gales de febre tifóide (não existia tratamento), e criou aforismos:

Não uma febre tifóide, mas um homem com febre tifóide.

(O médico trata um paciente, não uma doença.)

Selvagens explicam, a ciência investiga.

Sobre uma neurótica difícil: a senhora X é ela mesma multiplicada por quatro.”

 Um século depois, Sir William tornou-se alvo de acusações absurdas dos caçadores do herói folclórico inglês Jack, o Estripador. Naquele outono sinistro de 1888 Gull estava com 71 anos, havia sofrido uma crise de isquemia cerebral um ano antes e padecia de artrite em todo seu corpo napoleônico. O que sugere que ele devia ter meios mais confortáveis de passar as noites do que se escondendo nas vielas de Whitechapel, iluminadas à gás, esfaqueando prostitutas. Ele deixou 344.000 libras, um recorde na profissão.

– Sir William Richard Gowers de Yorkshire (1845-1915),

neurologista, foi o primeiro a usar a “lanterna mágica”, o

ofalmoscópio, para examinar a retinado olho, e definiu o trato de

Gowers na medula espinhal.

– Sir Hans Sloane (1660-1753), o médico que tinha um jardim

exótico em Chelsea e fundou o Museu Britânico, deu nome à Praça

Sloane , à Avenida e ao Hans Crescent, todos na rua do

Harrods, também Sloane Rangers.

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A bengala com cabo de ouro

O médico do século XVII era inútil, mas decorativo. Casaco de cetim abotoado, calça de couro até abaixo dos joelhos, meias de seda e sapatos com fivela, babados de renda, peruca inteira. balançando uma bengala comprida com cabo oco de ouro, cheio de vinagre aromático de Marselha. Era le vinaigre de quatre voleurs, a mistura eficaz usada por quatro ladroes de corpos aprisionados durante a epidemia de peste em Marselha e que nunca foram infectados. Era aspirado repetidamente para imunizar o médico contra a infecção e dar a ele tempo para pensar. A bengala tornou-se seu símbolo, a varinha mágica de Esculápio

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As honras da Academia

Em 1937 surgiu entre os mestres de Oxford o primeiro professor de anestesia da Europa, para grande ultraje de todo o corpo docente. O dinheiro veio de Lord Nuffield, que já havia escandalizado Oxford com a produção em massa do automóvel Morris Minor (Oxford é o Quartier Latin de Cowley”, chique de morrer). Nuffield levou bola preta no clube de golfe local, por isso ele o comprou e instalou seu parceiro de golfe na Cadeira de Anestesia. O novo professor era Sir Robert Reynolds Macintosh (1897-1989), inventor do laringoscópio aperfeiçoado, que já havia provado sua habilidade administrando uma anestesia perfeita com gás no seu benfeitor. Sir Robert tinha uma ótima clínica em Harley Street com três máquinas de gás e dois Bentleys por anestesista, maldosamente chamada pelos invejosos de “Companhia Mayfair de Gás, Luta e sufocaçao”. Então o Serviço Nacional de Saúde criou anestesistas consultores como qualquer outra pessoa, e eles fundaram a Faculdade de Anestesia e, finalmente, seus membros chegavam ao hospital dirigindo carros iguais aos dos cirurgiões.

A América tinha um professor Ralph Milton waters (1883-1979), em Madison, Wisconsin. Ele introduziu o gás ciclo-propano com as desvantagens de ser tremendamente explosivo e horrivelmente dispendioso. Também o “Pentotal”, que mudou a terrível indução da anestesia de sufocação controlada para uma pequena picada no braço. (Se o anestesista conseguia acertar a veia: “Você tomou gás na sua operação?” perguntou a mulher, no ônibus. “Não, eles não usam mais o gás”, respondeu a amiga. “Um cara chega, enfia uma agulha nas costas da sua mão quatro ou cinco vezes, e voce dorme”).

“A local” era usada desde 1884, injetada no músculo, em determinados nervos, na medula ou simplesmente passada na superfície do olho, da língua ou do nariz. O poder mágico da cocaína foi famosamente explorado pelo vienense Carl Koller (1857-1944), cirurgião de olhos. Se Freud nao tivesse saído de férias com sua noiva, na ocasião, teria se tornado um aclamado pioneiro anestesista e poupado ao mundo muita introspecção angustiosa.

Os anestésicos para uso local eram muito usados porque produziam insensibilidade e paralisia sem os inconvenientes gerais do narcótico e sem a necessidade de um hábil anestesista. Porém, a anestesia “local” obstinadamente local e quase sempre o paciente prefere o sono, mais arriscado. O problema foi resolvido por Sir Walter Raleigh (1552-1618). Em 1595, viajando para o Orinoco, Sir Walter conheceu o veneno paralisante que os nativos da América do Sul usavam nas flechas, um xarope feito de uma trepadeira que mais tarde foi chamado de curare”. As mesas de operação do mundo todo estão agora repletas, dia e noite, de pessoas submetidas ao equivalente à picada do dardo envenenado de uma zarabatana. A paralisa provocada oferece ao cirurgião um corpo flácido, enquanto uma pequena quantidade de algum anestésico moderno, como o halotano, provoca um sono superficial. A extrema economia de anestésico nas cesarianas, para não prejudicar o bebê, muitas vezes tem como resultado uma paciente completamente acordada e paralisada durante todo o tempo da operação. Os tribunais concedem uma indenização tão generosa a esse tipo de agonia mental e física que qualquer mãe que se queixe de ter passado por ela pode trazer à lembrança de toda uma enfermaria de parturientes que elas também sofreram sem merecer.

Essa combinação épica de sono e paralisia que transformou a anestesia foi experimentada por Harold Randall Griffith (1896-1985) em Montreal, em 1942. Porém, o escritor francês Joris-Karl Huysmans foi quem teve a idéia pela primeira vez. Em 1884, escrevendo sobre as observações de Edgar Alan Poe a respeito da influência depressiva do medo sobre a vontade, Huysmans acrescenta:

“Que afeta como um anestésico

que paralisa os sentidos e o curare que

inutiliza os nervos motores.”

Ora, ora.

Ninguém sabe como os anestésicos funcionam. Mas ninguém sabe por que nós dormimos.

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O trapo e a garrafa

A anestesia produziu aparelhos mais engenhosos até mesmo do que a horticultura. John Snow foi o primeiro anestesista profissional do mundo. Natural de Yorkshire, o mais velho dos nove filhos de um fazendeiro, morava no Soho e trabalhava no Hospital George, em Hyde Park Comer, dando 10 anestesias por semana. Em 1847 inventou um inalador portátil de éter  do tamanho de um livro grosso, com um dispositivo de banho-maria para vaporizar o anestésico, que era derramado num recipiente com uma placa em espiral, do qual o paciente inalava o vapor mais pesado do que o ar por um tubo longo e flexível. Uma mascara triangular, com uma válvula, cobre a boca e o nariz na monografa de Snow, a boca e o nariz de uma bela jovem com deliciosos cachos de cabelo. Snow aplicou uma mente cientifica ao novo assunto que havia surgido por acaso e por especulação, e que podia facilmente ter-se perdido na superstição e na falsa medicina. Ele escreveu Sobre o clorofórmio e outros anestésicos e caiu morto.

Joseph Thomas Clover (1825-1882)), barba espessa e sempre de sobrecasaca, seguiu Snow como o mais procurado anestesista de Londres. Ele clinicava no Hospital Westminster e tinha entre seus pacientes Robert Peel, o ex-Napoleão III, a futura rainha Alexandra e Florence Nightingale, possivelmente para intimidá-lo. Ele inventou um inalador de clorofórmio no qual uma dose era vaporizada por uma seringa e bombeada por um fole numa bolsa do tamanho de uma fronha. Tudo isso apavorava os pacientes nervosos. Esse método desprendia 4,5% de clorofórmio no ar, o primeiro anestésico a ser medido. Ele inventou também a “muleta de Cover”, que mantinha erguidas pemas da paciente anestesiadas quando o cirurgião precisava alcançar o períneo.

Os vários aplicadores de anestesia usados na segunda metade do século XIX iam desde simples máscara de flanela com armação de arame, que podia ser levada dentro de uma cartola, até um reservatório ornamental como um bule de chá para o óxido nitroso que estava voltando a ser usado. Alguns tinham bolas como os pulverizadores de perfume para bombear o ar no vidro com clorofórmio, outros tinham espécies de manivelas que movimentavam engrenagens, ou bolsas de borracha como bolas de futebol, mas o francês Louis Ombrédanne (1871-1956) usava uma bexiga de porco.

Seu compatriota Paul Bert (1830-86) em 1879 inventou o carro anestésico, forte e hermeticamente fechado, com dez pequenas aberturas que podiam acomodar 12 pessoas, incluindo o paciente. A equipe cirúrgica ficava sujeita a uma grande pressão do ar e o paciente à alta pressão do óxido nitroso da bolsa que ficava debaixo da mesa de operação. O ar era refrigerado no verão e passava por igua quente no inverno, e quando começava a diminuir alguém assobiava para avisar o homem encarregado da bomba, que ficava no lado de fora. O carro se movia sobre rodas e chegava a todos os hospitais de Paris, até que em 1883 os passageiros conseguiram jogá-lo na pilha de ferro velho. Os médicos tiveram mais sorte do que os trés balonistas que Paul Bert fez subir para estudar a inalação de oxigênio. Só um deles voltou com vida.

Depois da I Guerra Mundial a anestesia passou a ser feita passando óxido nitroso comprimido e oxigênio de cilindros para o éter e, às vezes, clorofórmio contido em vidros. Essa foi a invenção simples de “Cocky” Boyle (1875-1941) que, com “Gloomy” Hoover (1896-1986) adornou a anestesia no Hospital de São Bartolomeu, em Londres. Sir Ivan Magill (1888-1986) havia aplicado a anestesia, durante a guerra, para Sir Harold Gilles, que inventou a cirurgia plástica em Sidcup. Para evitar que o rosto deformado se tornasse um campo de batalha para o cirurgião e o anestesista, Magill inseria um tubo no nariz, que passava pelo céu da boca, pela língua e pelas cordas vocais até a traquéia. Desse modo não havia impedimento entre a parte inferior do cilindro de oxigênio e os alvéolos esponjosos dos pulmões do paciente. Foi uma conveniência muito bem recebida pelos anestesistas, que passavam muito tempo lutando para evitar que o paciente morresse

A despeito dos aparelhos, cada vez mais aperfeiçoados, o anestesista continuava como a figura desprezada, homem do pedaço de pano e da garrafa, garrafa de clorofórmio no bolso traseiro da sobrecasaca, pedaço de pano no outro bolso para pingar o anestésico, ganhando 10% dos honorários do cirurgião o Fígaro, o Admirável Crichton, o Jeeves do teatro operatório.

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