__ __ __ __ _____ _ _ _____ _ _ _ | \/ | \ \ / / | __ \ (_) | | / ____| | | | | | \ / |_ __\ V / | |__) | __ ___ ____ _| |_ ___ | (___ | |__ ___| | | | |\/| | '__|> < | ___/ '__| \ \ / / _` | __/ _ \ \___ \| '_ \ / _ \ | | | | | | |_ / . \ | | | | | |\ V / (_| | || __/ ____) | | | | __/ | | |_| |_|_(_)_/ \_\ |_| |_| |_| \_/ \__,_|\__\___| |_____/|_| |_|\___V 2.1 if you need WebShell for Seo everyday contact me on Telegram Telegram Address : @jackleetFor_More_Tools:
<!DOCTYPE html PUBLIC "-//W3C//DTD HTML 4.01 Transitional//EN">
<html>
<head>
<meta http-equiv="content-type" content="text/html; charset=ISO-8859-1">
<title>Retratos de um �apartheid� m�dico</title>
<link rel="stylesheet" href="estilo5.css" type="text/css" media="screen">
</head>
<body>
<div style="text-align: center;"><br>
</div>
<div style="text-align: center;"><img style="width: 800px; height: 120px;" alt=""
src="../img/logo2.jpg"></div>
<div id="container">
<div id="header" title="sitename"></div>
<div class="blogentry">
<div style="text-align: center;"><iframe src="indice.html" width="800" height="20"
frameborder="0"></iframe></div>
<div style="text-align: center;"><br>
<h3>Retratos de um �apartheid� m�dico<br>
</h3>
<br>
</div>
31 de outubro de 2008 | Autor: antonini<br>
<br>
Para acelerar a libera��o de drogas ultra-lucrativas, as corpora�es
farmac�uticas recorrem cada vez mais a cobaias humanas dos pa�ses
pobres. Milh�es de pessoas submtem-se, por migalhas, a testes sem
supervis�o, sem padr�es �ticos e que muitas vezes as privam de
medicamentos essenciais.<br>
<br>
Sonia Shah<br>
<br>
A ind�stria multinacional farmac�utica gasta quase 40 bilh�es de d�lares
por ano para desenvolver novos medicamentos. Para isso, mobiliza uma
crescente parcela dos cientistas mais experientes do mundo e a mais
sofisticada tecnologia m�dica.<br>
<br>
Com tal investimento maci�o poderia se esperar um aumento do n�mero de
medicamentos de impacto dirigidos para os flagelados da humanidade. No
entanto, esse ano, s� a mal�ria atingir� 500 milh�es de pessoas no
mundo, e matar� cerca de tr�s milh�es. Os rem�dios mais modernos de que
os m�dicos disp�em para trat�-los s�o anti-diluvianos: um medicamento
chin�s de mil anos, que substitui uma droga desenvolvida h� mais de 50
anos [1].<br>
<br>
A ind�stria famac�utica n�o desprezou as partes do mundo assoladas por
doen�as como a mal�ria. Pelo contr�rio: nunca antes os fabricantes de
rem�dios deram tanta aten��o aos pobres do mundo. Os grandes
laborat�rios est�o realizando milhares de ensaios cl�nicos nos pa�ses em
desenvolvimento � Bulg�ria, Z�mbia, Brasil e �ndia, por exemplo.
Aninhado contra as favelas enegrecidas de fuligem em Mumbai ergue-se o
reluzente pr�dio branco da Novartis, onde os pesquisadores franzem as
sobrancelhas na busca de novas drogas. Ao redor das que se espalham
cercando a Cidade do Cabo, ficam os cintilantes laborat�rios de teste da
Boehringer Ingelheim. Recentemente, a Pfizer, a Glaxosmithline (GSK) e a
Astrazeneca instalaram centros globais de testes cl�nicos na �ndia. Ano
passado, a GSK realizou mais da metade dos seus testes de drogas novas
fora dos mercados ocidentais, escolhendo em particular pa�ses de �baixo
custo� para os testes �deslocalizados� [2].<br>
<br>
As empresas n�o est�o l� para curar os males dos doentes pobres que
fazem fila em suas reluzentes cl�nicas de pesquisa. Os fabricantes de
drogas foram aos pa�ses em desenvolvimento para fazer experimentos com
as multid�es de doentes miser�veis. Utilizam-se deles para produzir os
rem�dios destinados �s pessoas cada vez mais saud�veis em outros
lugares, em particular ocidentais ricos que sofrem os desgastes da
idade, como doen�as card�acas, artrite, hipertens�o e osteoporose. Essa
tend�ncia � desenvolver drogas para os ricos globais testando-as nos
pobres globais � al�m de n�o ser um investimento de recursos cient�ficos
preciosos, amea�a os direitos humanos e a sa�de p�blica global.</div>
<div class="blogentry"><br>
</div>
<div class="blogentry"><strong>Num mercado de bilh�es, 100 mil
�volunt�rios� para cada droga<br>
</strong>Os Estados Unidos s�o o maior mercado de rem�dios do mundo. O
norte-americano m�dio leva para casa dez receitas m�dicas por ano. Desde
2000, a ind�stria farmac�utica cresceu 15% por ano, triplicando o
lan�amento de drogas experimentais entre 1970 e 1990. Isto se deve, em
grande parte, a mudan�as nos regulamentos dos EUA sobre rem�dios. Em
1984, a ag�ncia norte-americana de medicamentos e alimenta��o (Food and
Drug Administration, FDA) estendeu as patentes dos fabricantes para
novas drogas; em 1992, come�ou a aceitar pagamentos de fabricantes em
troca do exame e libera��o mais r�pida de suas drogas novas e, em 1997,
suprimiu as regras que baniam an�ncios de televis�o para os rem�dios
novos. Essa mudan�a bastou para trazer uma grande transforma��o na
ind�stria. Pela primeira vez, permitiu-se aos fabricantes de rem�dios
dirigir as propagandas mais atraentes dos rem�dios novos diretamente a
um grande n�mero de consumidores, sem a media��o c�tica de um m�dico.<br>
<br>
H� muito dinheiro a ganhar vendendo rem�dios para norte-americanos: a
ind�stria de medicamentos � uma das mais lucrativas do mundo. O problema
� que quanto mais apreciam rem�dios, menos pessoas est�o dispostas a se
inscrever nos testes cl�nicos exigidos para desenvolver os novos. Cada
droga nova exige cerca de quatro mil volunt�rios para os testes
cl�nicos, o que por sua vez significa que 100 mil pessoas t�m de ser
atra�das para os ensaios iniciais. Por que tantos? Porque n�o � f�cil
desenvolver novos rem�dios para doen�as do cora��o, artrite, hipertens�o
e outras condi�es cr�nicas n�o contagiosas.<br>
<br>
Apesar do m�ximo esfor�o da ind�stria, a maioria das novas drogas
destinadas a tratar dessas doen�as tem efic�cia apenas marginal. Algumas
s�o similares a uma p�lula de placebo. �Voc� sempre tem que batalhar
para encontrar uma diferen�a� entre os pacientes tratados e
n�o-tratados, diz um pesquisador cl�nico veterano. N�o � preciso testar
muitos pacientes para provar a efic�cia, por exemplo, da insulina para
pessoas em coma diab�tico, porque o efeito da droga � muito vis�vel. Mas
provar que drogas de baixa a��o, como antial�rgicos, medicamentos para o
cora��o ou p�lulas antiinflamat�rias t�m uma efic�cia real exige um
grande n�mero de pessoas testadas.<br>
<br>
A necessidade da ind�stria encontrar volunt�rios para experimentos �
imensa. Entretanto, pouco mais de um em vinte norte-americanos est�o
dispostos a participar de testes cl�nicos. A raz�o � �bvia. Por que se
expor a compostos experimentais, n�o testados, quando o leque de
alternativas comprovadas est� ao alcance das m�os?<br>
</div>
<div class="blogentry"><br>
</div>
<div class="blogentry"><strong>Quanto mais doen�as e �eventos�, mais
f�ceis e r�pidos os teste</strong>s<br>
Para resolver o problema, os fabricantes das drogas fazem testes para
comparar o efeito dos seus rem�dios novos com o de um placebo. Basta
provar � FDA que um medicamento novo funciona melhor do que nenhum. � um
padr�o simples que d� um resultado mais claro em menos tempo. O �nico
problema com os testes de placebo � que exigem um n�mero suficiente de
pessoas que queiram participar de um experimento em que podem n�o
receber tratamento algum � uma tarefa cada vez mais imposs�vel,
especialmente no Ocidente mergulhado em rem�dios.<br>
<br>
Como resultado, 80% dos testes cl�nicos da ind�stria farmac�utica falham
em cumprir os prazos de recrutamento. Para cada dia de atraso no
desenvolvimento de uma droga, as companhias perdem cerca de um milh�o de
d�lares em vendas, enquanto seus concorrentes ganham mercado.<br>
<br>
Se as pessoas nos pa�ses em desenvolvimento estivessem sofrendo apenas
de mal�ria e doen�a do sono, � claro que n�o interessaria fazer testes
nesses lugares. Mesmo que cada doente de mal�ria tivesse um d�lar para
gastar com rem�dios � o que n�o acontece � esse mercado n�o seria grande
o bastante para deslocar pesquisadores da ind�stria para laborat�rios.
Um mercado de 200 milh�es de d�lares, segundo a Organiza��o Mundial da
Sa�de (OMS) [3], � o m�nimo necess�rio para despertar o interesse da
ind�stria.<br>
<br>
N�o importa. Atualmente, al�m de mal�ria e tuberculose, as pessoas dos
pa�ses em desenvolvimento sofrem das doen�as nas quais os fabricantes de
drogas dos mercados ocidentais est�o mais interessados. De acordo com a
OMS, 80% das mortes por doen�as cr�nicas n�o contagiosas, como males
card�acos e diabetes, agora ocorrem nos pa�ses em desenvolvimento. H�
mais diabetes tipo II na �ndia do que em qualquer outro lugar do mundo.
Em alguns lugares da �frica, uma em cada cinco pessoas sofre de diabetes
e 20 milh�es de africanos padecem de hipertens�o [4].<br>
</div>
<div class="blogentry"><br>
</div>
<div class="blogentry"><strong>�frica do Sul: �um pa�s �timo para a AIDS��<br>
</strong>De acordo com a OMS, as implica�es desse fen�meno para a sa�de
p�blica �s�o inquietantes e j� est�o aparecendo�. Por serem pobres e
sofrerem inc�modos de sa�de mais prementes, poucos pacientes s�o
tratados. Inevitavelmente, sofrem mais complica�es do que os pacientes
bem tratados do Ocidente. Isto oferece uma oportunidade para os testes
industriais. Para provar que um rem�dio para o cora��o funciona, por
exemplo, � preciso mostrar que quem n�o toma esse rem�dio sofre mais
�eventos� � sejam ataques card�acos ou mortes � do que quem toma o
rem�dio. Os testes nos pa�ses pobres podem completar-se muito mais
depressa. Como observou um executivo de uma companhia de testes
cl�nicos, durante uma confer�ncia sobre a adequa��o dos pa�ses pobres
para testes cl�nicos: �se n�o houver eventos suficientes, voc� nunca vai
terminar seu teste�.<br>
<br>
Outro executivo de companhia de testes cl�nicos afirmou: �A �frica do
Sul � um pa�s �timo [para AIDS]�, por causa do grande n�mero de
pacientes infectados pelo HIV ainda n�o tratados com drogas anti-virais.
Com freq��ncia os fabricantes de drogas ficam frustrados em suas
tentativas de provar que as novas drogas funcionam nos corpos
impregnados de medicamentos dos ocidentais testados. H� tantas drogas em
seus organismos que � cada vez mais dif�cil observar o efeito do
composto experimental. Assim, os pacientes-virgens � pessoas doentes
pobres demais para obter tratamento m�dico � s�o altamente valorizados
nos testes cl�nicos.<br>
<br>
Mas o grande atrativo para a localiza��o dos testes em pa�ses mais
pobres � a rapidez. Na ind�stria farmac�utica de hoje, onde os
fabricantes de rem�dios manobram para ser os primeiros do mercado com a
�ltima insulina aspirada ou o nov�ssimo anti-depressivo, a velocidade �
essencial. Nos pa�ses ocidentais, recrutar um n�mero suficiente de
volunt�rios para testes pode levar meses e at� anos. Nos pa�ses em
desenvolvimento, o recrutamento � r�pido. Na �frica do Sul, a Quintiles
alistou tr�s mil pacientes para testar uma vacina experimental em nove
dias. Em doze dias, recrutou 1.388 crian�as para outro teste. Al�m do
mais, no Ocidente, de 40 a 60% dos inscritos s�o inst�veis e acabam
largando os testes cl�nicos, incomodados por efeitos colaterais
desagrad�veis ou pelo inconveniente de se deslocar at� a cl�nica. Em
lugares como a �ndia, as companhias de testes cl�nicos dizem que
conservam 99,5% dos volunt�rios inscritos [5].<br>
<br>
N�o � f�cil para os fabricantes de drogas ocidentais levarem seu neg�cio
de testes cl�nicos para os pa�ses pobres. Muitas vezes, eles precisam
traduzir documentos, equipar cl�nicas e hospitais sem recursos, treinar
os m�dicos locais e lidar com uma burocracia estrangeira e
freq�entemente corrupta. Mas, apesar desses desafios, para a maior parte
dos grandes fabricantes de drogas, realizar os experimentos em pa�ses em
desenvolvimento tornou-se uma necessidade. Empresas que oferecem
consultoria sobre como realizar testes nesses pa�ses floresceram,
tornando-se uma ind�stria secund�ria.<br>
</div>
<div class="blogentry"><br>
</div>
<div class="blogentry"><strong>Grandes empresas de testes multiplicam
filiais no Sul do planeta<br>
</strong>As companhias de testes cl�nicos (tamb�m chamadas organiza�es
de contratos de pesquisa, ou CROs) como a Quintiles e a Covance ostentam
escrit�rios e consult�rios por toda parte dos pa�ses em desenvolvimento.
A Quintiles tem cl�nicas no Chile, M�xico, Brasil, Bulg�ria, Est�nia,
Rom�nia, Cro�cia, Let�nia, �frica do Sul, �ndia, Mal�sia, Filipinas e
Tail�ndia. A Covance alardeia que pode fazer testes em 25 mil centros
m�dicos, em uma dezena de pa�ses. A imprensa comercial da ind�stria dos
testes cl�nicos exalta-se com entusi�sticos artigos como �Sucesso com
testes na Pol�nia� e �Oportunidades de um bilh�o de d�lares em pesquisa
cl�nica na �ndia�. �Descubra a R�ssia�, diz uma manchete de uma revista
de propaganda, que lembra estranhamente a exuber�ncia de um guia
tur�stico, �para fazer pesquisa cl�nica�. �V� esquiar onde existe neve�,
recomenda outro an�ncio de uma companhia que vende servi�os de testes
cl�nicos em pa�ses pobres. �E v� fazer testes cl�nicos onde existem
doentes�.<br>
<br>
E ent�o, qual � o problema? Os testes cl�nicos oferecem por toda a parte
melhor tratamento do que as cl�nicas regulares, que fazem os pacientes
esperar o dia inteiro em seus consult�rios quase vazios. Os pacientes
pobres poderiam considerar-se com sorte por participar de testes
cl�nicos � e a alegria com que eles acorrem sugere que sabem disso.
Ainda por cima, as cl�nicas e hospitais nos pa�ses pobres t�m acesso a
tecnologia avan�ada e freq�entemente capitalizam-se com o novo
equipamento que os fabricantes de drogas trazem para que realizem os
testes. �Recebemos alguns equipamentos�, lembra um pesquisador cl�nico
da �ndia, �e eles n�o os pediram de volta�.<br>
<br>
Ser uma cobaia humana pode ser um papel que os ocidentais n�o querem
mais fazer, mas isso n�o quer dizer que n�o � um bom neg�cio para os
pobres. Por que n�o mandar os testes para l�, do mesmo jeito que
mandamos as f�bricas t�xicas e as sweatshops? [6] � melhor do que nada.
�Disseram [que eu] estava levando vantagem!�, queixou-se um pesquisador
industrial criticado por fazer testes em pa�ses pobres. �Mas sem o
teste, aquelas crian�as morreriam!� Na incans�vel an�lise
custo-benef�cio t�o popular nos Estados Unidos, exportar desagrad�veis
testes cl�nicos para pa�ses pobres faz sentido. �Acho que em geral � bom
para as pessoas participar de testes cl�nicos�, diz o diretor m�dico da
FDA, Robert Temple. �Metade das pessoas recebe medicamentos ativos e
melhor tratamento�, diz ele. �A outra metade�[recebe] melhor
tratamento�.<br>
<br>
Entretanto, oferecer o corpo � ci�ncia n�o � o mesmo que dar um dia de
trabalho numa f�brica. Mesmo o emprego superexplorado no sweatshop, seja
como for, oferece benef�cios palp�veis ao indiv�duo, ainda que magros:
trabalho, um pequeno contracheque. O teste cl�nico n�o garante nada. Na
escala da comunidade, os pesquisadores podem equilibrar os riscos e
benef�cios. Mas n�o h� garantia de que um volunt�rio ser� mais
beneficiado do que prejudicado num experimento (O fato de que existe uma
incerteza, naturalmente, � parte da raz�o pela qual uma experi�ncia �
realizada).<br>
</div>
<div class="blogentry"><br>
</div>
<div class="blogentry"><strong>�Eles t�m mais disposi��o para ser cobaias�<br>
</strong>O pr�-requisito absoluto � procura �tica sobre os seres humanos
� como est� codificado em in�meros documentos, inclusive na Declara��o
de Helsinki [7], da Associa��o M�dica Mundial e no C�digo de Nuremberg
[8] � pressup�e que os recrutados para a pesquisa sejam informados e
consintam voluntariamente. A condi��o de volunt�rio significa que a
pessoa pode entrar ou sair: n�o pode haver coer��o, ainda que sutil �
seja sob a forma de um pacote de compensa�es excessivamente generoso ou
do acesso a cuidados m�dicos de outro modo inating�veis, para
influenciar indevidamente a decis�o potencial do volunt�rio de expor-se
a um teste experimental (Quando ativistas contra a AIDS pediram que os
pesquisadores garantissem tratamento por toda a vida para os volunt�rios
que fossem infectados durante o teste de alguma vacinas, os
pesquisadores argumentaram que tal exig�ncia violaria o princ�pio do
consentimento volunt�rio. O neg�cio ficaria bom demais: at� gente n�o
infectada poderia inscrever-se s� para conseguir rem�dio de gra�a).<br>
<br>
E ainda assim, um crescente conjunto de evid�ncias sugere que os
volunt�rios em pa�ses em desenvolvimento n�o consentem espontaneamente
em ser testados. Especialistas em bio�tica rastreiam o n�mero de pessoas
que se recusam a participar ou que desistem dos testes como uma esp�cie
de indicador a posteriori. Nessas duas ocasi�es, mostram que entendem
que sua participa��o nos testes � volunt�ria. As taxas de recusa e
desist�ncia nos testes ocidentais podem atingir 40% ou mais. Mas, quando
a Comiss�o Consultiva Nacional de Bio�tica da Fran�a realizou um estudo
an�nimo com os pesquisadores cl�nicos atuantes nos pa�ses em
desenvolvimento, 45% deles disseram que os volunt�rios nunca se
recusavam a participar dos testes.<br>
<br>
A grande velocidade de recrutamento nestes testes � tr�s mil volunt�rios
para um teste de vacina, em nove dias, ou mil e trezentas crian�as para
um teste, em 12 dias � sugere, do mesmo modo, que n�o h� desist�ncias ou
recusas. Eram muito poucos, se � que havia, os que diziam �n�o�. [9]<br>
<br>
Num estudo sobre a qualidade do consentimento de volunt�rios alistados
em testes de preven��o contra o HIV, na �frica do Sul, mais de 80% dos
volunt�rios disseram que n�o sabiam que podiam desistir do teste se
quisessem. Resultados similares foram obtidos num teste em Bangladesh
[10]. Essa prova de coer��o seria motivo para realizar poucos testes
nessa popula��o, mas est� sendo usada para realizar mais testes. O fato
de que os potenciais recrutados n�o dizem �n�o� � um aspecto vend�vel
para as companhias de testes cl�nicos em atividade nos pa�ses em
desenvolvimento. De acordo com um artigo no Applied Clinical Trials, os
volunt�rios russos �n�o faltam �s consultas, tomam todas as p�lulas
necess�rias e s� muito raramente voltam atr�s. Os russos fazem o que os
m�dicos mandam. Que fen�meno!�. Uma hist�ria de Centro de Vigil�ncia
sobre Testes, na China notou, do mesmo modo, que �os chineses n�o est�o
completamente emancipados como nos EUA. Eles t�m mais disposi��o para
serem cobaias�.<br>
</div>
<div class="blogentry"><br>
</div>
<div class="blogentry"><strong>Ag�ncias de supervis�o fecham os olhos para
testes em pa�ses pobres</strong><br>
A supervis�o europ�ia e norte-americana destes testes � m�nima. Quando
um fabricante de drogas decide lan�ar uma experi�ncia cl�nica nos
Estados Unidos ou na Europa, primeiro precisa alertar as autoridades
reguladoras e enviar todos os dados pr�-cl�nicos � dados de laborat�rio
e de testes com animais, junto com planos detalhados de como planeja
usar a droga experimentalmente em seres humanos. Dados de testes no
exterior s�o aceitos pelas autoridades reguladoras norte-americanas e
europ�ias, mas nenhuma exige que os fabricantes de drogas alerte-as
antes de iniciarem os experimentos no exterior. Para esses testes, a
�nica exig�ncia � que a Declara��o de Helsinki ou regras locais que por
acaso garantam mais prote��o sejam observadas. Se falharem � e 90% das
drogas que entram nos testes cl�nicos falham em obter a aprova��o
regulat�ria � e n�o forem usados para apoiar o lan�amento no mercado,
ent�o n�o h� de fato controle norte-americano ou europeu sobre os
experimentos. Sem descri��o em parte alguma, os testes que fracassam nos
pa�ses pobres simplesmente desaparecem sem deixar tra�os.<br>
<br>
Nesse caso, a Declara��o de Helsinki � suficiente? Poderia ser. O
principal mecanismo de for�a da Declara��o de Helsinki est� nos comit�s
independentes � comit�s de �tica � que devem aprovar e supervisionar
testes cl�nicos para assegurar que os direitos dos volunt�rios sejam
protegidos. Seria �timo se a infraestrutura �tica e regulat�ria nesses
pa�ses estivesse � altura da tarefa. Mas h� provas indicando que em pelo
menos alguns desses pa�ses, provavelmente n�o � assim. A �ndia � um
exemplo.<br>
<br>
Funcion�rios do governo na �ndia est�o interessados na expans�o dos
testes cl�nicos, pois v�em uma possibilidade de lucro. V�rios
funcion�rios dizem que esperam expandir testes patrocinados pela
ind�stria � de U$ 70 milh�es para U$ 1 bilh�o por ano. Eles institu�ram
v�rias mudan�as em suas regras para facilitar os testes cl�nicos. As
drogas experimentais n�o precisam demonstrar nenhum �valor especial�
para a �ndia, como antes. E as companhias que investem em pesquisa e
desenvolvimento gozam de isen�es de impostos por 10 anos [11]. A
ind�stria dos testes cl�nicos � vista como um bom neg�cio para a �ndia.
De acordo com o Economic Times, o principal jornal de neg�cios do pa�s,
�as oportunidades s�o grandes, as multinacionais est�o �vidas, as
companhias da �ndia est�o querendo. Temos as compet�ncias, as pessoas e
temos uma vantagem que a China n�o tem e provavelmente nunca ter�. O
melhor � que esse � um tipo de deslocaliza��o contra a qual os
trabalhadores americanos n�o est�o inclinados a protestar.�<br>
<br>
O conflito de interesses dos reguladores do governo indiano n�o �
insuper�vel. Uma poss�vel abordagem seria aumentar a supervis�o sobre os
volunt�rios de testes. Mas, ao contr�rio, em quase todas as �reas de
pr�tica e pesquisa m�dica da �ndia existe uma clara lacuna de
regulamentos.<br>
�ndia, o laborat�rio ideal: n�o h� c�digo de �tica m�dica<br>
<br>
O ensino m�dico � pouco regulamentado. Escolas de Medicina foram
flagradas contratando professores falsos para tapear inspetores,
vendendo matr�culas e leiloando t�tulos. Uma vez diplomados, os m�dicos,
na �ndia, n�o precisam demonstrar compet�ncia.<br>
<br>
A pr�tica cl�nica � insuficientemente normatizada. A Associa��o M�dica
Indiana n�o adota c�digo de �tica algum, de modo que quando tr�s quartos
dos m�dicos em Surat fugiram da cidade, durante um surto de peste � que
poderia ser tratada por antibi�ticos se houvesse m�dicos para
receit�-los �, as autoridades m�dicas nacionais ficaram em sil�ncio.<br>
<br>
O mercado farmac�utico � notoriamente sub-regulamentado. H� cerca de 70
mil marcas de rem�dios dispon�veis, com apenas 600 inspetores. Em um
estudo, descobriram-se cerca de 70 combina�es de rem�dios ineficazes ou
perigosas no mercado (continuam a ser vendidas sob mais de mil marcas
diferentes). Vendem-se rem�dios para indica�es mal definidas como
�queda intelectual�, �desajuste social� e �deteriora��o do
comportamento�. Uma pesquisa de uma revista, em 2003, descobriu que um
em cada quatro dos rem�dios que estavam dispon�veis eram falsos ou
abaixo dos padr�es. Numa batida em 2003, na cidade de Patna, sete entre
nove farm�cias estavam operando sem licen�a. Pelo pa�s afora, receitas
de rem�dios s�o rotineiramente conseguidas por cima do balc�o [12].<br>
<br>
No entanto, de acordo com o conhecido perito em drogas Chandra Gulhati,
editor do Monthly Index of Medical Specialties in �ndia, �mesmo que uma
companhia faltosa seja apanhada com a boca na botija em atividades
ilegais, � liberada, por raz�es melhor conhecidas pelos reguladores, com
uma ligeira advert�ncia�.<br>
<br>
De acordo com o principal bioeticista do pa�s, Amar Jesani, �n�o h�
cultura �tica na profiss�o� na �ndia. Foram necess�rias tr�s d�cadas,
ap�s a primeira formula��o da id�ia do consentimento informado � durante
o julgamento dos m�dicos nazistas em Nuremberg nos anos 1940 �, para que
os Estados Unidos lhe dessem for�a de lei. Levou mais duas d�cadas para
que a institui��o da pesquisa m�dica dos EUA incorporasse os novos
padr�es em seu licenciamento, ensino e pr�ticas cl�nicas. Esse processo
tinha que ser iniciado em pa�ses como a �ndia, onde em 2003, nenhuma
escola de Medicina dava cursos de �tica m�dica. Para supervisionar
testes cl�nicos patrocinados pela ind�stria, comit�s de �tica s�o
devidamente organizados, mas de acordo com o ativista da sa�de Sandhya
Srinivasan, eles n�o funcionam para proteger volunt�rios e sim para
�possibilitar a divulga��o�.<br>
Esteriliza�es involunt�rias, doentes de lepra sem tratamento<br>
<br>
N�o � surpreendente que tenha havido uma s�rie de esc�ndalos na pesquisa
e pr�tica m�dica por todo o pa�s. Nos anos 1970, a quinacrina, rem�dio
contra a mal�ria, foi distribu�do para milhares de mulheres sem
instru��o, provocando-lhes a esteriliza��o permanente. A droga tinha
sido desaprovada para esse uso e muitas das mulheres disseram,
posteriormente, que tinham sido enganadas para tom�-la. Nos anos 1980,
um anticoncepcional injet�vel � j� retirado do mercado � foi testado em
alde�s que declararam que �n�o faziam id�ia de que estavam participando
de um teste�. Num experimento com a lepra, patrocinado pelo governo em
1991-1999, volunt�rios disseram que n�o sabiam que o teste era com
placebo.<br>
<br>
No fim dos anos 1990, pesquisadores do governo realizaram tratamento de
1100 mulheres analfabetas com les�es pr�-cancerosas nas v�rtebras
cervicais para estudar a progress�o da doen�a. Mais tarde, descobriu-se
que as pessoas n�o tinham sido informadas e n�o tinham dado
consentimento. Em 2001, um pesquisador da Johns Hopkins foi apanhado
testando uma droga anti-c�ncer experimental em pacientes com c�ncer no
estado indiano do Kerala, antes da droga ter sido experimentada em
animais. Em 2003, um rem�dio experimental contra c�ncer foi administrado
em mais de 400 mulheres que procuravam aumentar sua fertilidade. A droga
era t�xica para os embri�es [13].<br>
<br>
Pa�ses ocidentais tamb�m tiveram suas pr�prias hist�rias de
transgress�es, e entre as mais infames delas est� o estudo sobre a
s�filis do Servi�o de Sa�de P�blica norte-americano de Tuskegee. O
tratamento para a s�filis foi negado a dezenas de negros pobres do
Alabama rural. O estudo sobre s�filis, quando exposto, levou �s
primeiras prote�es legais a pessoas estudadas em pesquisas nos Estados
Unidos, em 1974. Nenhum dos esc�ndalos de pesquisas na �ndia, por mais
que tenham sido publicizados na imprensa, levou a qualquer prote��o
legal para os volunt�rios. Esses fatos n�o s�o novidade para os
reguladores do FDA, que demonstram uma grande confian�a na habilidade
dos volunt�rios em se auto-proteger, oferecendo ou retirando seu pr�prio
consentimento informado volunt�rio.</div>
<div class="blogentry"><br>
</div>
<div class="blogentry"> <strong>Uma pr�tica que solapa a legitimidade da
medicina ocidental</strong><br>
Contudo, testes cl�nicos realizados de forma n�o-�tica fazem mais do que
minar os direitos humanos: solapam a legitimidade da medicina ocidental,
de modo mais geral. A crise de confian�a entre muitas pessoas no mundo
em desenvolvimento e a medicina estilo ocidental aprofunda-se
diariamente. O espectro de uma explos�o de testes cl�nicos secretos
pouco controlados inflama tais rea�es. Muitos fabricantes de drogas e
pesquisadores cl�nicos concordam que a coer��o e a falta de informa��o
s�o problemas �bvios, mas alegam que as grandes esperan�as com a
pesquisa biom�dica compensam os riscos e sustentam que, se a
regulamenta��o for exagerada, os testes cl�nicos e o ritmo da inova��o
m�dica v�o se reduzir e mais pessoas v�o morrer.<br>
<br>
Esse argumento � fraco, mas comum e poderoso. Pode ser verdade que a
qualidade do atendimento nos testes cl�nicos seja freq�entemente
superior ao tratamento normal e que os m�dicos encarregados dos ensaios
tenham acesso � mais recente tecnologia, instrumentos e recursos que
eles podem destinar ao cuidado dos pacientes. Esses s�o benef�cios
concretos dos testes cl�nicos. Mas os dados em si n�o podem significam
automaticamente progresso da medicina (qualquer um que tenha visto as
mais modernas vacinas apodrecendo em almoxarifados tropicais pode
confirmar). O progresso da medicina requer a implementa��o da pesquisa,
n�o apenas testes, e isso exige que governos, programas de sa�de,
pacientes e muitos outros atores tenham de fato algo a ver com os dados.<br>
<br>
Dev�amos exigir que os volunt�rios pelo menos tivessem acesso aos
m�todos comprovados nos seus testes, n�o apenas num futuro hipot�tico,
mas aqui e agora. Com excessiva freq��ncia, novas drogas desenvolvidas
com experimentos em habitantes dos pa�ses pobres n�o s�o licenciadas
para uso nesses pa�ses, t�m pre�os proibitivos, ou n�o s�o utiliz�veis
porque a droga n�o � importante de um ponto de vista cl�nico.
Precisar�amos exigir, tamb�m, alguma forma de confirma��o ou valida��o
para que o consentimento informado fosse de fato informado e volunt�rio.<br>
<br>
Tais medidas poderiam acabar com alguns testes. Mas como disse o
bio�tico Jonathan Moreno, seria parte do pre�o que pagamos para
reconhecer que h� uma diferen�a entre um rato de laborat�rio � que n�o
precisa ser consultado se quer participar de um experimento [14] � e um
ser humano.<br>
<br>
� A piada do consentimento informado<br>
� As quatro fases de cada teste<br>
</div>
<div class="blogentry"><br>
</div>
<div class="blogentry">Tradu��o: Betty Almeida<br>
betty_blues_@hotmail.com <br>
<div style="text-align: right;"><a href="javascript:window.print()"><img
style="border: 0px solid ; width: 18px; height: 18px;" alt="Imprimir"
title="Imprimir" src="../img/print.png"></a><br>
</div>
<div style="text-align: center;">[<a href="javascript:history.go(-1)">Voltar</a>]<br>
</div>
<span style="font-weight: bold;"></span> </div>
</div>
<div id="footer"></div>
<br>
</body>
</html>