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<title>Augusto Stelffeld</title>
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<center><font class="option" color="#000000"><b><br>
</b></font></center>
<br>
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Augusto Stelffeld
</h2>
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href="http://www.cienciasdasaude.org/portal/?author=1"
title="Posts de heinz" rel="author"><br>
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</div>
<h4 style="text-align: justify;"><span id="more-6405"></span>A
Vinda de Augusto Stelffeld para o Brasil</h4>
<p style="text-align: justify;">
<span class="shutterset_singlepic685"><img
style="width: 181px; height: 240px; float: left;"
class="ngg-singlepic ngg-left" src="../img/685__320x240_685.jpg"
alt="Augusto Stelffeld" title="Augusto Stelffeld"></span>
As pendências territoriais limítrofes entre a
Dinamarca e as mais avançadas terras setentrionais da
Alemanha, datam do tempo em que, para a defesa do Holstein,
então convertido ao cristianismo, graças ao poder
e à vontade de Carlos Magno e de seu filho, Ludovico, o pio,
foi criada na velha Germânia, entre o Eider e o Schlei, a
marca <strong><em>Schleswig</em></strong><em>.</em></p>
<p style="text-align: justify;">Fora
fixada a divisa para impedir as incursões dos dinamarqueses
que, por sua vez, construíram aquela famosa <strong>danorum
vallum</strong>, uma vala de 14
quilômetros de extensão, com 10 a 13 metros de
profundidade e que ainda na guerra de 1864 teve a sua
importância bélica.</p>
<p style="text-align: justify;">E
as seguidas guerras, as confabulações
diplomáticas, os acordos e os juramentos, durante mais de um
milênio, justificavam-se nos direitos de posse e de governo
pelas sucessões dinásticas, ora apaziguadoras e
acomodatícias, ora rebeldes e vingativas.</p>
<p style="text-align: justify;">Em
1720, o duque Carlos Frederico, apenas atingia a maioridade, foi
escorraçado de seus domínios por Frederico IV da
Dinamarca, logo reconhecido, sob juramento cristão, como o
único soberano de Schleswig-Holstein.</p>
<p style="text-align: justify;">Senhor
apenas de suas propriedades no Holstein, o duque Carlos Frederico,
possivelmente, aguardava qualquer reação do povo
ou de sua ilustre família, entretanto, tal não
sucedeu, pois seu filho Carlos Pedro Ulrico (neto de Pedro, o grande)
foi proclamado herdeiro do trono da Rússia, qual de fato
ocupou em 1762 como Pedro III; foi assassinado seis meses mais tarde
pelos asseclas do príncipe Orlow, favorito de quem, ficando
viúva, seria a famosíssima Catarina II.</p>
<p style="text-align: justify;">Já
Adolfo Frederico, o tio do duque Carlos Frederico e que
também fora seu tutor, ascendia ao trono da
Suécia em 1751. Dona absoluta de dois tronos estranhos e
muito mais importantes que os Ducados, a linha Schleswig-Gottorp
não se interessou mais pela corregência de
Schleswig-Holstein, indissoluvelmente unidos desde 1386.</p>
<p style="text-align: justify;">Nestas
condições, ratificada a desistência por
Catarina II em 1767, Schleswig-Holstein ficaram pacificamente aos
cuidados do rei Cristiano VII da Dinamarca (1773) que, por sua vez,
desistiu dos condados de Oldenburg e de Delmenhorst, fundando-se uma
nova linha e um novo ducado.</p>
<p style="text-align: justify;">Na
corte dinamarquesa, bem como na alta magistratura pública, a
nobreza de Schleswig-Holstein estava muito bem representada. Gozavam
desta forma os Ducados de muita proteção no reino
e acabaram se incorporando definitivamente à Dinamarca
após a dissolução do Reich em 1806.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas
os ideais de separatismo, de independência e de
restabelecimento de uma Alemanha grande e unida, jamais deixaram de
transparecer e em janeiro de 1848 agravaram-se consideravelmente,
culminando com a proclamação de um governo
provisório, que foi aplaudido por todos, inclusive as
forças armadas lá sediadas.</p>
<p style="text-align: justify;">O
governo provisório, francamente apoiado por Frederico
Guilherme, rei da Prússia, muito interessado na
independência dos Ducados, convocou a 3 de abril de 1848 uma
assembléia do povo, com o fim de ser aprovada a
admissão de Schleswig-Holstein no <em>“<strong>Deutscher
Bund”</strong>.</em></p>
<p style="text-align: justify;">Organizou-se
com entusiasmo um exército, constituído das
tropas regulares dos Ducados e de vários corpos de
voluntários. As tropas libertadoras avançaram com
ímpeto e entusiasmo até Flensburg, a capital por
ocasião da ocupação dinamarquesa,
contudo, após a malograda batalha de Bau (9 de abril),
à ocupação de Schleswig pelo inimigo
(11 de abril) e ao fracassado assalto às famosas trincheiras
de Dueppel (28 de maio), retiraram-se do campo de batalha.</p>
<p style="text-align: justify;">Foi
declarado o fim da guerra no mês de maio e dissolvido o corpo
de voluntários, apesar dos socorros prestados aos patriotas
pelas tropas prussianas e de outros estados alemães, sob o
comando do general Wrangel, que conseguiram infligir aos dinamarqueses
sérias derrotas em Schleswig e Översee (23-24 de
abril), ocupar Fredericia, no pequeno Belt (2 de maio) e sair-se
vitoriosas em Dueppel (5 de junho).</p>
<p style="text-align: justify;">Não
possuía a Alemanha, entretanto, uma marinha de guerra e seus
portos foram bloqueados, com evidentes prejuízos para seu
comércio. Além disso, a Rússia e a
Inglaterra mostraram-se simpáticos à causa da
Dinamarca. Foi assinado o armistício de Malmoe (26 de
agosto), conformando-se, pelo menos aparentemente, os patriotas de
Schleswig-Holstein com as imposições e com a
infrutífera arrancada.</p>
<p style="text-align: justify;">No
ducado de Braunschweig, onde nasceu Augusto Stellfeld a 31 de agosto de
1817, até o ano de 1873 era facultativo o estudo superior da
farmácia para o exercício da
profissão. Podia-se, sem ter freqüentado uma
Faculdade, comparecer perante uma banca examinadora oficial e prestar o
exame, que concedia ao candidato as prerrogativas de auxiliar (Gehilfe)
do “Apothekerbesitzer”
(farmacêutico-proprietário), ou as deste, se para
isso requeresse e houvesse vaga para a instalação
de uma nova farmácia ou possibilidade de compra de uma
já existente.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Augusto
Stellfeld</strong>, com estudos
universitários ou não, devia estar trabalhando em
alguma farmácia de sua cidade natal, possivelmente
após aqueles anos de peregrinação e de
aprendizado, e, talvez, tivesse o propósito de
estabelecer-se futuramente com uma farmácia, o que somente
poderia ser possível por etapas e até que
aparecesse a oportunidade, em geral, após cada
recenseamento, quando, porém, muitos candidatos afluiriam
à vaga.</p>
<p style="text-align: justify;">Empolgado,
entretanto, com a companhia libertadora dos ducados de
Schleswig-Holstein, apresenta-se como voluntário e toma
parte na curta campanha da primavera de 1848. Ao ser dispensado o corpo
de voluntários recebe o seguinte certificado, devidamente
traduzido:</p>
<p style="text-align: justify; padding-left: 120px;"><strong><em>“O
Sr. Stellfeld combateu na guerra da independência dos ducados
de Schleswig-Holstein na primavera de 1848, no corpo de
voluntários de Rantzau, na qualidade de comandante na
3ª Companhia.<br>
Serviu com grande zelo e especial circunspecção e
eu lhe agradeço no fim da guerra e na despedida dos
voluntários em nome da Pátria, contando, se
houver necessidade, de ir com a mesma prontidão ao encontro
do inimigo.”</em></strong></p>
<p style="padding-left: 120px; text-align: justify;"><strong><em>Veile,
7 de maio de 1848.</em></strong></p>
<p style="padding-left: 120px; text-align: justify;"><strong><em>(a)
ilegível</em></strong></p>
<p style="padding-left: 120px; text-align: justify;"><strong><em>General
Comandante do Exército de Schleswig-Holstein.</em></strong></p>
<p style="text-align: justify;">Augusto
Stellfeld prepara-se em seguida para o exame de
farmacêutico-auxiliar, sendo aprovado a 15 de novembro do
mesmo ano de 1848. Presta nesse dia o juramento de fidelidade ao
regente do Ducado e promete cumprir exatamente as
instruções inerentes à
profissão farmacêutica.</p>
<p style="text-align: justify;">Da
vida escolar e profissional de Augusto Stellfeld em sua cidade natal
nada se sabe, nem mesmo das credenciais apresentadas para o exame de
habilitação acima referido.</p>
<p style="text-align: justify;">Informações
ultimamente solicitadas ao professor Jaretzky, residente ou
quiçá natural da cidade de Braunschweig, foram,
infelizmente, negativas.</p>
<p style="text-align: justify;">O
arquivo e toda a documentação ligados aos antigos
exames estaduais foram destruídos pelos bombardeios
intensivos e ininterruptos da última
conflagração, salvo uma pequena parte levada
ainda às pressas para Wolfenbuettel. Entretanto, as
pesquisas efetuadas nesse material também foram
infrutíferas, contudo, o professor Jaretzky prometeu fazer
uma investigação pessoalmente.</p>
<p style="text-align: justify;">Quanto
à farmácia ou farmácias, onde Augusto
Stellfeld teria praticado e depois exercido a profissão,
também foram sem resultado as
indagações iniciadas, compreendendo-se este
malogro se for levado em consideração que das
farmácias existentes na cidade de Braunschweig, apenas uma
única não foi destruída pelas bombas!</p>
<p style="text-align: justify;">Narra
a história que, esgotado o prazo do armistício, a
guerra da independência dos ducados de Schleswig-Holstein foi
reiniciada a 1º de abril de 1849.</p>
<p style="text-align: justify;">Os
45.000 soldados alemães, sob o comando do general prussiano
von Prittwitz, ocuparam a cidade de Schleswig e a 13 de abril,
após uma brilhante vitória naval na
baía de Ekerfoerde, quando pelas baterias da terra foi
incendiada a nau de linha Cristiano VIII e forçada
à rendição a fragata Geison, as tropas
bávaras e saxônicas assaltaram as famosas
trincheiras de Dueppel. Como precaução e temendo
a superioridade numérica dos dinamarqueses, o general
Prittwitz teve ordens de apenas conservar ocupada a cidade de
Schleswig, sem se preocupar com qualquer ofensiva.</p>
<p style="text-align: justify;">Nestas
condições somente as tropas de
Schleswig-Holstein, sob o comando do general prussiano Bonin, que tanto
se salientara na campanha de 1848 e fora o remodelador do
exército após o armistício de Malmoe,
entraram na Jutlândia e derrotaram os dinamarqueses em
Koelding (23 de abril) e em Gudsoe (7 de maio). Iniciaram, em seguida,
o cerco de Fredericia, e depois de terem repelido vitoriosamente
diversas sortidas, foram na noite de 5 para 6 de julho, intensamente
atacadas pelo inimigo, comandado pelo general Buelow. Dada a
inatividade do general Prittwitz, foram reunidas todas as
forças disponíveis da Dinamarca e após
uma batalha sangrenta, as tropas libertadoras foram forçadas
a uma retirada, abandonando-se o cerco de Fredericia, com a perda de
2.800 homens e 28 canhões.</p>
<p style="text-align: justify;">Nesse
ínterim a Prússia firmou novo
armistício com a Dinamarca (10 de julho), para no dia 2 de
julho do ano seguinte (1850) ser assinada a paz. A Prússia
subscreveu também em nome da União
Alemã, ficando a Dinamarca com plenos poderes para repelir
ou sufocar qualquer resistência dos Ducados.</p>
<p style="text-align: justify;">Os
Ducados, após a retirada das tropas prussianas que ocupavam
o sul, enquanto que as suecas ocupavam o norte, procuraram um
entendimento direto com a Dinamarca. Como esta
aproximação foi repelida pelos dinamarqueses, com
arrogância e verdadeiro ódio nacional, os Ducados
resolveram reiniciar a luta com seus próprios recursos.</p>
<p style="text-align: justify;">Com
um exército de 30 mil homens dos Ducados e de
voluntários alemães, o general prussiano von
Willisen, famoso nas campanhas de 1806 a 1815, ocupou o norte de
Schleswig, descuidando-se, porém, de impedir, com uma
rápida incursão, a união dos dois
exércitos dinamarqueses que vinham da Jutlândia e
do Alsen. Enfrentando as tropas inimigas (37 mil homens) ao sul de
Flensburg, em Idstedt (24-25 de julho), e após uma batalha
que a princípio foi favorável aos Ducados, o
exército libertador foi destroçado e obrigado a
retirar-se além do Eider.</p>
<p style="text-align: justify;">Os
dinamarqueses ocuparam novamente a cidade de Schleswig, e os assaltos
de Missunde (12 de setembro) e de Friedrichstadt (4 de outubro), para
os quais Willisen se arrojou, após uma longa
hesitação devido ao mau tempo, foram
rechaçados com grandes perdas. Willisen abandonou o comando
a 7 de dezembro e foi substituído pelo general von der
Horst, que comandara a princípio o batalhão de
caçadores e depois a 3ª brigada de infantaria. Mas
era tarde demais. A Prússia sujeitou-se às
imposições da Áustria, apoiada pela
Rússia, de serem cessadas as operações
bélicas nos Ducados.</p>
<p style="text-align: justify;">Uma
comissão de pacificação
austro-prussiana foi enviada para o Ducado de Holstein, seguida de um
corpo do exército austríaco, e exigiu imediata
cessão das hostilidades, conformando-se a
assembléia do povo com a impossibilidade e a inutilidade de
qualquer resistência.</p>
<p style="text-align: justify;">A
Comissão dissolveu-se a 11 de janeiro de 1851, os
funcionários entregaram seus postos e o exército
foi também reduzido. Os austríacos ocuparam
Holstein e os dinamarqueses Schleswig com Rendsburg, assinando-se
finalmente a 8 de maio de 1852 o protocolo de Londres, prometendo-se
uma autonomia aos Ducados, embora integrados na monarquia dinamarquesa.</p>
<p style="text-align: justify;">O
ultrajante desfecho da sublevação dos Ducados de
Schleswig-Holstein, encarada que foi como um movimento nacionalista
alemão, causou na Alemanha exasperação
e vergonha, culpando-se tanto ao rei da Prússia, como a
falta de união dos estados germânicos.</p>
<p style="text-align: justify;">Via-se
com pesar a situação em que ficaram os Ducados,
considerados rebeldes e destituídos de qualquer direito.
Finalmente, após a guerra de 1864, os Ducados livraram-se
para sempre da Dinamarca, ficando depois de 20 anos de acontecimentos
impetuosos e turbulentos, unidos à Prússia, aos
seus compatriotas.</p>
<p style="text-align: justify;">E
tudo ficou harmoniosamente selado e esquecidas para sempre as tristes
recordações do passado, com o casamento do
então príncipe Guilherme (o posterior kaiser
Guilherme II) com a princesa Vitória, filha de Frederico de
Augustenburg, descendente da linha Schleswig-Sonderburg-Augustenburg,
fundada no segundo quartel do século XVII.</p>
<p style="text-align: justify;">Quando
em fins de 1850 as derradeiras arrancadas para a
independência dos Ducados de Schleswig-Holstein,
encaminhavam-se para a gloriosa derrota, dois movimentos de
colonização para o Brasil preparavam-se em
Hamburgo.</p>
<p style="text-align: justify;">De
um lado, com a queda de Luís Felipe, rei da
França, em 1848, um de seus filhos refugiou-se em Hamburgo e
lhe veio então a lembrança de explorar e povoar
vastas terras do Brasil meridional, as quais, por
condições estipuladas no contrato de casamento
com a princesa dona Francisca Carolina, irmã de D. Pedro II,
passaram a constituir patrimônio dele, Francisco Fernando
Luís Maria de Orleans, príncipe de Joinville.</p>
<p style="text-align: justify;">O
príncipe de Joinville, com a
idade de 25 anos, em fins de 1842, comandando a fragata
“Belle
Pole”, fora mandado<em> <strong>tomar
ares</strong>,</em>
pois, seus amores com uma célebre figura do teatro
francês, preocupavam seus augustos pais. Depois de uma
permanência de 30 dias em Portugal e mais um velejamento de
dois meses pelas costas africanas, a “Belle Pole”
ancorou no Rio de Janeiro a 27 de março de 1843, escoltada
pelas goletas “Fine” e
“Coquette”.</p>
<p style="text-align: justify;">O
filho de Luís Felipe foi recebido no palácio de
São Cristóvão por D. Pedro II, que
contava menos de 20 anos, e depois de uma
conversação de um quarto de hora bem animada,
apesar da taciturnidade do Imperador, foram visitar as princesas. Dona
Januária estava doente e assim dona Francisca encontrava-se
só. A visita protocolar, relatou o tenente Touchard,
ajudante do príncipe de Joinville, transcorreu sem
entusiasmo e ambos não se sentiam muito à
vontade. A princesa pareceu-lhe muito bem, “cintura
notavelmente bem feita e graciosa; nem muito alta nem muito baixa, uma
dignidade simples e graciosa no semblante, um bonito porte de
cabeça. A fronte alta, os olhos grandes e bem rasgados,
são cheios de expressão e vivacidade.”</p>
<p style="text-align: justify;">Preestabelecidas
ou não, as “demarches” para o noivado
foram iniciadas, prestando de tudo fiel relato o tenente Touchard e a 4
de abril, quando festejava-se o aniversário
natalício de dona Maria I, houve jantar e baile em
São Cristóvão. As princesas cantaram
canções francesas e o príncipe de
Joinville dançou apenas com dona Francisca e certamente
neste baile foi firmada entre ambos a união conjugal. A 22
do mesmo mês foi realmente assinado o contrato de casamento e
apenas nove dias mais tarde, celebrava-se na intimidade da Corte o
casamento do Altíssimo e Poderosíssimo
príncipe de Joinville, com a Altíssima e
Poderosíssima dona Francisca Carolina.</p>
<p style="text-align: justify;">E,
após duas semanas de uma lua de mel no Rio de Janeiro, o
príncipe de Joinville regressou à
França, acompanhado de sua esposa, “la belle
Chica”.</p>
<p style="text-align: justify;">Assim,
sete anos mais tarde, a 1º de janeiro de 1850, foi firmado um
contrato com a Companhia Colonizadora de Hamburgo, recentemente fundada
e da qual era presidente o senador hamburguês Cristiano
Matias Schroeder, muito relacionado em Hamburgo, com o firme
propósito de ser concretizada a
fundação de uma colônia
agrícola nos imóveis pertencentes aos jovens
príncipes.</p>
<p style="text-align: justify;">Das
25 léguas quadradas do referido patrimônio
territorial, localizado na Província de Santa Catarina,
entre os rios Pirabeiraba e Itapocu, nas proximidades da
baía de São Francisco do Sul, pouco menos da
terça parte foi concedida àquela Companhia, que
obteve também do Governo Imperial vários favores,
como o livre desembarque dos imigrantes, das bagagens, dos instrumentos
e dos animais destinados à lavoura, entre outros.</p>
<p style="text-align: justify;">Dizem
que a doação do patrimônio foi um
verdadeiro <strong><em>presente
de grego</em>, </strong>pois,
a região era inteiramente virgem, encontrando-se apenas
alguns moradores na orla marítima e no planalto de Campo
Alegre. Tudo o mais era mata selvagem, habitada ainda por bugres, que
naqueles tempos viviam aos bandos e por várias vezes
atacaram e trucidaram as turmas de exploração e
de colonização. A área escolhida em
1844 por Léonce Aubé, delegado dos
Príncipes, após ter percorrido longos trechos da
Província, foi considerada de nenhum valor real, tanto por
ser desabitada, como por não existirem meios de transporte.
A Coroa achou oportuno o momento para dela se livrar, pois,
anteriormente, já fazia vantajosas concessões e
dava sesmarias gratuitamente a quem tivesse recursos e, sobretudo,
vontade de fazê-la produtiva.</p>
<p style="text-align: justify;">Enquanto
a Companhia Colonizadora preparava-se para a
execução da tarefa, e Léonce
Aubé, tendo regressado a Santa Catarina, foi residir na
margem do rio Cachoeira, que banhava a área escolhida para a
sede da colônia e onde, pelo engenheiro Guenther, foram
construídos dois ranchos de grandes dimensões
para o alojamento dos pioneiros que deveriam chegar nos primeiros meses
de 1851, Dom Pedro II enviou para Hamburgo o tenente coronel
Sebastião do Rego Barros com a missão especial de
aliciar soldados alemães, bem como adquirir o armamento
adequado e o equipamento para a organização de um
batalhão estrangeiro para participar da guerra contra o
ditador Rosas.</p>
<p style="text-align: justify;">Não
eram desvantajosas as condições sob as quais os
aliciados mercenários se comprometiam prestar
serviços de guerra no Brasil. A
duração do serviço militar seria de 4
anos, o transporte grátis, além de uma ajuda de
custo de <strong><em>25
tâlers</em></strong><em>.</em>
Os vencimentos seriam contados desde o dia do embarque e, ao ser
excluído, o legionário recebia um lote de 22,500
braças quadradas ou o transporte para repatriar-se, com um
prêmio em dinheiro. Os legionários ficariam
adstritos ao regulamento disciplinar do exército prussiano e
seriam comandados em língua alemã.</p>
<p style="text-align: justify;">A
aliciação encontrou vários
contratempos, pois, ainda se recordava do fracasso das
legiões estrangeiras idealizadas por D. Pedro I. A
oposição liberal brasileira combateu o contrato
da corte alemã, feito, aliás, de conformidade com
a lei 856 de 6 de setembro de 1850. Por sua parte, o governo imperial
alegava que os legionários poupariam a vida de outros tantos
brasileiros e que concluído o tempo de serviço
militar, tornar-se-iam os soldados bons colonos, o que seria de
inestimável utilidade para o povoamento do país.</p>
<p style="text-align: justify;">Se
bem que persistisse na Alemanha a aversão à
migração para o Brasil, causada pela
decepção dos primeiros imigrantes
legionários, e Hamburgo fosse acusada de apoiar, por
interesses materiais, o tráfico de alemães para o
estrangeiro, dificultando tudo ainda a sabotagem do
emissário do próprio Rosas e que ainda perdurou
em terras brasileiras e durante a guerra, Rego Barros
alcançou satisfatória e plenamente o seu objetivo
ao cabo de seis meses.</p>
<p style="text-align: justify;">Reduzido
o exército libertador e constituído que era na
maioria de voluntários, ficaram sem meio de vida milhares de
jovens, com ótimo treinamento de campanha e
espírito empreendedor e bélico. Por isso
não hesitaram em aceitar o oferecimento do governo
brasileiro, considerado, aliás, um verdadeiro presente
caído do céu, dada a sua
situação pessoal, em geral sem perspectiva.</p>
<p style="text-align: justify;">Fiel
ao compromisso assumido por ocasião da
dissolução do corpo de voluntários em
maio de 1848, Augusto Stellfeld ingressa em 1849 no exército
regular dos Ducados como suboficial e, possivelmente, com estudos na
Academia Militar de Anaburg, é promovido a alferes
“<em>portepee”</em>
e a tenente a 12 de julho de 1850 em Kiel, “por ter sido
reconhecida a sua aptidão e capacidade por todos os seus
companheiros.”</p>
<p style="padding-left: 120px; text-align: justify;"><strong><em>“Na
batalha de Idstedt e no sanguinolento assalto de Friedrichstadt, deu
provas de soldado valente e irrepreensível, como comandante
corajoso e circunspecto; devo especialmente elogiar o seu sangue frio,
mesmo no mais ardente combate.” </em></strong></p>
<p style="padding-left: 120px; text-align: justify;"><strong><em>“A
estimação e a afeição dos
seus superiores e
camaradas o acompanham na sua despedida deste
Exército”.</em>
</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Reza
a fé de ofício de Augusto Stellfeld, passada a 29
de março de 1851 e assinada pelo major Lettgau, comandante
do 6º batalhão de infantaria de Schleswig-Holstein.</p>
<p style="text-align: justify;">A
8 de julho de 1850 já havia recebido a Cruz de Campanha, <strong><em>“em
reconhecimento aos serviços prestados aos Ducados na sua
luta pelo direito e honra do país.”</em></strong></p>
<p style="text-align: justify;">Nestas
condições, enquanto a maioria dos veteranos
preferiu prosseguir a vida como militares, partindo a primeira leva de
270 homens de Hamburgo a 7 de abril de 1851, perfazendo os 10 embarques
durante esse ano cerca de 1.800 soldados, que se tornaram
célebres pela alcunha <strong><em>“Brummer”
</em></strong>(rezingões)
e muitos mais dos quais realmente permaneceram no Brasil,
improfícua mesmo que fora sua
contribuição bélica, uma pequena parte
deu preferência às pacíficas e
bucólicas vantagens proclamadas pela Companhia colonizadora
e povoadora do domínio Dona Francisca, a atual
centenária e florescente Joinville, fundada a 9 de
março desse ano.</p>
<p style="text-align: justify;">Perdida
possivelmente a oportunidade para servir à
Farmácia ou ao exército em seus mais elevados
graus, ou fossem outras as razões, somente restava a Augusto
Stellfeld, já com quase 34 anos, a
imigração. A resolução foi
rápida e na companhia de 117 tripulantes, entre os quais
vários camaradas de lutas e ideais, toma passagem na barca
de três mastros <strong><em>“Emma
e Louise”,</em> </strong>que
zarpa do porto de Hamburgo a 1º de maio de 1851, rumo ao <em>eldorado
</em>verde, à cidade de
Nossa Senhora da Graça do Rio São Francisco
Xavier do Sul, na província de Santa Catarina, integrando a
segunda expedição colonizadora e povoadora das
glebas pertencentes ao príncipe de Joinville.</p>
<p style="text-align: justify;">E,
após uma travessia de 72 dias, chegam e pisam
definitivamente terras brasileiras. E, depois de terem seguido, durante
algumas horas, em canoas o rio Cachoeira acima, extasiando-se frente
à bravia mata tropical, avistam a 12 de julho de 1851 a
florescente colônia Dona Francisca, que já
possuía dez casas de pau-a-pique, cobertas de palha, algumas
das quais com acomodações para vinte
famílias, construídas nas
imediações do ribeirão Matias que, de
sussurrante regato de águas límpidas, passou aos
poucos a divisor de quintais e veículo natural do despejo da
cidade, que ele viu nascer, crescer e prosperar.</p>
<p style="text-align: justify;">São
alojados os novos titãs em outros vinte ranchos
construídos a alguns quilômetros além
da sede, próximo ao rio Motucas, onde ainda hoje se acha
Anaburgo, nome que deve recordar a famosa escola de cadetes e de
suboficiais da Prússia, a qual Augusto Stellfeld e seus
camaradas teriam freqüentado.</p>
<ul style="text-align: justify;">
<li>“De
início nada havia… apenas floresta,</li>
<li>a terra que se abria, a
terra que se dava…</li>
<li>Em cada ninho novo
– um cântico de festa</li>
<li>Em cada galho verde
– um braço que acenava!</li>
<li>E pararam olhando…</li>
<li>De pronto os desnorteia a
encenação da terra…</li>
<li>Não haviam
pensado, era tudo tão grande!</li>
<li>Quem pudesse saber o que a
floresta encerra?</li>
<li>Quem pudesse
saber… Mas lá dentro é o
mistério,</li>
<li>um outro novo mundo,</li>
<li>De
mães-d’água, Sacis, Caaporas,
Bois-Tatá, de feras, de répteis, de insetos, de
pauis…”</li>
<li>Assim foi o
começo. Era uma vez?…</li>
<li>Qual nada: – o
rancho e, logo após, a “tifa”.</li>
<li>Em toda aquela gente a
vontade é uma força,</li>
<li>um dilema, talvez.</li>
</ul>
<ul style="text-align: justify;">
<li>Dia a dia se agita</li>
<li>toda aquela falange
heróica de Titãs…</li>
<li>Rasga a terra, desbrava,
estende mais as roças,</li>
<li>pondo uma nota humana
– uma expressão bonita,</li>
<li>até
então negada</li>
<li>à
glória das manhãs.</li>
</ul>
<ul style="text-align: justify;">
<li>Este sorri, olhando o barro
que amassou:</li>
<li>vai lhe dar o tijolo, a
telha para a casa;</li>
<li>outro falquejava a trave;
aquele a porta armou</li>
<li>nos gonzos que trouxera
– a fronte, em febre, abrasa. -</li>
</ul>
<ul style="text-align: justify;">
<li>Um outro firma o
oitão, (não sai um’obra prima</li>
<li>de técnica, mas
serve). As paredes em linha</li>
<li>dão ao pobre
arcabouço um quê que mais anima.</li>
<li>grito da araponga, imitando
o ferreiro ao rebater o malho,</li>
<li>não os assusta
mais quando vibra, de chofre,</li>
<li>acordando a
manhã, no sertão brasileiro.</li>
</ul>
<ul style="text-align: justify;">
<li>Curvados, os
Titãs, os nervos retesados,</li>
<li>sugerem, na postura,
estranhos e viris,</li>
<li>uma raça
– cavando outros mundos sonhados</li>
<li>na grandeza feraz destes
novos Brasis!</li>
</ul>
<ul style="text-align: justify;">
<li>E cantam no trabalho. Uma
canção qualquer,</li>
<li>um <strong>lied</strong>
que relembra os tempos de criança…</li>
<li>a escola, o
lugarejo… um vulto de mulher</li>
<li>que ficou para
trás, mas vive na lembrança.”</li>
</ul>
<p style="text-align: justify;">(Do
poema <strong>Os Titãs</strong>,
de J. Batista Crespo in “Vida Nova”,
número comemorativo do 1º Centenário de
Joinville).</p>
<p style="text-align: justify;">Edificada
a colônia sobre terreno extremamente alagadiço,
quando o mais acertado seria tão próximo quanto
possível de São Francisco, ao menos para
impressionar melhor aos colonos, a administração
tratou logo da drenagem das águas; e inóspito e
insalubre que ainda era o porto velho, na atual rua 9 de
Março, muitos se mudaram para Anaburgo, contudo, voltaram
novamente para o local escolhido, próximo ao rio Cachoeira,
que na época era a única
ligação com o porto de São Francisco.</p>
<p style="text-align: justify;">Quando
a 27 de setembro de 1851 deu fundo no rio São Francisco o
brigue dinamarquês Gloriosa, procedente de Hamburgo e tendo a
bordo mais 78 pessoas, representadas em 11 famílias e que
constituíam a terceira leva de colonizadores,<em>
<strong>formada de pessoas mui
decentes e civilizadas</strong></em>,
o estado da Colônia Dona Francisca era o melhor
possível, apresentando um aspecto cada vez mais
agradável, não se poupando os colonos a todo e
qualquer trabalho, pois, a alguns dos quais outrora serviram em seu
país como oficiais militares, não repugna pegar
no machado e na foice, para derrubarem as matas e
aperfeiçoarem as três grandes picadas que existem
abertas em diferentes direções.</p>
<p style="text-align: justify; padding-left: 120px;"><em><strong>“Já
ali se celebram preces aos domingos em casa para isso destinada e tem
havido casamentos, tudo conforme a religião que
professam.”</strong></em></p>
<p style="padding-left: 120px; text-align: justify;"><em><strong>“Também
ali existem dois médicos, dois boticários, dois
naturalistas, um inspetor e o diretor da Colônia, bem como
dois professores, porém, estes não têm
aula aberta por falta de casa própria.”</strong></em></p>
<p style="padding-left: 120px; text-align: justify;"><strong><em>“A
Colônia Dona Francisca</em></strong><em>,
</em><em><strong>apresenta-se
debaixo dos melhores auspícios e, dentro em pouco tempo,
estará abundante e produtiva, pois há apenas sete
meses de sua fundação e por isso ainda
não fazem grandes colheitas de gêneros que merecem
ser mencionados.”</strong></em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>
</em>(Da carta dirigida em
14.10.1851 ao Governo Provincial. Cezario Antônio Mendes era
funcionário aduaneiro em São Francisco do Sul. As
primeiras culturas agrícolas foram:
cana-de-açúcar, arroz, mandioca,
feijão, batata, milho, fumo, café e
algodão).</p>
<p style="text-align: justify;">Em
1852 a sede da Colônia passou a denominar-se Joinville,
quando já possuía 12 casas particulares e igual
número de propriedade da Companhia Colonizadora, destinadas
ao alojamento dos colonos. Contava a Colônia com 25
quilômetros de estradas, inclusive 12 em demanda da serra e
que constituiriam parte da estrada Dona Francisca, que permitiu mais
tarde o afluxo daqueles colonizadores e povoadores para Curitiba,
principalmente.</p>
<p style="text-align: justify;">De
acordo com o contrato celebrado entre o príncipe de
Joinville e a Companhia Colonizadora, foi a 13 de julho de 1852
estabelecida a comuna da Colônia Dona Francisca, harmonizada
e submissa às leis do Império do Brasil, mas que
era o poder legislativo. Ela nomeava o Conselho Comunal, composto de 5
membros e 2 suplentes e tinha poder absoluto. O poder arbitral pousava
nas mãos de um Juiz de Paz, o qual teria um substituto
até que se tivesse a tradução
alemã da lei fundamental brasileira. Os delitos graves ou
crimes eram enviados aos tribunais para julgamento. Compunha-se o
tribunal do Juiz de Paz e de 12 colonos e se reunia em dia fixo de cada
semana.</p>
<p style="text-align: justify;">Cada
colono ao atingir a idade de 20 anos era considerado eleitor e,
portanto, elegível para qualquer cargo público,
que não podia recusar. Eram apenas isentos o
médico e o farmacêutico e quem já
tivesse exercido funções públicas
durante um ano. Não eram, entretanto, elegíveis,
os empregados da Companhia e os do príncipe de Joinville.</p>
<p style="text-align: justify;">Quais
fossem as primeiras ocupações de Augusto
Stellfeld na Colônia Dona Francisca, ainda não
sei: se imigrara com o propósito de exercer a
farmácia e para isso, de acordo ou não com a
Companhia, tivesse levado consigo uma pequena oficina
farmacêutica, ou se teve mesmo o objetivo de dedicar-se
à lavoura ou às duas atividades ao mesmo tempo.</p>
<p style="text-align: justify;">Da
relação dos 469 imigrantes que no ano de 1851
constituíram o primeiro <em>“melting
pot” </em>de Joinville, e
dos quais 190 eram suíços, 74 noruegueses, 3
suecos e os demais alemães, constam os nomes dos seguintes
médicos: <strong>W.A.</strong>
<strong>Guilherme Moeller</strong>,
chegado com o “Colon”, natural da Noruega, com 27
anos, tendo permanecido na Colônia apenas um ano, apesar de
benquisto. Desejando conhecer o Brasil, foi servir na legião
alemã no posto de médico-chefe, em Porto Alegre; <strong>Wilhelm
Nikolaus Krebs</strong>, do Hanover,
com 30 anos, bem como os seguintes farmacêuticos,
além de Augusto Stellfeld; <strong>S.
Carlos Emílio Boedicker</strong>,
que veio com a primeira expedição de <strong>F.
Bernhardt Bemba e J.</strong> <strong>Christian
Schluemann</strong>, vindos com o
“Gloriosa”.</p>
<p style="text-align: justify;">É
possível que somente o doutor Krebs, chegado com a terceira
leva, e Augusto Stellfeld tivessem por mais tempo permanecido em
Joinville e exercido suas profissões, pois apenas aos dois
é feita uma referência <strong><em>“como
o primeiro médico e o primeiro
farmacêutico”.</em></strong></p>
<p style="text-align: center;">
<a href="../paginas/hfar-augusto_stelffeld-imagem-1.html" title=""
class="shutterset_singlepic686"> <img
style="border: 0px solid ; width: 320px; height: 191px;"
class="ngg-singlepic ngg-center" src="../img/686__320x240_686.jpg"
alt="Clique para ampliar" title="Clique para ampliar"></a></p>
<p style="text-align: center;">Primeira
farmácia de Augusto Stelffel – clique para ampliar</p>
<p style="text-align: justify;">Rodowicz
em seu livro pouco conhecido e cuja tradução
teria sido de grande significação para as
comemorações do centenário de
Joinville, refere-se também ao farmacêutico
Boedicker, mas que Augusto Stellfeld era o farmacêutico da
Colônia, possuidor, por sinal, de uma bem humilde casinha,
localizada no lote 72. (Neste lote, atravessado pelo
ribeirão Mathias, com 1.166 braças quadradas e
adquirido em 01/09/52, acha-se agora a tipografia Boehm – rua
Visconde de Taunay, antiga dos Alemães, esquina da rua Pedro
Lobo). Escreveu ainda que Augusto Stellfeld exerceu por algum tempo as
funções de inspetor das mulheres e
crianças a serviço da então Sociedade
Colonizadora Hamburguesa.</p>
<p style="text-align: justify;">A
16 de novembro de 1852, casa-se Augusto Stellfeld com <strong>Carlota
Sofia Dorotea Halckmann</strong>,
filha do proprietário feudal Wilhelm Heinrich Kalckmann que,
por questões familiares, imigrou nesse ano para o Brasil,
ruma à Colônia Dona Francisca, onde
também adquiriu vastas glebas fora da sede. Veio acompanhado
de seus filhos maiores, Carlota, Júlio, Berta e Ernestina,
tendo tido a infelicidade de perder sua esposa, Carlota Guilhermina,
falecida a bordo da barca “Florentin” no dia 6 de
julho de 1852, e lançada ao mar nas proximidades da ilha
Madeira, onde, dizem, ultimamente, vozes de <em>além
túmulo</em>, seu corpo
foi naquela época recolhido e piedosamente sepultado.</p>
<p style="text-align: justify;">A
emancipação política da 5ª
Comarca da Província de São Paulo foi, sobretudo,
uma conseqüência da ambição
pessoal, segundo os nossos historiadores, desde os primeiros movimentos
em 1811, Pedro Joaquim de Castro Correia e Sá,
até o desenlace em 1853, quando se concretizaram os
esforços e as lutas enérgicas para a
elevação do território meridional
paulista a uma nova Capitania e depois a uma novíssima
Província.</p>
<p style="text-align: justify;">Embora
ambicioso e não pretendesse um só real, caso
fosse o criador da nova Capitania, devemos ao terceiro neto de Salvador
Correia de Sá Benevides, a origem, a expressão e
o estímulo das primeiras manifestações
do movimento, que havia de triunfar em 1853, bem como o remate final ao
tenente coronel da Guarda Nacional João da Silva Machado, o
posterior barão de Antonina, cuja presença em
Curitiba, por ocasião da revolução de
Sorocaba (1842), lhe inspirou duas resoluções,
que ele levou a cabo com o mais inteiro sucesso: a de apossar-se de
latifúndios por todas as partes da Comarca e a de conseguir
a elevação dela à categoria de
Província e fruir os proventos políticos que
daí advieram.</p>
<p style="text-align: justify;">Elevada
pela Lei 704 de 29 de agosto de 1853, a comarca de Curitiba da
Província de São Paulo à categoria de
Província do Paraná e tendo por capital a cidade
de Curitiba, a instalação teve lugar no dia 19 de
dezembro do mesmo ano, cabendo a honrosa presidência da mais
nova e última Província do Império ao
conselheiro Zacarias de Góes e Vasconcelos.</p>
<p style="text-align: justify;">Vendo,
possivelmente, na nova Província um campo maior e mais
atraente para suas atividades profissionais e sociais, Augusto
Stellfeld transfere sua residência e sua farmácia
para a cidade de Paranaguá, em data ainda não
averiguada e a 1º de março de 1854 nasceu nessa
cidade o primeiro rebento do casal, Rosa Guilhermina Carlota
Patrícia, cujos padrinhos foram Francisco Pinheiro e
Patrícia Pinheiro, batizada, bem como todos os seus
irmãos, na igreja católica.</p>
<p style="text-align: justify;">O
Decreto Federal n.º 598 de 1850, melhorando o
serviço sanitário da Corte e de outras
povoações do Império, criava a Junta
de Higiene com poderes de exercer a polícia
médica nas visitas de embarcações, nas
boticas, lojas de drogas e em casas onde pudessem provir danos
à saúde pública e cujo regulamento foi
aprovado e mandado executar pelo Decreto n.º 828 de setembro
de 1851.</p>
<p style="text-align: justify;">Da
situação da medicina e da farmácia em
Paranaguá nessa época pouco se sabe, entretanto,
devia ser importante e bem agitada, assim é que a 5 de
outubro de 1854 o farmacêutico pela Faculdade de Medicina do
Rio de Janeiro, José Ferreira Guteris, estabelecido em
Paranaguá, dirigiu uma enérgica
petição à Câmara Municipal
local, dizendo<strong>: </strong></p>
<p style="text-align: justify; padding-left: 120px;"><strong><em>“que
tendo estabelecido uma botica, exerce a arte farmacêutica,
mas não pode prescindir de solicitar a
proteção dos dignos vereadores para que a sua
profissão não continue a ser exercida
senão por indivíduos que tenham um
título legal; que o fato mais inaudito e que deve ser
condenado pela honestidade, é, sem dúvida, aquele
que lançaram mão os indivíduos que, em
Paranaguá e contra o artigo 25 do indicado regulamento,
exercem a nobre profissão de curar, escrevendo suas receitas
em tal linguagem e com abreviaturas tais em ordem a serem as mesmas
aviadas por certas e determinadas pessoas.”</em></strong></p>
<p style="text-align: justify;">E,
à vista do que havia expedido, e não encontrando
na Lei de 1850, que criou a Junta de Higiene, nenhum artigo que faculte
o exercício da medicina a quem não tiver um
título conferido pelas escolas de Medicina do Brasil,
não podia deixar de protestar perante a Câmara
Municipal e perante todas as autoridades da Província,
contra tão imprudente charlatanismo.</p>
<p style="text-align: justify;">O
delegado de polícia de Paranaguá
também recebeu uma carta do colega Guteris, que levou ao
conhecimento desta autoridade que na cidade de Paranaguá
existem <strong><em>“certos
indivíduos que, sem título legal, exercem a
medicina e a farmácia”</em>,
</strong>pedindo em seguida
providências para cessar semelhante abuso.</p>
<p style="text-align: justify;">O
arguto delegado, Manuel Leocádio de Oliveira,
cônscio de suas atribuições, escreveu
ao presidente e vereadores da Câmara Municipal que,</p>
<p style="padding-left: 120px; text-align: justify;"><strong><em>“sendo
puramente da atribuição da Câmara
Municipal providenciar a respeito, é de esperar do acurado
zelo e patriotismo que distingue a Câmara Municipal de
Paranaguá, a bem de seus munícipes, que ela,
tomando aquelas cautelas que a prudência de seus dignos
membros aconselha neste caso, possa dar as providências que,
satisfazendo aos preceitos da lei, satisfaça ao mesmo tempo
aquele que tão alto fala: o das necessidades
públicas.”</em></strong></p>
<p style="text-align: justify;">Ignora-se
o epílogo desta justa e curiosa campanha e quais as
providências tomadas pelo presidente Zacarias de
Góes e Vasconcelos, a quem o colega Guteris
também dirigiu uma petição e que foi
em seguida encaminhada à Câmara Municipal de
Paranaguá para informar, bem como se Augusto Stellfeld foi
um dos visados pelo farmacêutico Guteris, pois, de fato,
não possuía ainda um título legal para
exercer a farmácia no Brasil.</p>
<p style="text-align: justify;">O
fato concreto é que Augusto Stellfeld, possuidor de um
diploma para exercer a farmácia em sua terra natal e
expedido a 15 de novembro de 1848, vai prestar exame de
revalidação do seu diploma, previsto no Decreto
de 1850, na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro e que se realiza no
dia 18 de maio de 1855, sem nenhuma discrepância;
são seus examinadores os professores João
José Carvalho, Manoel Maia de Morais e Vale e Ezequiel
Corrêa dos Santos, adquirindo, conseqüentemente, os
direitos para exercer a Farmácia em todo o
Império.</p>
<p style="text-align: justify;">Regressando
a Paranaguá, nasce a 22 de junho do mesmo ano seu segundo
filho, Afonso Antônio, cujos padrinhos são o
doutor Antônio Francisco de Azevedo e dona Ana Azevedo.</p>
<p style="text-align: justify;">Curitiba,
na época de sua elevação à
capital da Província do Paraná, era uma
insignificância, que de cidade tinha somente o predicado
oficial. Mas, já possuía quatro igrejas, embora
uma delas inacabada e cujos paredões enormes e sombrios, no
alto do São Francisco, são os últimos
remanescentes da pacata vila de outrora.</p>
<p style="text-align: justify;">Existiam
308 casas e duas escolas primárias, uma para cada sexo e os
lampiões nas vias públicas podiam ser contados.
Mas, não havia uma única farmácia ou
botica pública e o único médico,
apenas há algumas semanas chegado, era o
benemérito doutor José Cândido da Silva
Muricy, natural da Bahia, com serviços no corpo fixo da
guarnição militar e que exercia ainda as
funções de vacinador e manipulador de bolas de
estricnina para os cães vadios e sem dono.</p>
<p style="text-align: justify;">Seria
perfeitamente admissível que com a
instalação da Província,
afluíssem para sua capital farmacêuticos,
médicos e cirurgiões dentistas, e iniciassem suas
atividades profissionais. Entretanto, os primeiros anúncios
no jornal <em>Dezenove de Dezembro</em>
referem-se a dentistas de passagem por Curitiba e especialistas em</p>
<p style="padding-left: 120px; text-align: justify;"><strong><em>“chumbações
de ouro e em dentes postiços minerais, americanos,
incorruptíveis, presos em chapas de ouro fino,
não deixando cheiro algum à boca e servem para
todos os intentos da fala e da
mastigação.”</em></strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>
</strong>Outros anunciavam que
também faziam a barba, cortavam os cabelos e aplicavam
ventosas.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><em>“Não
havendo
botica alguma nesta cidade e sendo doloroso que a pobreza sofra nas
suas enfermidades por falta de medicamentos”</em>,
</strong>o presidente Zacarias de
Góes e Vasconcelos autorizou ao doutor Muricy,
não se sabe se também era farmacêutico,
dar remédio grátis àqueles
indivíduos que para esse fim a ele recorressem e que
provassem ser, evidentemente, pobres, porquanto os remediados
já eram naquela enfermaria atendidos, sempre, possivelmente,
que não pudessem ser conseguidos os medicamentos em
Paranaguá ou em casos de grande urgência.</p>
<p style="text-align: justify;">Sob
forma de verdadeira pandemia o <strong><em>Cólera-morbus</em></strong>,
depois de causar milhares de vítimas pela Europa, chegou ao
Brasil no ano de 1855 e a primeira província a ser atingida
foi a do Pará, admitindo-se, a princípio, que
fosse algum andaço, em conseqüência do
tempo e consumo de frutas e carne de má qualidade.</p>
<p style="text-align: justify;">Em
vista dos estragos que o cólera vinha fazendo no
Pará, o vice-presidente da nossa Província,
Beaurepaire-Rohan, tratou logo de criar em Paranaguá uma
comissão de Saúde; preocupou-se com a
construção de um ou dois lazaretos, com a
caiação das casas, com a limpeza e asseio da
cidade, além de outras medidas <strong><em>“se
não para impedir o cólera, ao menos para
minorar-lhe os danos e acudir a tempo aos que padecem.” </em></strong></p>
<p style="text-align: justify;">A
imprensa curitibana, aliás, o <strong><em>Dezenove
de Dezembro</em></strong></p>
<p style="text-align: justify;">,
também pedia vistas para o estado lamentável de
Curitiba, com suas ruas de lama e rodeada de charcos, <strong><em>“que
se prestam para o desenvolvimento dos miasmas os mais
deletérios.” </em></strong>Convidados
os cidadãos curitibanos a se reunir e consultar sobre os
meios de garantir-se contra a invasão da terrível
epidemia, entre outros meios considerados puramente preventivos e
aconselhados pela higiene, apresentaram ainda outros, considerados
indispensáveis, como o seguinte: <strong><em>
</em></strong></p>
<p style="padding-left: 120px; text-align: justify;"><strong><em>“procurar
obter, quanto antes, do Governo Geral ou Provincial, uma botica
suficientemente sortida de medicamentos sãos e em quantidade
conveniente para poder-se fornecê-los, não
só à população em geral,
como a do interior, se por infelicidade se tornar isto
preciso.”</em></strong></p>
<p style="text-align: justify;">Começam
na matriz de Curitiba as preces ao Altíssimo, afim de
preservar a população da peste que causava
vítimas no Pará, na Bahia e na Corte. Ao mesmo
tempo e durante longos meses o<em>
<strong>Dezenove de Dezembro </strong></em>anuncia
à disposição dos fiéis e
dos devotos a<em> <strong>milagrosa
estrela do céu</strong></em><strong>
</strong>contra a peste, bem como a
oração de Nossa Senhora do Desterro e outras
extraídas dos melhores livros de piedade, e
próprias para implorar a misericórdia de Deus no
tempo da peste.</p>
<p style="text-align: justify;">O
doutor Muricy, enviando um relatório ao Governo Provincial e
indicando os meios para a prevenção da epidemia,
pediu a vinda de seis médicos e dois
farmacêuticos, pois, havia lugares populosos onde
não havia ao menos um <strong><em>curandeiro</em></strong>.</p>
<p style="padding-left: 120px; text-align: justify;"><strong><em>“E,
porque de nada serviria a presença desses doutores
à vista da falta absoluta de remédios
próprios para combater o cólera,
maximé serra acima, onde não há uma
só botica”.</em></strong></p>
<p style="text-align: justify;">Esperava
que também fosse solicitada a remessa de medicamentos que
deixava de enumerar por deles se ter pleno conhecimento no Rio de
Janeiro, e também os utensílios
próprios para o preparo, não esquecendo outros
para os casos ordinários.</p>
<p style="text-align: justify;">As
providências do Governo Provincial prosseguiam com
eficiência e entusiasmo e as notícias vindas do
Rio de Janeiro eram cada vez mais animadoras. O <strong><em>Dezenove
de Dezembro</em> </strong>já
anunciava a distribuição gratuita das <em>estrelas
milagrosas </em>e no
relatório apresentado a 7 de janeiro de 1857 à
Assembléia Provincial, o presidente Vaz Carvalhaes externou
as seguintes idéias no capítulo <strong><em>Salubridade
Pública.</em></strong></p>
<p style="padding-left: 120px; text-align: justify;"><strong><em>“O
conceito de geralmente salubre, de que goza esta Província,
quando não possa ser reforçada pelo recente fato
de não ter sido acometida pelo cólera, tem
incontrastável documento na falta quase absoluta de
médicos e boticas nos distritos de serra acima. Os
habitantes da capital quando atacados de moléstia grave,
superior à capacidade dos experientes, têm por
único remédio o médico do corpo de
guarnição fixa e os medicamentos do hospital
militar. Os das povoações do centro nem esse
recurso possuem, arranjam-se como podem, e nem por isso a mortalidade
ressente-se de semelhante falta.”</em></strong></p>
<p style="padding-left: 120px; text-align: justify;"><strong><em>“Dir-se-á,
senhores, que não é a escassez das
moléstias, mas à insignificância das
povoações, que não suporta ainda a
permanência de médicos e farmacêuticos,
é devido um tal fenômeno, mas dado mesmo, o que
contesto, que o aumento procede em relação
às vilas do interior, não explica ela a mesma
falta que se nota na capital. O certo é que os
médicos que por aqui aparecem não param, mudam
logo de profissão, sem que se possa achar para isso outro
motivo além da maravilhosa salubridade do clima.”</em></strong></p>
<p style="padding-left: 120px; text-align: justify;"><strong><em>“Terminarei
este capítulo, Senhores, informando-vos que aproveitei a
casual passagem por esta capital do médico francês
Evaristo Gautier, a quem a salubridade do clima já tinha
transformado em negociante de tropas, para ajustar com ele o
estabelecimento de uma botica bem sortida na capital, assegurando-lhe o
fornecimento dos medicamentos precisos às enfermarias
sustentadas com o dinheiro público.”</em></strong></p>
<p style="text-align: justify;">Fosse
para estender suas atividades profissionais, ou vendo que o campo em
Paranaguá se tornava cada vez mais limitado e
quiçá mesmo hostil, ou ainda para atender a um
pedido do presidente da Província ou ainda, a um apelo do
doutro Muricy, a quem mais tarde se ligava por sólidas
relações de amizade e de parentesco, Augusto
Stellfeld transfere sua residência para Curitiba, publicando
no <em>Dezenove de Dezembro</em>
do dia 8 de abril de 1857 o seguinte anúncio:</p>
<p style="padding-left: 120px; text-align: justify;"><strong>“<em>Augusto
Stellfeld, boticário formado na Alemanha e aprovado pela
Academia do Rio de Janeiro, participa ao respeitável
público que se acha estabelecido nesta capital com botica
completamente sortida, e residindo provisoriamente no hospital da Santa
Casa de Misericórdia.”</em></strong></p>
<p style="padding-left: 120px; text-align: justify;"><strong><em>“O
anunciante declara que brevemente passará o seu
estabelecimento
para a rua Direita, casa do senhor Miguel Miller.”</em></strong></p>
<p style="text-align: justify;">Conquanto
o <strong><em>Dezenove
de Dezembro</em> </strong>não
tivesse dado maior importância à
instalação de uma botica em Curitiba,
tão seguidamente reclamada, o senhor Presidente da
Província no expediente do dia 31 de março de
1857, enviou o seguinte ofício ao tenente coronel comandante
do corpo fixo:</p>
<p style="padding-left: 120px; text-align: justify;"><strong><em>“Tendo-se
ultimamente estabelecido nesta capital uma botica, onde podem suprir os
que carecem de medicamentos, fica cassada a
autorização que tinha o médico desse
corpo para poder vender para fora do quartel drogas e
remédios preparados na botica do mesmo Corpo. O que lhe
comunico para sua inteligência e
execução.”</em></strong></p>
<p style="text-align: justify;">A
data 7 de abril, comemorada pela primeira vez em 1907, por
ocasião do cinqüentenário da
então farmácia Alemã, foi fixada, ao
que parece, posteriormente, pois, no mais antigo livro que a firma
possui, iniciado em Paranaguá a 1º de
março de 1856, não se nota uma
referência ao dia 7 de abril de 1857, que é apenas
uma seqüência dos anteriores. Nesse mesmo livro o
último registro em Paranaguá foi a 12 de
março de 1857 e o prosseguimento, já em Curitiba,
a 23 de março, tendo assim dado motivos ao aviso
presidencial de 31 do mesmo mês e acima referido. No
relatório apresentado pelo 2º vice-presidente da
Província do Paraná, José
Antônio Vaz de Carvalhaes, sobre o estado da
administração da Província no ano de
1857, foi dito que “os recursos médicos desta
cidade aumentaram-se este ano, com o estabelecimento de uma botica
completamente sortida, dirigida pelo farmacêutico Augusto
Stellfeld.</p>
<p style="text-align: justify;">Como
e porque Augusto Stellfeld inicia suas atividades profissionais na
primitiva Santa Casa de Misericórdia, situada na rua dos
Alemães (a atual 13 de Maio), esquina da rua do Louro (atual
Serro Azul), não sei, bem como os pormenores das
mudanças, até a derradeira para o Largo da
Matriz, a atual praça Tiradentes, em fevereiro de 1866. Mas
desde que chega em Curitiba e onde a 17 de abril de 1857 nasce seu
primeiro varão curitibano, Bruno Guilherme, e como se aqui
residisse há longos anos e conhecesse perfeitamente seus
habitantes e seus costumes, interessa-se de corpo e alma pela
comunidade, tornando-se um cidadão prestimoso, acatado e
benquisto.</p>
<p style="text-align: center;">
<a href="../paginas/hfar-augusto_stelffeld-imagem-2.html" title=""
class="shutterset_singlepic687"> <img
style="border: 0px solid ; width: 320px; height: 199px;"
class="ngg-singlepic ngg-center" src="../img/687__320x240_687.jpg"
alt="Clique para ampliar" title="Clique para ampliar"></a></p>
<p style="text-align: center;">Farmácia
Stelffeld na Praça Tiradentes. O prédio existe
até hoje – clique para ampliar</p>
<p style="text-align: center;"><a
href="../paginas/hfar-augusto_stelffeld-imagem-3.html"><img
style="border: 0px solid ; width: 320px; height: 240px;"
alt="Farmácia Stelffeld atualmente"
title="Farmácia Stelffeld atualmente"
src="https://lh5.googleusercontent.com/-I3us8kBEhSU/UZfYaIXEhZI/AAAAAAAAAG0/BfDKatpJGLk/w800-h600-no/1294443873447"></a></p>
<p style="text-align: center;">Farmácia
Stelffeld atualmente</p>
<p style="text-align: justify;">Também
no Brasil os poderosos eram enterrados no silêncio das
igrejas, em catacumbas de parede ou ao rez do chão, e como
as igrejas nem sempre comportavam grande número de corpos,
aqueles lugares ficaram reservados aos mais chegados ao clero ou
às dinastias, contentando-se os demais em ser inumados nas
proximidades dos templos.</p>
<p style="text-align: justify;">Aqui,
em Curitiba, também era assim. No tempo da velha matriz os
defuntos eram sepultados nas suas adjacências, bem como no
interior das igrejas do Rosário e de São
Francisco das Chagas. Contudo, com a chegada do presidente Zacarias de
Góes e Vasconcelos, a construção de um
cemitério católico, já cogitada em
1834, foi um dos seus primeiros atos. Embora iniciada em dezembro de
1854, somente foi concluída em janeiro de 1866.</p>
<p style="text-align: justify;">No
dia 20 de agosto de 1857 faleceu em Curitiba o cidadão
hamburguês Frederico Prohmann, imigrado também de
Joinville, mas, protestante que era, não pôde ser
enterrado no cemitério católico, salvo
extra-muros, com o que não concordaram seus parentes e
amigos. O enterramento foi feito em uma das amenas
elevações da cidade, em pleno campo e em seguida
foi dirigida uma petição à
municipalidade, solicitando aquela área para o descanso
eterno dos protestantes.</p>
<p style="text-align: justify;">Obtido
o terreno, foi constituído o <strong><em>“Friedhofsverein”</em></strong>
e como sinal de gratidão aos serviços que Augusto
Stellfeld prestou para a efetivação da
doação do terreno, o presidente e demais
diretores da sociedade do cemitério, em manuscrito data do
de 17 de agosto de 1862, concederam-lhe, gratuitamente, uma
área designada sob número 1 na planta, para
jazigo de sua família.</p>
<p style="text-align: justify;">Por
ocasião da guerra do Paraguai, enquanto os moços
e os que tinham o espírito bélico apresentaram-se
como voluntários e seguiram para os campos de batalha e
lá prestaram seus serviços e deram o seu sangue e
a sua vida, outros ofereceram ao governo seus préstimos,
assim para o policiamento da cidade, desde que grande parte da
companhia da força policial também havia seguido
para a luta, incorporada aos voluntários da
pátria.</p>
<p style="text-align: justify;">Augusto
Stellfeld é nomeado sargento-quartel mestre do 1º
batalhão de reserva da Guarda Nacional a 22 de fevereiro de
1865 (função administrativa) e 12 dias antes
havia enviado o seguinte ofício ao então
presidente da Província, doutor José de
Pádua Fleury:<em> <strong>
</strong></em></p>
<p style="padding-left: 120px; text-align: justify;"><em><strong>“Como
filho adotivo do Brasil, julgo do meu dever contribuir conforme as
minhas posses para o bom êxito desta guerra e castigo a um
inimigo insolente e traidor, e para vingar a honra nacional ofendida.
Venho, pois, oferecer o fornecimento gratuito durante a guerra atual
às famílias dos voluntários, soldados
deste distrito, os medicamentos precisos, como também para
aviar gratuitamente as receitas na enfermaria militar desta
guarnição.”</strong></em></p>
<p style="text-align: justify;">Este
gesto, este desprendimento, esta prova de amor ao Brasil, foi esquecido
poucos meses mais tarde pelo redator do <strong><em>Dezenove
de Dezembro</em> </strong>que,
em data de 25 de outubro de 1865, sob o título <strong><em>“Antes
tarde do que nunca”</em>, </strong>escreveu:<strong>
<em> </em></strong></p>
<p style="padding-left: 120px; text-align: justify;"><strong><em>“Consta-nos
por pessoa fidedigna que vamos ter a felicidade de em breve possuir
nesta capital um farmacêutico hábil e inteligente
brasileiro. Benvindo seja o senhor tenente Joaquim Antonio Pereira
Alves e ansioso esperamos a sua chegada, pois, só assim mais
livres estaremos da sujeição de um só
competidor, havendo, como esperamos, o concurso do senhor Pereira
Alves.”</em></strong></p>
<p style="text-align: justify;">Apenas
20 anos mais tarde, Joaquim Pereira Alves, depois de cerca de 30 anos
de exercício da profissão em
Paranaguá, instala a farmácia Pereira<em>
</em>Alves no Largo do Mercado,
n.º 30, contrastando o seu anúncio circunspecto com
ofertas espalhafatosas de milagrosos depurativos, estimulantes,
anti-peçonhentos, óleo animal,
extraído da banha de rins de carneiros das montanhas
Rochosas dos Estados Unidos, específico para a cura do
garrotilho, à venda em… diversos
armazéns de secos e molhados e quinquilharias de Curitiba.</p>
<p style="text-align: justify;">Não
se lembrava mais aquele redator, especializado em <strong><em>morfinas</em></strong>,
do nobre e altruístico gesto de Augusto Stellfeld que,
além de tudo, era hábil e inteligente e
tão bom brasileiro como quem mais sua origem lusa e ufania
pela cidadania brasileira quisesse realçar.</p>
<p style="text-align: justify;">Não
se recordava mais da notícia que em 12 de outubro de 1864
havia publicado, quando se originou no comércio paranaense
um verdadeiro pânico devido à notícia
que a moeda de prata chamada<em> <strong>“boliviano</strong></em><strong>”
</strong>e que corria em
profusão em virtude da nossa
exportação de erva-mate para o Rio da Prata,
quando não era falsa, não tinha o peso legal, e
assim era recusada na cidade. Confiado pelo presidente da
Província o caso à competência de
Augusto Stellfeld, ele, depois de analisar a moeda, apresentou o seu
laudo, declarando que cada boliviano tinha 172 grãos de
prata e 80 grãos de liga, que seu peso era exato,
não tendo encontrado uma única moeda falsa, o que
foi suficiente para tranqüilizar o comércio e
reabilitar a moeda.</p>
<p style="text-align: justify;">E,
enquanto Augusto Stellfeld e comerciantes curitibanos declaravam pelo
referido periódico que aceitavam o <strong><em>boliviano
</em></strong>em
suas transações com o povo pelo preço
corrente de 800 réis, o próprio<strong><em>
Dezenove de Dezembro</em></strong>,
talvez apocrifamente, anunciava a compra da mesma moeda de prata por
550 réis!</p>
<p style="text-align: justify;">Não
se recordava mais o <strong><em>Dezenove
de Dezembro</em> </strong>que
em 1863, quando a questão <strong>Christie
</strong>tocou intimamente nos brios
e patriotismo dos brasileiros e quando foi aberta a
subscrição nacional para auxiliar a despesa de
segurança do Império e aplicada a aqui
arrecadada, para a fortificação dos nossos
portos, Augusto Stellfeld foi um dos subscritores. Não
assinou, na verdade, uma importância igual ou maior
à ofertada pelo presidente da Província, seus
auxiliares de alta categoria, pelos ricos da capital e do interior, mas
também não foi inferior à subscrita
pelo jornalista!</p>
<p style="text-align: justify;">E,
não se recordava mais que, decorrido apenas um ano da
abertura da botica Alemã, publicava o <strong><em>Dezenove
de Dezembro</em> </strong>(17.04.1858)
uma notícia que Augusto Stellfeld havia lido no
sereníssimo e enciclopédico <strong><em>Jornal
do Comércio</em> <em>do
Rio de Janeiro </em></strong>de
25 de março e por sua vez transcrita sem
comentários do <strong><em>Correio
de Minas</em></strong>,
que anunciava o aparecimento da famigerada<strong>
<em>gitiranaboia</em>:
</strong></p>
<p style="padding-left: 120px; text-align: justify;"><strong><em>“este
perigosíssimo inseto, que contém em si o veneno
mais sutil e que mata, irremediavelmente, em poucas horas o
indivíduo que tem a infelicidade de por ele ser ferido; por
debaixo do peito existe a mortífera arma como vulgarmente se
diz, um ferrão de meia polegada de comprimento e grossura de
agulha entrefina. Se este inseto chega a tocar qualquer parte do corpo
em que possa injetar o seu veneno, a morte é a
conseqüência infalível.”</em></strong></p>
<p style="text-align: justify;">Esclarece,
em seguida, Augusto Stellfeld que o inseto é inocente, que a
chamada arma mortífera ou ferrão é a
tromba com que costuma chupar as substâncias
líquidas das flores e, portanto, não
contém veneno algum; que tem dois exemplares de <strong><em>gitiranaboia</em>
</strong>em sua
coleção, um trazido de Santa Catarina e outro
capturado aqui no Assungui e que terá muito prazer em
mostrar em sua casa o interessantíssimo e inocente inseto,
que causou tanto espanto aos habitantes de Minas Gerais.</p>
<p style="text-align: justify;">Imagine-se
o pavor e o desconhecimento absoluto desse fantástico inseto
cem anos atrás, se ainda agora, Cândido de
Figueiredo em seu <em>Novo
Dicionário</em> <em>da
Língua Portuguesa</em>
(4ª edição) diz que:</p>
<p style="padding-left: 120px; text-align: justify;"><strong><em>“jequiranaboia
é uma espécie de cigarra, de cabeça
grande e cuja
picada é fatal aos homens e às plantas!”</em></strong></p>
<p style="text-align: justify;">A
30 de janeiro de 1880, na qualidade de suplente, entra em
exercício do cargo de subdelegado de polícia do
distrito norte de Curitiba.</p>
<p style="text-align: justify;">A
21 de maio do mesmo ano chegam a Curitiba D. Pedro II e Dona Tereza
Cristina, acompanhados de dignitários da Corte e elementos
representativos do governo. Além de satisfazer seu antigo
desejo de visitar a capital da Província, para cuja
instalação tanto havia se interessado, D. Pedro
viera assistir à inauguração do
hospital da Santa Casa de Misericórdia e aos
serviços da estrada de ferro Paranaguá-Curitiba,
com o lançamento oficial do marco zero na cidade marinha.</p>
<p style="text-align: justify;">Augusto
Stellfeld, já capitão da guarda nacional, faz
parte da comissão organizadora do programa de
recepção e também da
comissão de organização dos
batalhões e do préstito.</p>
<p style="text-align: justify;">Como
prova de reconhecimento público aos relevantes
serviços prestados ao Brasil, D. Pedro II confere a Augusto
Stellfeld a comenda da Ordem da Rosa, no grau de Cavaleiro e cujo
diploma é passado no Rio de Janeiro a 4 de setembro de 1880.</p>
<p style="text-align: justify;">Em
julho de 1882 concorre às eleições
para vereadores da Câmara Municipal de Curitiba, conseguindo
o primeiro lugar e com apenas 25 votos, dados pelos remanescentes
daqueles homens de <strong><em>sã
consciência</em></strong>.
Foram seus companheiros o doutor Trajano Reis, Joaquim Ventura Torres,
Joaquim José Belarmino de Bittencourt, Matias Taborda,
Isaias Augusto de Andrade, entre outros. Agradece pela imprensa e
promete empregar todos os esforços para corresponder
à confiança que, tão generosamente,
nele depositaram os eleitores.</p>
<p style="text-align: justify;">Em
1885, o doutor Brasílio Machado, presidente da
Província do Paraná, antecipando-se ao
próprio governo real e as demais Províncias do
Império, põe em execução o
ato de 3 de dezembro de 1883 do presidente Oliveira Bello, criando o
ensino obrigatório. Lutou com dificuldade o Presidente e
seus auxiliares na realização da nobre tarefa,
pois, a população proletária,
principalmente, furtava-se a dar os meios necessários para o
arrolamento escolar; uns pais pensavam que se procedia por este sistema
a um recrutamento para a marinha; outros que se procurava desta forma
fazer cobrança de algum imposto novo e outros, finalmente,
diz o <em>Dezenove de Dezembro </em>de
22.04.1885, procediam com maquiavelismo, aproveitando as
crianças em trabalhos domésticos, muito embora
com prejuízos da instrução.</p>
<p style="text-align: justify;">O
periodista afirma com entusiasmo que os resultados da campanha
já são observados e chega mesmo a comparar a
eficiência do ensino no Paraná com o dos Estados
Unidos da América do Norte, onde, apesar do seu progresso, o
setor do ensino primário ainda apresenta suas
deficiências. Faz uma exortação aos
pais, no sentido de poderem proclamar até o fim do ano que
todos seus filhos, de 07 a 14 anos, sabem ler, pelo menos o primeiro
livro de leitura, dada a excelência do novo método
de ensino.</p>
<p style="text-align: justify;">É
publicado um recenseamento das escolas públicas de Curitiba,
em número de 20, inclusive particulares e que
constituíam a maioria, acusando um total de 1.136 alunos,
além de 81 que freqüentavam as aulas noturnas e dos
quais 23 eram adultos. Havia, ainda, alunos do Instituto Paranaense e
das escolas dos corpos, todos maiores.</p>
<p style="text-align: justify;">Havia
um chefe da Superintendência do Ensino
Obrigatório. Augusto Stellfeld exerce as
funções de superintendente do 1º
distrito de Curitiba e na visita que faz à escola
Alemã, constata a matrícula de 141 alunos, mais
do dobro do Colégio Curitibano e do Partenon, que eram os
mais acreditados.</p>
<p style="text-align: justify;">Mais
tarde, o presidente Taunay relegando para um segundo plano o ensino
obrigatório, considera de máximo interesse e
mesmo vital para todo o Brasil a imigração
européia, que aqui no Paraná fora tão
bem iniciada pelo presidente Lamenha Lins. E, imbuído destes
propósitos, o autor da epopéia da Laguna cria
várias sociedades de imigração, tanto
no capital como no interior, e determina que nos papéis e
correspondência oficiais, seja substituída a
denominação <em>colono</em>
pelo vocábulo <strong><em>imigrante</em>
, <em>muito mais expressivo e de
maior</em> <em>exatidão
científica</em>, </strong>o
que deu motivos a mais uma crítica ao seu governo pelo
órgão do partido liberal.</p>
<p style="text-align: justify;">A
6 de outubro de 1885 funda-se, em Curitiba, a filial da
“Sociedade Colonial de Berlim”, recentemente
fundada e que tinha por objetivo procurar estreitar as
relações da Alemanha com as colônias e
imigrantes alemães em toda a parte do globo. Estava a
Sociedade vivamente interessada pela imigração
das províncias meridionais do Brasil, procurando para isso
conquistar relações comerciais e promover a
imigração para os nossos portos por meio de
linhas diretas de vapores, comprando, ainda, terras para seus
compatriotas.</p>
<p style="text-align: justify;">A
reunião no Grande Hotel é presidida por Augusto
Stellfeld e honrada com a presença do presidente Taunay,
aliás, aclamado naquela noite presidente
honorário da filial da Sociedade Colonial de Berlim, por
unanimidade, em sinal de gratidão e estima consagradas<strong>
<em>“ao grande
apóstolo da imigração.”</em></strong></p>
<p style="text-align: justify;">Aprovados
os estatutos e eleita a primeira diretoria, Augusto Stellfeld integra o
grupo de cinco conselheiros.</p>
<p style="text-align: justify;">Na
sessão da Câmara Municipal de 7 de janeiro de
1886, Augusto Stellfeld é eleito vice-presidente, ocupando,
porém, imediatamente, a presidência até
o fim do seu mandato.</p>
<p style="text-align: justify;">A
atual praça Tiradentes, onde a 29 de março de
1693 reuniram-se os povoadores da paróquia de Nossa Senhora
da Luz e Bom Jesus dos Pinhais de Curitiba, e aclamaram seis homens de <strong><em>sã
consciência</em>, </strong>para
que estes constituíssem as autoridades da
administração e da justiça e,
conseqüentemente, ficasse instalada a vila de Curitiba,
até fins do século XIX não passava de
um largo deserto, “um imundo potreiro de animais, que por
abuso inqualificável dos proprietários ali
pastavam de noite e até de dia.”
(Relatório do presidente Taunay).</p>
<p style="text-align: justify;">Graças
aos préstimos do coronel Pereira Gomes, comandante do
3º regimento de artilharia de campanha, a praça em
pouco tempo foi radicalmente remodelada e ajardinada, com os passeios
diagonais e em cruz. E, por ocasião da
inauguração, assistida, entre outros, pelo
então acadêmico de medicina Vitor Ferreira do
Amaral e que nos contou o episódio a seguir, Augusto
Stellfeld, na qualidade de presidente da Câmara, exaltando em
breves palavras o empreendimento público, em nome dela, faz
a entrega da quantia de um conto de réis (mil reais, em
moeda atual) aos soldados que haviam participado das obras.</p>
<p style="text-align: justify;">Do
mesmo modo, o extenso charco em que se espraiava o rio
Belém, merece a atenção dos governos
provincial e municipal, formando-se, como por um encanto, o
belíssimo Passeio Público e que realmente se
tornou, como prognosticava o <strong><em>Dezenove
de Dezembro</em></strong>,
um dos mais apreciados e procurados locais de recreio desta cidade e
para o futuro motivo de justa ufania. Foi um dos principais <strong><em>“motores
da transformação</em>“</strong>,
o senhor Francisco Face Fontana, nomeado depois seu diretor. Augusto
Stellfeld faz também uma rápida
alocução ao ato, entregando à cidade o
pitoresco logradouro.</p>
<p style="text-align: justify;">Em
maio de 1886 realizar-se-ia a Exposição Sul
Americana de Berlim, e Augusto Stellfeld faz parte da
comissão nomeada para constituir-se centro receptor de todos
os produtos da Província e destinados àquela
exposição.</p>
<p style="text-align: justify;">A
7 de janeiro de 1887, quando prestaram juramento e tomaram posse os
novos vereadores da Câmara Municipal de Curitiba, Augusto
Stellfeld lê o relatório da sua
administração, dizendo<strong>
<em>“que nas
circunstâncias precárias em que se achavam os
cofres da Câmara, devido a operações
dos anos anteriores, que comprometeram as suas rendas por muitos anos,
não pôde a Câmara nos últimos
tempos e sob a administração atual, empreender
obras de vulto, entretanto não fora inativa.”</em></strong></p>
<p style="text-align: justify;">Enumera
os principais problemas da sua gestão, como a
questão da dívidas, que passavam de 200:00$000
(duzentos contos de réis); embora na
administração anterior fosse amortizada apenas a
quantia de 300 mil réis, no seu mandato foi
possível sortear apólices no valor de Rs.
7:700$000 (sete contos e setecentos mil réis),
além do pagamento de juros da dívida consolidada,
no valor de Rs. 11:239$000 (onze contos, duzentos e trinta e nove mil
réis).</p>
<p style="text-align: justify;">É
preciso ponderar que só a amortização
das apólices representava uma grande parte da
arrecadação anual da Câmara Municipal e
que naquele tempo a edilidade ocupava uma das salas da cadeia nova,<strong>
<em>“prédio
de proporções acanhadas e de péssima
construção”, e obrigada ainda a pagar
ao tesouro provincial o alto aluguel de 100$000 mensalmente.”</em></strong></p>
<p style="text-align: justify;">Merecem
referências no relatório a necessidade de um novo
cemitério, apesar do excelente estado sanitário
do município, onde não apareceram certas
enfermidades que continuavam a reinar na capital; o abastecimento de
água potável, a limpeza pública, a
iluminação da cidade, que devia ser a
gás e não elétrica.</p>
<p style="text-align: justify;">Na
opinião da comissão relatora da
Assembléia Provincial:<strong>
</strong></p>
<p style="padding-left: 120px; text-align: justify;"><strong><em>“o
sistema de iluminação elétrica ainda
não
está bem estudado e cujo processo tem sido
vário”</em> e
que <em>“o malogro a
que se têm sujeitado as cidades que a experimentaram, nos
afastam do mesmo caminho e nos aconselham a escolha de um sistema bom e
já anos experimentado e conhecido.”</em></strong></p>
<p style="text-align: justify;">Contudo,
embora aprovada pela comissão relatora da
Assembléia Provincial a iluminação
à gás, o melhoramento assim projetado
não se efetivou, tendo sido Curitiba a segunda cidade do
Brasil a adotar a iluminação elétrica.</p>
<p style="text-align: justify;">A
ojeriza partidária e racial que o <strong><em>Dezenove
de Dezembro</em></strong>,
bem como os liberais, em geral, tinham pelo presidente Taunay e
também, indiretamente, por Augusto Stellfeld, manifestava-se
ainda no carnaval de 1887, quando o grupo carnavalesco <strong><em>Nihilistas
do Averno</em></strong>,
apresentava um regular número de carros
alegóricos (<strong><em>carros
de idéias</em></strong>,
como eram chamados naquelas épocas), os quais pelas cinco
horas do domingo entraram pela rua da Imperatriz (a atual Rua XV de
Novembro ou a mundialmente conhecida <strong>Rua
das Flores de Curitiba</strong>),
precedidos de uma banda de música a cavalo e fantasiada, e
de uma esplêndida grande de honra, e percorrem a limitada
área urbana de Curitiba.</p>
<p style="text-align: justify;">O
quarto carro alegórico, diz o <strong><em>Dezenove
de Dezembro</em></strong>,
de 24 de fevereiro de 1887:</p>
<p style="padding-left: 120px; text-align: justify;"><strong><em>“apresenta
a jardim da Praça Dom Pedro II, tendo no centro um
ex-presidente de Província, muito conhecido pelos imigrantes
e um ex-presidente da Câmara Municipal, que não
sabe falar português”.</em></strong></p>
<p style="text-align: justify;">Da
porta da farmácia, Augusto Stellfeld, há menos de
dois meses que havia deixado a presidência da
Câmara Municipal, envergando a impecável
sobrecasaca, com o cobiçado botão da Ordem da
Rosa na lapela, e coifando contemplativamente a bem tratada barba
branca, e protegendo com a mão esquerda a vista,
já sensivelmente cansada, dos últimos raios
solares douravam e aqueciam o rejuvenescido pátio, e
elevando assim um pouco aquele barrete de veludo vermelho,
símbolo da sua amada profissão e com o qual,
quando crianças, brincávamos, ignorando o seu
significado e o seu inestimável valor que hoje e para sempre
teria para nós, percebe que um daqueles bonecos é
a sua própria pessoa, como se estivesse refletida num
espelho muito grande.</p>
<p style="text-align: justify;">Indubitavelmente
acha bem engraçado, mas profunda e amargamente ingrata
aquela crítica; contudo, sente-se orgulhoso ser criticado
publicamente ao lado de um Taunay.</p>
<p style="text-align: justify;">A
8 de novembro de 1891 recebe o diploma e a medalha de <strong>Membro
Fundador</strong> da <strong><em>“Societé
Scientifique Européenne”</em></strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">A
Campanha Federalista, com seus lúgubres “<strong><em>dias
fratricidas”, </em></strong>é
um dos últimos capítulos da vida de Augusto
Stellfeld, quase octogenário. Talvez não tivesse
tido nenhuma participação ativa, além
da absoluta lealdade ao regime constituído, contudo seus
filhos, Bruno, tenente da cavalaria, com curso na Escola Militar do Rio
de Janeiro, e Edgard, tenente do sexto batalhão de
infantaria da guarda nacional, prestam serviços de guerra.</p>
<p style="text-align: justify;">Augusto
Stellfeld assina ainda uma cautela de empréstimo, sob
responsabilidade dos chefes da revolução, de mar
e terra no valor de Rs. 400$000, recebidos pelo barão do
Serro Azul, a 30 de janeiro de 1894.</p>
<p style="text-align: justify;">Uma
semana mais tarde, a 7 de fevereiro de 1894, falece súbita e
tranqüilamente, feliz com o justo e terno descanso que o Juiz
Supremo do Universo lhe concede, deixando dois filhos, <strong><em>“hábeis
e inteligentes”</em></strong>
na direção da sua farmácia, a primeira
de Curitiba.</p>
<p style="text-align: justify;">Quando
à 7 de abril de 1907, comemorando-se o
cinqüentenário da fundação da
Farmácia Alemã, foi inaugurada a Rua Augusto
Stellfeld, o periódico <strong><em>Diário
da Tarde</em></strong>,
ainda me recordo, glosando o acontecimento sob a forma de
diálogo, pergunta: <strong><em>“quem
foi Augusto Stellfeld?</em> </strong>Ao
que o outro responde: <strong><em>foi
o pai do deputado Edgard Stellfeld.</em></strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong><em>Ahn!
</em></strong>Exclama
o primeiro, resignadamente e crente que a homenagem que hoje
é prestada tão abusiva quão
displicentemente, foi feita para satisfazer apenas a vontade de um
deputado, um político!</p>
<p style="text-align: justify;">E
quando o Brasil, na primeira guerra mundial declara guerra à
Alemanha, os gestos, as manifestações
patrióticas dos exaltados, culminam, depois da
depredação em estabelecimentos de ensino, do
comércio e da indústria, arrancando
apoteótica e violentamente as placas da Rua Augusto
Stellfeld.</p>
<br>
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