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<TITLE>CASU�STICA</TITLE>
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<P><A NAME="_Toc402522595"><A NAME="_Toc386730545"><A NAME="_Toc371097093"><HR></P>
<B><I><FONT FACE="Arial"><P ALIGN="CENTER">CASUÍSTICA</A></A></A></P>
</I></FONT><P> </B>Durante o tempo em que estive à frente da Farmácia Antonini, o qual não foi pouco, praticamente uma década, tive a oportunidade de presenciar os mais pitorescos casos de abusos de medicamentos, desde o uso exagerado de antitussígenos, até o uso deliberado de drogas comprovadamente psicoativas. Quantas foram as vezes em que clientes aportaram ao balcão da farmácia e solicitaram a venda de um medicamento psicoestimulante e, ao tentarmos dissuadi-lo do uso impróprio do fármaco, fui desacatado e até agredidos moralmente, mas, nem com isso deixei de evitar a qualquer custo o uso indiscriminado de psicofármacos de venda livre.</P>
<P ALIGN="JUSTIFY">O grande problema é esse, os indivíduos pensam que os medicamentos agem por passes de mágica, que resolvem qualquer problema, mesmo que não seja o real, e ainda, não acreditam, quando alegamos e apresentamos os efeitos indesejáveis dos mesmos, e com isso, muitas vezes iniciam uma longa e amarga caminhada, a da toxicomania.</P>
<P ALIGN="JUSTIFY">Todos os dias chegava ao balcão da farmácia um senhor ou senhora, bem trajado, elegante e fino, que apesar de todo este aparato pedia e exigia um medicamento psicoestimulante para fazer uso indevido, e quando era negada a venda do mesmo, protestava, fazia escândalos e saía difamando o estabelecimento e seus funcionários.</P>
<P ALIGN="JUSTIFY">Durante estes quase dez anos, registrei centenas de casos, os mais pitorescos e até inacreditáveis possíveis, desde o uso abusivo, acidentes medicamentosos e até efeitos adversos sobre o psiquismo oriundos de uso determinado por pura ignorância por parte do consumidor, mas selecionei os casos mais expressivos nos quais os efeitos sobre o psiquismo foram notados e registrados quando do relato dos clientes, apesar de ter registro de quase todos os casos de efeitos psíquicos indesejáveis em muitos casos de uso de medicamentos.</P>
<B><U><P ALIGN="JUSTIFY">Caso número um</B></U>: Um senhor de meia idade, mais especificamente com cinqüenta anos de idade, apresentou um quadro de intensa sacralgia com irradiação álgica para o apêndice locomotor direito (perna direita). Consultou vários especialistas, ortopedistas, neurologistas e outros, e iniciou ingestão de medicamentos dos mais variados tipos e indicações. Qualquer pessoa que lhe dissesse que tomou determinado medicamento, ou fez tal chá, o mesmo corria à farmácia e comprava o medicamento e tomava, acorria aos ervanários e comprava a dita erva para fazer o referido chá.</P>
<P ALIGN="JUSTIFY">Investigando a história pregressa deste cliente, encontramos o seguinte quadro: sua mãe fora a óbito quando este contava apenas com onze anos de idade, vitimada por neurocarcinoma e tráqueo-pneumocarcinoma, e ainda, seu pai também foi a óbito acometido por um pneumossarcoma e o mesmo, quando em seu leito de morte implorava ao nosso cliente que colocasse fim a sua vida, pois, não agüentava mais a crescente asfixia. Nosso cliente, tendo perdido a mãe em circunstância semelhante e vendo o pai nesta situação, introjetou um pavor às doenças, uma patofobia intensa e que neste momento de sua vida, onde está atravessando o climatério masculino e pelo constante medo da morte que se aproxima, sempre tem em mente a agonia de seus genitores e por isso a qualquer sinal de doença, por menor que seja, toma grande quantidade de medicamentos, como no caso da sacralgia, esta foi eliciada por frustração e pela intolerância ao ambiente e problemas de seu trabalho e para fugir a esta situação, desencadeou-se a sacralgia psicossomática que só desapareceu quando este conseguiu sair deste ambiente. Este tipo de manifestação é típico em neuróticos histéricos conversivos e em hipocondríacos e pode retornar na próxima oportunidade em que o nosso amigo aqui se deparar com outra situação frustrante.</P>
<B><U><P ALIGN="JUSTIFY">Caso número dois</B></U>: Um taxista, de vinte e oito anos, chegou à nossa farmácia e nos pediu um medicamento mais forte para tirar o sono, pois, o medicamento à base de benzidamida que ele estava tomando não surtia mais resultados. Conversando com o cliente, apuramos outros dados sobre o uso destes medicamentos, como ele tomava os mesmos e porque. Ele utilizava os mesmos para dirigir, tanto de noite quanto de dia, pois o mesmo tirava o sono e excitava, mas com o tempo o medicamento foi se tornando ineficaz e, por isso, ele acorreu a nosso estabelecimento solicitando outro mais potente. O referido taxista revelou-nos uma situação onde ele, ao ter tomado o medicamento com café, colidiu lateralmente seu taxi com outro carro que trafegava ao seu lado, ao tentar desviar de uma árvore plantada bem no meio da avenida Padre Anchieta, uma via rápida larga que liga o centro de Curitiba à rodovia BR-277. Quando inquirido pelo policial do Batalhão de Polícia do Trânsito, que atendeu à ocorrência, nosso sujeito podia jurar que a tal árvore estava mesmo ali.</P>
<B><U><P ALIGN="JUSTIFY">Caso número três</B></U>: Mulher de aproximadamente trinta e cinco anos adquire diariamente uma embalagem de um medicamento à base de cafeína e beladona, pois relata intensa enxaqueca de longa data. Se ficar sem o remédio, a dor aparece imediatamente e surge com mais intensidade ainda. A cliente em questão está nitidamente dependente do medicamento, o qual ela ingere de dois, três e até mais comprimidos de uma só vez.</P>
<B><U><P ALIGN="JUSTIFY">Caso número quatro</B></U>: Um menino de seis anos foi encaminhado para atendimento psicológico porque apresentava desajustes comportamentais na escola, hiperatividade, não parava quieto um minuto sequer, dificuldades de aprendizagem e socialização. Feita a aplicação dos exames psicodiagnósticos, chegou-se a conclusão que se tratava de uma disfunção cerebral mínima ou então de um esquizofrenia paranóide. Levantando a história da criança, descobrimos que ela apresentava enurese noturna e lhe foi prescrito, por uma pediatra, um medicamento à base de imipramina, que é um antidepressivo, psicoestimulante e estava determinando todos aqueles problemas na criança. Se não fosse uma investigação mais apurada, acerca do histórico do menino, o mesmo fatalmente teria sido encaminhado para um tratamento psiquiátrico com um diagnóstico que na realidade ele, nem de longe, poderia apresentar.</P>
<B><U><P ALIGN="JUSTIFY">Caso número cinco</B></U>: Mãe chegou um dia em nosso estabelecimento e queixou-se da filha de nove anos, que vivia chorando por qualquer coisa, não tinha vontade de brincar com as amigas, as quais eram bem poucas, passava o dia todo trancada dentro de seu quarto e ainda por cima, estava indo muito mal nas notas escolares e relutava muito em ir para a mesma. Conversando com a mãe, perguntamos a ela se a menina tomava algum medicamento, ou tinha algum outro problema relacional e a resposta foi, para nós sem qualquer espanto, o uso de um medicamento, o pimetixeno, o qual a mãe estava administrando à filha desde que esta sofrera um choque emocional ocasionado pela perda da avó que ela tanto estimava, e, quando a menina passou a apresentar o quadro depressivo, a mãe aumentou a dosagem do medicamento. Pois bem, o pimetixeno é um depressor do sistema nervoso central e age igualmente no lobo límbico produzindo depressão psíquica do pito endógena.</P>
<B><U><P ALIGN="JUSTIFY">Caso número seis</B></U>: Mulher de vinte e seis anos queixou-se para nós de uma constante angústia, ansiedade, irritabilidade, depressão, vertigem e cefaléia, além de distúrbios gastrointestinais pronunciados por náuseas e vômitos ocasionalmente. Quando inquirida sobre o uso de medicamentos, esta nos informou que fazia uso de medicamento contraceptivo oral constituído de associação de levonorgestrel com etenil-estradiol, dois hormônios sintéticos, os quais, em grandes dosagens, produzem os mesmos efeitos dos hormônios naturais e podem, inclusive, determinar episódios convulsivos.</P>
<B><U><P ALIGN="JUSTIFY">Caso número sete</B></U>: Criança do sexo masculino de dois anos e quatro meses de idade, apresentou uma crise convulsiva do tipo grande mal, pouco após haver sido administrado uma injeção intramuscular de lincomicina, um antibiótico sintético que produz irritação do tecido nervoso.</P>
<B><U><P ALIGN="JUSTIFY">Caso número oito</B></U>: Homem de vinte e um anos que contraiu uma hepatite após ter utilizado um medicamento formulado à base de ácido acetilsalicílico, o qual é hepato-tóxico e produz inflamações do parênquima hepático com derrame de bilirrubina na corrente sangüínea.</P>
<B><U><P ALIGN="JUSTIFY">Caso número nove</B></U>: Menina púbere acometida de metropatia hemorrágica em sua menarca, aos doze anos. Para erradicar a hemorragia, a ginecologista lhe prescreveu uma medicação injetável à base de associação de estrógenos com testosterona, e após a aplicação de quatro injeções da mesma, a menina começou a apresentar agressividade exagerada, excitabilidade, ansiedade, hiperatividade e comportamento masculinizado.</P>
<B><U><P ALIGN="JUSTIFY">Caso número dez</B></U>: Mulher de quarenta e seis anos entrou em surto paranóide com delírio de perda e visões de familiares ausentes, devido ao uso de um medicamento anti-hipertensivo, o metildopa.</P>
<P ALIGN="JUSTIFY">Através da descrição destes dez casos nós podemos compreender um pouco melhor a amplitude do problema dos psicofármacos, e ao final de toda esta epopéia, o resultado é um só: o paciente acaba indo parar na Clínica de Psicologia, com queixas de distúrbios de emoções e comportamentos, sem de longe perguntar a si mesmo se a causa destes transtornos não está fundamentada nos medicamentos que ele está ingerindo?!</P>
<P ALIGN="JUSTIFY">Cabe aos psicólogos também esta tarefa, de inquirir, de pesquisar, de mostrar para o paciente o efeito real dos medicamentos que ele toma e com isto pode eliciar os desajustes dos quais ele ora se queixa.</P></BODY>
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