{"id":6405,"date":"2009-10-21T15:29:21","date_gmt":"2009-10-21T18:29:21","guid":{"rendered":"http:\/\/antonini.med.br\/blog\/?p=6405"},"modified":"2025-08-23T00:36:41","modified_gmt":"2025-08-23T00:36:41","slug":"augusto-stelffeld-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antonini.com.br\/?p=6405","title":{"rendered":"Augusto Stelffeld"},"content":{"rendered":"<h4 style=\"text-align: justify;\"><!--more-->A Vinda de Augusto Stelffeld para o Brasil<\/h4>\n<p style=\"text-align: justify;\">ngg_shortcode_0_placeholderAs pend\u00eancias territoriais lim\u00edtrofes entre a Dinamarca e as mais avan\u00e7adas terras setentrionais da Alemanha, datam do tempo em que, para a defesa do Holstein, ent\u00e3o convertido ao cristianismo, gra\u00e7as ao poder e \u00e0 vontade de Carlos Magno e de seu filho, Ludovico, o pio, foi criada na velha Germ\u00e2nia, entre o Eider e o Schlei, a marca <strong><em>Schleswig<\/em><\/strong><em>.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fora fixada a divisa para impedir as incurs\u00f5es dos dinamarqueses que, por sua vez, constru\u00edram aquela famosa <strong>danorum vallum<\/strong>, uma vala de 14 quil\u00f4metros de extens\u00e3o, com 10 a 13 metros de profundidade e que ainda na guerra de 1864 teve a sua import\u00e2ncia b\u00e9lica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E as seguidas guerras, as confabula\u00e7\u00f5es diplom\u00e1ticas, os acordos e os juramentos, durante mais de um mil\u00eanio, justificavam-se nos direitos de posse e de governo pelas sucess\u00f5es din\u00e1sticas, ora apaziguadoras e acomodat\u00edcias, ora rebeldes e vingativas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 1720, o duque Carlos Frederico, apenas atingia a maioridade, foi escorra\u00e7ado de seus dom\u00ednios por Frederico IV da Dinamarca, logo reconhecido, sob juramento crist\u00e3o, como o \u00fanico soberano de Schleswig-Holstein.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Senhor apenas de suas propriedades no Holstein, o duque Carlos Frederico, possivelmente, aguardava qualquer rea\u00e7\u00e3o do povo ou de sua ilustre fam\u00edlia, entretanto, tal n\u00e3o sucedeu, pois seu filho Carlos Pedro Ulrico (neto de Pedro, o grande) foi proclamado herdeiro do trono da R\u00fassia, qual de fato ocupou em 1762 como Pedro III; foi assassinado seis meses mais tarde pelos asseclas do pr\u00edncipe Orlow, favorito de quem, ficando vi\u00fava, seria a famos\u00edssima Catarina II.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">J\u00e1 Adolfo Frederico, o tio do duque Carlos Frederico e que tamb\u00e9m fora seu tutor, ascendia ao trono da Su\u00e9cia em 1751. Dona absoluta de dois tronos estranhos e muito mais importantes que os Ducados, a linha Schleswig-Gottorp n\u00e3o se interessou mais pela correg\u00eancia de Schleswig-Holstein, indissoluvelmente unidos desde 1386.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nestas condi\u00e7\u00f5es, ratificada a desist\u00eancia por Catarina II em 1767, Schleswig-Holstein ficaram pacificamente aos cuidados do rei Cristiano VII da Dinamarca (1773) que, por sua vez, desistiu dos condados de Oldenburg e de Delmenhorst, fundando-se uma nova linha e um novo ducado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na corte dinamarquesa, bem como na alta magistratura p\u00fablica, a nobreza de Schleswig-Holstein estava muito bem representada. Gozavam desta forma os Ducados de muita prote\u00e7\u00e3o no reino e acabaram se incorporando definitivamente \u00e0 Dinamarca ap\u00f3s a dissolu\u00e7\u00e3o do Reich em 1806.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas os ideais de separatismo, de independ\u00eancia e de restabelecimento de uma Alemanha grande e unida, jamais deixaram de transparecer e em janeiro de 1848 agravaram-se consideravelmente, culminando com a proclama\u00e7\u00e3o de um governo provis\u00f3rio, que foi aplaudido por todos, inclusive as for\u00e7as armadas l\u00e1 sediadas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O governo provis\u00f3rio, francamente apoiado por Frederico Guilherme, rei da Pr\u00fassia, muito interessado na independ\u00eancia dos Ducados, convocou a 3 de abril de 1848 uma assembl\u00e9ia do povo, com o fim de ser aprovada a admiss\u00e3o de Schleswig-Holstein no <em>&#8220;<strong>Deutscher Bund&#8221;<\/strong>.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Organizou-se com entusiasmo um ex\u00e9rcito, constitu\u00eddo das tropas regulares dos Ducados e de v\u00e1rios corpos de volunt\u00e1rios. As tropas libertadoras avan\u00e7aram com \u00edmpeto e entusiasmo at\u00e9 Flensburg, a capital por ocasi\u00e3o da ocupa\u00e7\u00e3o dinamarquesa, contudo, ap\u00f3s a malograda batalha de Bau (9 de abril), \u00e0 ocupa\u00e7\u00e3o de Schleswig pelo inimigo (11 de abril) e ao fracassado assalto \u00e0s famosas trincheiras de Dueppel (28 de maio), retiraram-se do campo de batalha.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Foi declarado o fim da guerra no m\u00eas de maio e dissolvido o corpo de volunt\u00e1rios, apesar dos socorros prestados aos patriotas pelas tropas prussianas e de outros estados alem\u00e3es, sob o comando do general Wrangel, que conseguiram infligir aos dinamarqueses s\u00e9rias derrotas em Schleswig e \u00d6versee (23-24 de abril), ocupar Fredericia, no pequeno Belt (2 de maio) e sair-se vitoriosas em Dueppel (5 de junho).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o possu\u00eda a Alemanha, entretanto, uma marinha de guerra e seus portos foram bloqueados, com evidentes preju\u00edzos para seu com\u00e9rcio. Al\u00e9m disso, a R\u00fassia e a Inglaterra mostraram-se simp\u00e1ticos \u00e0 causa da Dinamarca. Foi assinado o armist\u00edcio de Malmoe (26 de agosto), conformando-se, pelo menos aparentemente, os patriotas de Schleswig-Holstein com as imposi\u00e7\u00f5es e com a infrut\u00edfera arrancada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No ducado de Braunschweig, onde nasceu Augusto Stellfeld a 31 de agosto de 1817, at\u00e9 o ano de 1873 era facultativo o estudo superior da farm\u00e1cia para o exerc\u00edcio da profiss\u00e3o. Podia-se, sem ter freq\u00fcentado uma Faculdade, comparecer perante uma banca examinadora oficial e prestar o exame, que concedia ao candidato as prerrogativas de auxiliar (Gehilfe) do &#8220;Apothekerbesitzer&#8221; (farmac\u00eautico-propriet\u00e1rio), ou as deste, se para isso requeresse e houvesse vaga para a instala\u00e7\u00e3o de uma nova farm\u00e1cia ou possibilidade de compra de uma j\u00e1 existente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Augusto Stellfeld<\/strong>, com estudos universit\u00e1rios ou n\u00e3o, devia estar trabalhando em alguma farm\u00e1cia de sua cidade natal, possivelmente ap\u00f3s aqueles anos de peregrina\u00e7\u00e3o e de aprendizado, e, talvez, tivesse o prop\u00f3sito de estabelecer-se futuramente com uma farm\u00e1cia, o que somente poderia ser poss\u00edvel por etapas e at\u00e9 que aparecesse a oportunidade, em geral, ap\u00f3s cada recenseamento, quando, por\u00e9m, muitos candidatos afluiriam \u00e0 vaga.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Empolgado, entretanto, com a companhia libertadora dos ducados de Schleswig-Holstein, apresenta-se como volunt\u00e1rio e toma parte na curta campanha da primavera de 1848. Ao ser dispensado o corpo de volunt\u00e1rios recebe o seguinte certificado, devidamente traduzido:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 120px;\"><strong><em>&#8220;O Sr. Stellfeld combateu na guerra da independ\u00eancia dos ducados de Schleswig-Holstein na primavera de 1848, no corpo de volunt\u00e1rios de Rantzau, na qualidade de comandante na 3\u00aa Companhia.<br \/>\nServiu com grande zelo e especial circunspec\u00e7\u00e3o e eu lhe agrade\u00e7o no fim da guerra e na despedida dos volunt\u00e1rios em nome da P\u00e1tria, contando, se houver necessidade, de ir com a mesma prontid\u00e3o ao encontro do inimigo.&#8221;<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"padding-left: 120px; text-align: justify;\"><strong><em>Veile, 7 de maio de 1848.<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"padding-left: 120px; text-align: justify;\"><strong><em>(a) ileg\u00edvel<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"padding-left: 120px; text-align: justify;\"><strong><em>General Comandante do Ex\u00e9rcito de Schleswig-Holstein.<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Augusto Stellfeld prepara-se em seguida para o exame de farmac\u00eautico-auxiliar, sendo aprovado a 15 de novembro do mesmo ano de 1848. Presta nesse dia o juramento de fidelidade ao regente do Ducado e promete cumprir exatamente as instru\u00e7\u00f5es inerentes \u00e0 profiss\u00e3o farmac\u00eautica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Da vida escolar e profissional de Augusto Stellfeld em sua cidade natal nada se sabe, nem mesmo das credenciais apresentadas para o exame de habilita\u00e7\u00e3o acima referido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Informa\u00e7\u00f5es ultimamente solicitadas ao professor Jaretzky, residente ou qui\u00e7\u00e1 natural da cidade de Braunschweig, foram, infelizmente, negativas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O arquivo e toda a documenta\u00e7\u00e3o ligados aos antigos exames estaduais foram destru\u00eddos pelos bombardeios intensivos e ininterruptos da \u00faltima conflagra\u00e7\u00e3o, salvo uma pequena parte levada ainda \u00e0s pressas para Wolfenbuettel. Entretanto, as pesquisas efetuadas nesse material tamb\u00e9m foram infrut\u00edferas, contudo, o professor Jaretzky prometeu fazer uma investiga\u00e7\u00e3o pessoalmente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quanto \u00e0 farm\u00e1cia ou farm\u00e1cias, onde Augusto Stellfeld teria praticado e depois exercido a profiss\u00e3o, tamb\u00e9m foram sem resultado as indaga\u00e7\u00f5es iniciadas, compreendendo-se este malogro se for levado em considera\u00e7\u00e3o que das farm\u00e1cias existentes na cidade de Braunschweig, apenas uma \u00fanica n\u00e3o foi destru\u00edda pelas bombas!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Narra a hist\u00f3ria que, esgotado o prazo do armist\u00edcio, a guerra da independ\u00eancia dos ducados de Schleswig-Holstein foi reiniciada a 1\u00ba de abril de 1849.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os 45.000 soldados alem\u00e3es, sob o comando do general prussiano von Prittwitz, ocuparam a cidade de Schleswig e a 13 de abril, ap\u00f3s uma brilhante vit\u00f3ria naval na ba\u00eda de Ekerfoerde, quando pelas baterias da terra foi incendiada a nau de linha Cristiano VIII e for\u00e7ada \u00e0 rendi\u00e7\u00e3o a fragata Geison, as tropas b\u00e1varas e sax\u00f4nicas assaltaram as famosas trincheiras de Dueppel. Como precau\u00e7\u00e3o e temendo a superioridade num\u00e9rica dos dinamarqueses, o general Prittwitz teve ordens de apenas conservar ocupada a cidade de Schleswig, sem se preocupar com qualquer ofensiva.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nestas condi\u00e7\u00f5es somente as tropas de Schleswig-Holstein, sob o comando do general prussiano Bonin, que tanto se salientara na campanha de 1848 e fora o remodelador do ex\u00e9rcito ap\u00f3s o armist\u00edcio de Malmoe, entraram na Jutl\u00e2ndia e derrotaram os dinamarqueses em Koelding (23 de abril) e em Gudsoe (7 de maio). Iniciaram, em seguida, o cerco de Fredericia, e depois de terem repelido vitoriosamente diversas sortidas, foram na noite de 5 para 6 de julho, intensamente atacadas pelo inimigo, comandado pelo general Buelow. Dada a inatividade do general Prittwitz, foram reunidas todas as for\u00e7as dispon\u00edveis da Dinamarca e ap\u00f3s uma batalha sangrenta, as tropas libertadoras foram for\u00e7adas a uma retirada, abandonando-se o cerco de Fredericia, com a perda de 2.800 homens e 28 canh\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesse \u00ednterim a Pr\u00fassia firmou novo armist\u00edcio com a Dinamarca (10 de julho), para no dia 2 de julho do ano seguinte (1850) ser assinada a paz. A Pr\u00fassia subscreveu tamb\u00e9m em nome da Uni\u00e3o Alem\u00e3, ficando a Dinamarca com plenos poderes para repelir ou sufocar qualquer resist\u00eancia dos Ducados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os Ducados, ap\u00f3s a retirada das tropas prussianas que ocupavam o sul, enquanto que as suecas ocupavam o norte, procuraram um entendimento direto com a Dinamarca. Como esta aproxima\u00e7\u00e3o foi repelida pelos dinamarqueses, com arrog\u00e2ncia e verdadeiro \u00f3dio nacional, os Ducados resolveram reiniciar a luta com seus pr\u00f3prios recursos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com um ex\u00e9rcito de 30 mil homens dos Ducados e de volunt\u00e1rios alem\u00e3es, o general prussiano von Willisen, famoso nas campanhas de 1806 a 1815, ocupou o norte de Schleswig, descuidando-se, por\u00e9m, de impedir, com uma r\u00e1pida incurs\u00e3o, a uni\u00e3o dos dois ex\u00e9rcitos dinamarqueses que vinham da Jutl\u00e2ndia e do Alsen. Enfrentando as tropas inimigas (37 mil homens) ao sul de Flensburg, em Idstedt (24-25 de julho), e ap\u00f3s uma batalha que a princ\u00edpio foi favor\u00e1vel aos Ducados, o ex\u00e9rcito libertador foi destro\u00e7ado e obrigado a retirar-se al\u00e9m do Eider.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os dinamarqueses ocuparam novamente a cidade de Schleswig, e os assaltos de Missunde (12 de setembro) e de Friedrichstadt (4 de outubro), para os quais Willisen se arrojou, ap\u00f3s uma longa hesita\u00e7\u00e3o devido ao mau tempo, foram recha\u00e7ados com grandes perdas. Willisen abandonou o comando a 7 de dezembro e foi substitu\u00eddo pelo general von der Horst, que comandara a princ\u00edpio o batalh\u00e3o de ca\u00e7adores e depois a 3\u00aa brigada de infantaria. Mas era tarde demais. A Pr\u00fassia sujeitou-se \u00e0s imposi\u00e7\u00f5es da \u00c1ustria, apoiada pela R\u00fassia, de serem cessadas as opera\u00e7\u00f5es b\u00e9licas nos Ducados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma comiss\u00e3o de pacifica\u00e7\u00e3o austro-prussiana foi enviada para o Ducado de Holstein, seguida de um corpo do ex\u00e9rcito austr\u00edaco, e exigiu imediata cess\u00e3o das hostilidades, conformando-se a assembl\u00e9ia do povo com a impossibilidade e a inutilidade de qualquer resist\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Comiss\u00e3o dissolveu-se a 11 de janeiro de 1851, os funcion\u00e1rios entregaram seus postos e o ex\u00e9rcito foi tamb\u00e9m reduzido. Os austr\u00edacos ocuparam Holstein e os dinamarqueses Schleswig com Rendsburg, assinando-se finalmente a 8 de maio de 1852 o protocolo de Londres, prometendo-se uma autonomia aos Ducados, embora integrados na monarquia dinamarquesa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O ultrajante desfecho da subleva\u00e7\u00e3o dos Ducados de Schleswig-Holstein, encarada que foi como um movimento nacionalista alem\u00e3o, causou na Alemanha exaspera\u00e7\u00e3o e vergonha, culpando-se tanto ao rei da Pr\u00fassia, como a falta de uni\u00e3o dos estados germ\u00e2nicos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Via-se com pesar a situa\u00e7\u00e3o em que ficaram os Ducados, considerados rebeldes e destitu\u00eddos de qualquer direito. Finalmente, ap\u00f3s a guerra de 1864, os Ducados livraram-se para sempre da Dinamarca, ficando depois de 20 anos de acontecimentos impetuosos e turbulentos, unidos \u00e0 Pr\u00fassia, aos seus compatriotas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E tudo ficou harmoniosamente selado e esquecidas para sempre as tristes recorda\u00e7\u00f5es do passado, com o casamento do ent\u00e3o pr\u00edncipe Guilherme (o posterior kaiser Guilherme II) com a princesa Vit\u00f3ria, filha de Frederico de Augustenburg, descendente da linha Schleswig-Sonderburg-Augustenburg, fundada no segundo quartel do s\u00e9culo XVII.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando em fins de 1850 as derradeiras arrancadas para a independ\u00eancia dos Ducados de Schleswig-Holstein, encaminhavam-se para a gloriosa derrota, dois movimentos de coloniza\u00e7\u00e3o para o Brasil preparavam-se em Hamburgo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De um lado, com a queda de Lu\u00eds Felipe, rei da Fran\u00e7a, em 1848, um de seus filhos refugiou-se em Hamburgo e lhe veio ent\u00e3o a lembran\u00e7a de explorar e povoar vastas terras do Brasil meridional, as quais, por condi\u00e7\u00f5es estipuladas no contrato de casamento com a princesa dona Francisca Carolina, irm\u00e3 de D. Pedro II, passaram a constituir patrim\u00f4nio dele, Francisco Fernando Lu\u00eds Maria de Orleans, pr\u00edncipe de Joinville.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O pr\u00edncipe de Joinville, com a idade de 25 anos, em fins de 1842, comandando a fragata &#8220;Belle Pole&#8221;, fora mandado<em> <strong>tomar ares<\/strong>,<\/em> pois, seus amores com uma c\u00e9lebre figura do teatro franc\u00eas, preocupavam seus augustos pais. Depois de uma perman\u00eancia de 30 dias em Portugal e mais um velejamento de dois meses pelas costas africanas, a &#8220;Belle Pole&#8221; ancorou no Rio de Janeiro a 27 de mar\u00e7o de 1843, escoltada pelas goletas &#8220;Fine&#8221; e &#8220;Coquette&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O filho de Lu\u00eds Felipe foi recebido no pal\u00e1cio de S\u00e3o Crist\u00f3v\u00e3o por D. Pedro II, que contava menos de 20 anos, e depois de uma conversa\u00e7\u00e3o de um quarto de hora bem animada, apesar da taciturnidade do Imperador, foram visitar as princesas. Dona Janu\u00e1ria estava doente e assim dona Francisca encontrava-se s\u00f3. A visita protocolar, relatou o tenente Touchard, ajudante do pr\u00edncipe de Joinville, transcorreu sem entusiasmo e ambos n\u00e3o se sentiam muito \u00e0 vontade. A princesa pareceu-lhe muito bem, &#8220;cintura notavelmente bem feita e graciosa; nem muito alta nem muito baixa, uma dignidade simples e graciosa no semblante, um bonito porte de cabe\u00e7a. A fronte alta, os olhos grandes e bem rasgados, s\u00e3o cheios de express\u00e3o e vivacidade.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Preestabelecidas ou n\u00e3o, as &#8220;demarches&#8221; para o noivado foram iniciadas, prestando de tudo fiel relato o tenente Touchard e a 4 de abril, quando festejava-se o anivers\u00e1rio natal\u00edcio de dona Maria I, houve jantar e baile em S\u00e3o Crist\u00f3v\u00e3o. As princesas cantaram can\u00e7\u00f5es francesas e o pr\u00edncipe de Joinville dan\u00e7ou apenas com dona Francisca e certamente neste baile foi firmada entre ambos a uni\u00e3o conjugal. A 22 do mesmo m\u00eas foi realmente assinado o contrato de casamento e apenas nove dias mais tarde, celebrava-se na intimidade da Corte o casamento do Alt\u00edssimo e Poderos\u00edssimo pr\u00edncipe de Joinville, com a Alt\u00edssima e Poderos\u00edssima dona Francisca Carolina.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E, ap\u00f3s duas semanas de uma lua de mel no Rio de Janeiro, o pr\u00edncipe de Joinville regressou \u00e0 Fran\u00e7a, acompanhado de sua esposa, &#8220;la belle Chica&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim, sete anos mais tarde, a 1\u00ba de janeiro de 1850, foi firmado um contrato com a Companhia Colonizadora de Hamburgo, recentemente fundada e da qual era presidente o senador hamburgu\u00eas Cristiano Matias Schroeder, muito relacionado em Hamburgo, com o firme prop\u00f3sito de ser concretizada a funda\u00e7\u00e3o de uma col\u00f4nia agr\u00edcola nos im\u00f3veis pertencentes aos jovens pr\u00edncipes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Das 25 l\u00e9guas quadradas do referido patrim\u00f4nio territorial, localizado na Prov\u00edncia de Santa Catarina, entre os rios Pirabeiraba e Itapocu, nas proximidades da ba\u00eda de S\u00e3o Francisco do Sul, pouco menos da ter\u00e7a parte foi concedida \u00e0quela Companhia, que obteve tamb\u00e9m do Governo Imperial v\u00e1rios favores, como o livre desembarque dos imigrantes, das bagagens, dos instrumentos e dos animais destinados \u00e0 lavoura, entre outros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dizem que a doa\u00e7\u00e3o do patrim\u00f4nio foi um verdadeiro <strong><em>presente de grego<\/em>, <\/strong>pois, a regi\u00e3o era inteiramente virgem, encontrando-se apenas alguns moradores na orla mar\u00edtima e no planalto de Campo Alegre. Tudo o mais era mata selvagem, habitada ainda por bugres, que naqueles tempos viviam aos bandos e por v\u00e1rias vezes atacaram e trucidaram as turmas de explora\u00e7\u00e3o e de coloniza\u00e7\u00e3o. A \u00e1rea escolhida em 1844 por L\u00e9once Aub\u00e9, delegado dos Pr\u00edncipes, ap\u00f3s ter percorrido longos trechos da Prov\u00edncia, foi considerada de nenhum valor real, tanto por ser desabitada, como por n\u00e3o existirem meios de transporte. A Coroa achou oportuno o momento para dela se livrar, pois, anteriormente, j\u00e1 fazia vantajosas concess\u00f5es e dava sesmarias gratuitamente a quem tivesse recursos e, sobretudo, vontade de faz\u00ea-la produtiva.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Enquanto a Companhia Colonizadora preparava-se para a execu\u00e7\u00e3o da tarefa, e L\u00e9once Aub\u00e9, tendo regressado a Santa Catarina, foi residir na margem do rio Cachoeira, que banhava a \u00e1rea escolhida para a sede da col\u00f4nia e onde, pelo engenheiro Guenther, foram constru\u00eddos dois ranchos de grandes dimens\u00f5es para o alojamento dos pioneiros que deveriam chegar nos primeiros meses de 1851, Dom Pedro II enviou para Hamburgo o tenente coronel Sebasti\u00e3o do Rego Barros com a miss\u00e3o especial de aliciar soldados alem\u00e3es, bem como adquirir o armamento adequado e o equipamento para a organiza\u00e7\u00e3o de um batalh\u00e3o estrangeiro para participar da guerra contra o ditador Rosas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o eram desvantajosas as condi\u00e7\u00f5es sob as quais os aliciados mercen\u00e1rios se comprometiam prestar servi\u00e7os de guerra no Brasil. A dura\u00e7\u00e3o do servi\u00e7o militar seria de 4 anos, o transporte gr\u00e1tis, al\u00e9m de uma ajuda de custo de <strong><em>25 t\u00e2lers<\/em><\/strong><em>.<\/em> Os vencimentos seriam contados desde o dia do embarque e, ao ser exclu\u00eddo, o legion\u00e1rio recebia um lote de 22,500 bra\u00e7as quadradas ou o transporte para repatriar-se, com um pr\u00eamio em dinheiro. Os legion\u00e1rios ficariam adstritos ao regulamento disciplinar do ex\u00e9rcito prussiano e seriam comandados em l\u00edngua alem\u00e3.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A alicia\u00e7\u00e3o encontrou v\u00e1rios contratempos, pois, ainda se recordava do fracasso das legi\u00f5es estrangeiras idealizadas por D. Pedro I. A oposi\u00e7\u00e3o liberal brasileira combateu o contrato da corte alem\u00e3, feito, ali\u00e1s, de conformidade com a lei 856 de 6 de setembro de 1850. Por sua parte, o governo imperial alegava que os legion\u00e1rios poupariam a vida de outros tantos brasileiros e que conclu\u00eddo o tempo de servi\u00e7o militar, tornar-se-iam os soldados bons colonos, o que seria de inestim\u00e1vel utilidade para o povoamento do pa\u00eds.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se bem que persistisse na Alemanha a avers\u00e3o \u00e0 migra\u00e7\u00e3o para o Brasil, causada pela decep\u00e7\u00e3o dos primeiros imigrantes legion\u00e1rios, e Hamburgo fosse acusada de apoiar, por interesses materiais, o tr\u00e1fico de alem\u00e3es para o estrangeiro, dificultando tudo ainda a sabotagem do emiss\u00e1rio do pr\u00f3prio Rosas e que ainda perdurou em terras brasileiras e durante a guerra, Rego Barros alcan\u00e7ou satisfat\u00f3ria e plenamente o seu objetivo ao cabo de seis meses.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Reduzido o ex\u00e9rcito libertador e constitu\u00eddo que era na maioria de volunt\u00e1rios, ficaram sem meio de vida milhares de jovens, com \u00f3timo treinamento de campanha e esp\u00edrito empreendedor e b\u00e9lico. Por isso n\u00e3o hesitaram em aceitar o oferecimento do governo brasileiro, considerado, ali\u00e1s, um verdadeiro presente ca\u00eddo do c\u00e9u, dada a sua situa\u00e7\u00e3o pessoal, em geral sem perspectiva.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fiel ao compromisso assumido por ocasi\u00e3o da dissolu\u00e7\u00e3o do corpo de volunt\u00e1rios em maio de 1848, Augusto Stellfeld ingressa em 1849 no ex\u00e9rcito regular dos Ducados como suboficial e, possivelmente, com estudos na Academia Militar de Anaburg, \u00e9 promovido a alferes &#8220;<em>portepee&#8221;<\/em> e a tenente a 12 de julho de 1850 em Kiel, &#8220;por ter sido reconhecida a sua aptid\u00e3o e capacidade por todos os seus companheiros.&#8221;<\/p>\n<p style=\"padding-left: 120px; text-align: justify;\"><strong><em>&#8220;Na batalha de Idstedt e no sanguinolento assalto de Friedrichstadt, deu provas de soldado valente e irrepreens\u00edvel, como comandante corajoso e circunspecto; devo especialmente elogiar o seu sangue frio, mesmo no mais ardente combate.&#8221; <\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"padding-left: 120px; text-align: justify;\"><strong><em>&#8220;A estima\u00e7\u00e3o e a afei\u00e7\u00e3o dos seus superiores e camaradas o acompanham na sua despedida deste Ex\u00e9rcito&#8221;.<\/em> <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Reza a f\u00e9 de of\u00edcio de Augusto Stellfeld, passada a 29 de mar\u00e7o de 1851 e assinada pelo major Lettgau, comandante do 6\u00ba batalh\u00e3o de infantaria de Schleswig-Holstein.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A 8 de julho de 1850 j\u00e1 havia recebido a Cruz de Campanha, <strong><em>&#8220;em reconhecimento aos servi\u00e7os prestados aos Ducados na sua luta pelo direito e honra do pa\u00eds.&#8221;<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nestas condi\u00e7\u00f5es, enquanto a maioria dos veteranos preferiu prosseguir a vida como militares, partindo a primeira leva de 270 homens de Hamburgo a 7 de abril de 1851, perfazendo os 10 embarques durante esse ano cerca de 1.800 soldados, que se tornaram c\u00e9lebres pela alcunha <strong><em>&#8220;Brummer&#8221; <\/em><\/strong>(rezing\u00f5es) e muitos mais dos quais realmente permaneceram no Brasil, improf\u00edcua mesmo que fora sua contribui\u00e7\u00e3o b\u00e9lica, uma pequena parte deu prefer\u00eancia \u00e0s pac\u00edficas e buc\u00f3licas vantagens proclamadas pela Companhia colonizadora e povoadora do dom\u00ednio Dona Francisca, a atual centen\u00e1ria e florescente Joinville, fundada a 9 de mar\u00e7o desse ano.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Perdida possivelmente a oportunidade para servir \u00e0 Farm\u00e1cia ou ao ex\u00e9rcito em seus mais elevados graus, ou fossem outras as raz\u00f5es, somente restava a Augusto Stellfeld, j\u00e1 com quase 34 anos, a imigra\u00e7\u00e3o. A resolu\u00e7\u00e3o foi r\u00e1pida e na companhia de 117 tripulantes, entre os quais v\u00e1rios camaradas de lutas e ideais, toma passagem na barca de tr\u00eas mastros <strong><em>&#8220;Emma e Louise&#8221;,<\/em> <\/strong>que zarpa do porto de Hamburgo a 1\u00ba de maio de 1851, rumo ao <em>eldorado <\/em>verde, \u00e0 cidade de Nossa Senhora da Gra\u00e7a do Rio S\u00e3o Francisco Xavier do Sul, na prov\u00edncia de Santa Catarina, integrando a segunda expedi\u00e7\u00e3o colonizadora e povoadora das glebas pertencentes ao pr\u00edncipe de Joinville.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E, ap\u00f3s uma travessia de 72 dias, chegam e pisam definitivamente terras brasileiras. E, depois de terem seguido, durante algumas horas, em canoas o rio Cachoeira acima, extasiando-se frente \u00e0 bravia mata tropical, avistam a 12 de julho de 1851 a florescente col\u00f4nia Dona Francisca, que j\u00e1 possu\u00eda dez casas de pau-a-pique, cobertas de palha, algumas das quais com acomoda\u00e7\u00f5es para vinte fam\u00edlias, constru\u00eddas nas imedia\u00e7\u00f5es do ribeir\u00e3o Matias que, de sussurrante regato de \u00e1guas l\u00edmpidas, passou aos poucos a divisor de quintais e ve\u00edculo natural do despejo da cidade, que ele viu nascer, crescer e prosperar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">S\u00e3o alojados os novos tit\u00e3s em outros vinte ranchos constru\u00eddos a alguns quil\u00f4metros al\u00e9m da sede, pr\u00f3ximo ao rio Motucas, onde ainda hoje se acha Anaburgo, nome que deve recordar a famosa escola de cadetes e de suboficiais da Pr\u00fassia, a qual Augusto Stellfeld e seus camaradas teriam freq\u00fcentado.<\/p>\n<ul style=\"text-align: justify;\">\n<li>&#8220;De in\u00edcio nada havia&#8230; apenas floresta,<\/li>\n<li>a terra que se abria, a terra que se dava&#8230;<\/li>\n<li>Em cada ninho novo &#8211; um c\u00e2ntico de festa<\/li>\n<li>Em cada galho verde &#8211; um bra\u00e7o que acenava!<\/li>\n<li>E pararam olhando&#8230;<\/li>\n<li>De pronto os desnorteia a encena\u00e7\u00e3o da terra&#8230;<\/li>\n<li>N\u00e3o haviam pensado, era tudo t\u00e3o grande!<\/li>\n<li>Quem pudesse saber o que a floresta encerra?<\/li>\n<li>Quem pudesse saber&#8230; Mas l\u00e1 dentro \u00e9 o mist\u00e9rio,<\/li>\n<li>um outro novo mundo,<\/li>\n<li>De m\u00e3es-d\u2019\u00e1gua, Sacis, Caaporas, Bois-Tat\u00e1, de feras, de r\u00e9pteis, de insetos, de pauis&#8230;&#8221;<\/li>\n<li>Assim foi o come\u00e7o. Era uma vez?&#8230;<\/li>\n<li>Qual nada: &#8211; o rancho e, logo ap\u00f3s, a &#8220;tifa&#8221;.<\/li>\n<li>Em toda aquela gente a vontade \u00e9 uma for\u00e7a,<\/li>\n<li>um dilema, talvez.<\/li>\n<\/ul>\n<ul style=\"text-align: justify;\">\n<li>Dia a dia se agita<\/li>\n<li>toda aquela falange her\u00f3ica de Tit\u00e3s&#8230;<\/li>\n<li>Rasga a terra, desbrava, estende mais as ro\u00e7as,<\/li>\n<li>pondo uma nota humana &#8211; uma express\u00e3o bonita,<\/li>\n<li>at\u00e9 ent\u00e3o negada<\/li>\n<li>\u00e0 gl\u00f3ria das manh\u00e3s.<\/li>\n<\/ul>\n<ul style=\"text-align: justify;\">\n<li>Este sorri, olhando o barro que amassou:<\/li>\n<li>vai lhe dar o tijolo, a telha para a casa;<\/li>\n<li>outro falquejava a trave; aquele a porta armou<\/li>\n<li>nos gonzos que trouxera &#8211; a fronte, em febre, abrasa. &#8211;<\/li>\n<\/ul>\n<ul style=\"text-align: justify;\">\n<li>Um outro firma o oit\u00e3o, (n\u00e3o sai um\u2019obra prima<\/li>\n<li>de t\u00e9cnica, mas serve). As paredes em linha<\/li>\n<li>d\u00e3o ao pobre arcabou\u00e7o um qu\u00ea que mais anima.<\/li>\n<li>grito da araponga, imitando o ferreiro ao rebater o malho,<\/li>\n<li>n\u00e3o os assusta mais quando vibra, de chofre,<\/li>\n<li>acordando a manh\u00e3, no sert\u00e3o brasileiro.<\/li>\n<\/ul>\n<ul style=\"text-align: justify;\">\n<li>Curvados, os Tit\u00e3s, os nervos retesados,<\/li>\n<li>sugerem, na postura, estranhos e viris,<\/li>\n<li>uma ra\u00e7a &#8211; cavando outros mundos sonhados<\/li>\n<li>na grandeza feraz destes novos Brasis!<\/li>\n<\/ul>\n<ul style=\"text-align: justify;\">\n<li>E cantam no trabalho. Uma can\u00e7\u00e3o qualquer,<\/li>\n<li>um <strong>lied<\/strong> que relembra os tempos de crian\u00e7a&#8230;<\/li>\n<li>a escola, o lugarejo&#8230; um vulto de mulher<\/li>\n<li>que ficou para tr\u00e1s, mas vive na lembran\u00e7a.&#8221;<\/li>\n<\/ul>\n<p style=\"text-align: justify;\">(Do poema <strong>Os Tit\u00e3s<\/strong>, de J. Batista Crespo in &#8220;Vida Nova&#8221;, n\u00famero comemorativo do 1\u00ba Centen\u00e1rio de Joinville).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Edificada a col\u00f4nia sobre terreno extremamente alagadi\u00e7o, quando o mais acertado seria t\u00e3o pr\u00f3ximo quanto poss\u00edvel de S\u00e3o Francisco, ao menos para impressionar melhor aos colonos, a administra\u00e7\u00e3o tratou logo da drenagem das \u00e1guas; e in\u00f3spito e insalubre que ainda era o porto velho, na atual rua 9 de Mar\u00e7o, muitos se mudaram para Anaburgo, contudo, voltaram novamente para o local escolhido, pr\u00f3ximo ao rio Cachoeira, que na \u00e9poca era a \u00fanica liga\u00e7\u00e3o com o porto de S\u00e3o Francisco.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando a 27 de setembro de 1851 deu fundo no rio S\u00e3o Francisco o brigue dinamarqu\u00eas Gloriosa, procedente de Hamburgo e tendo a bordo mais 78 pessoas, representadas em 11 fam\u00edlias e que constitu\u00edam a terceira leva de colonizadores,<em> <strong>formada de pessoas mui decentes e civilizadas<\/strong><\/em>, o estado da Col\u00f4nia Dona Francisca era o melhor poss\u00edvel, apresentando um aspecto cada vez mais agrad\u00e1vel, n\u00e3o se poupando os colonos a todo e qualquer trabalho, pois, a alguns dos quais outrora serviram em seu pa\u00eds como oficiais militares, n\u00e3o repugna pegar no machado e na foice, para derrubarem as matas e aperfei\u00e7oarem as tr\u00eas grandes picadas que existem abertas em diferentes dire\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 120px;\"><em><strong>&#8220;J\u00e1 ali se celebram preces aos domingos em casa para isso destinada e tem havido casamentos, tudo conforme a religi\u00e3o que professam.&#8221;<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 120px; text-align: justify;\"><em><strong>&#8220;Tamb\u00e9m ali existem dois m\u00e9dicos, dois botic\u00e1rios, dois naturalistas, um inspetor e o diretor da Col\u00f4nia, bem como dois professores, por\u00e9m, estes n\u00e3o t\u00eam aula aberta por falta de casa pr\u00f3pria.&#8221;<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 120px; text-align: justify;\"><strong><em>&#8220;A Col\u00f4nia Dona Francisca<\/em><\/strong><em>, <\/em><em><strong>apresenta-se debaixo dos melhores ausp\u00edcios e, dentro em pouco tempo, estar\u00e1 abundante e produtiva, pois h\u00e1 apenas sete meses de sua funda\u00e7\u00e3o e por isso ainda n\u00e3o fazem grandes colheitas de g\u00eaneros que merecem ser mencionados.&#8221;<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em> <\/em>(Da carta dirigida em 14.10.1851 ao Governo Provincial. Cezario Ant\u00f4nio Mendes era funcion\u00e1rio aduaneiro em S\u00e3o Francisco do Sul. As primeiras culturas agr\u00edcolas foram: cana-de-a\u00e7\u00facar, arroz, mandioca, feij\u00e3o, batata, milho, fumo, caf\u00e9 e algod\u00e3o).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 1852 a sede da Col\u00f4nia passou a denominar-se Joinville, quando j\u00e1 possu\u00eda 12 casas particulares e igual n\u00famero de propriedade da Companhia Colonizadora, destinadas ao alojamento dos colonos. Contava a Col\u00f4nia com 25 quil\u00f4metros de estradas, inclusive 12 em demanda da serra e que constituiriam parte da estrada Dona Francisca, que permitiu mais tarde o afluxo daqueles colonizadores e povoadores para Curitiba, principalmente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De acordo com o contrato celebrado entre o pr\u00edncipe de Joinville e a Companhia Colonizadora, foi a 13 de julho de 1852 estabelecida a comuna da Col\u00f4nia Dona Francisca, harmonizada e submissa \u00e0s leis do Imp\u00e9rio do Brasil, mas que era o poder legislativo. Ela nomeava o Conselho Comunal, composto de 5 membros e 2 suplentes e tinha poder absoluto. O poder arbitral pousava nas m\u00e3os de um Juiz de Paz, o qual teria um substituto at\u00e9 que se tivesse a tradu\u00e7\u00e3o alem\u00e3 da lei fundamental brasileira. Os delitos graves ou crimes eram enviados aos tribunais para julgamento. Compunha-se o tribunal do Juiz de Paz e de 12 colonos e se reunia em dia fixo de cada semana.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cada colono ao atingir a idade de 20 anos era considerado eleitor e, portanto, eleg\u00edvel para qualquer cargo p\u00fablico, que n\u00e3o podia recusar. Eram apenas isentos o m\u00e9dico e o farmac\u00eautico e quem j\u00e1 tivesse exercido fun\u00e7\u00f5es p\u00fablicas durante um ano. N\u00e3o eram, entretanto, eleg\u00edveis, os empregados da Companhia e os do pr\u00edncipe de Joinville.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quais fossem as primeiras ocupa\u00e7\u00f5es de Augusto Stellfeld na Col\u00f4nia Dona Francisca, ainda n\u00e3o sei: se imigrara com o prop\u00f3sito de exercer a farm\u00e1cia e para isso, de acordo ou n\u00e3o com a Companhia, tivesse levado consigo uma pequena oficina farmac\u00eautica, ou se teve mesmo o objetivo de dedicar-se \u00e0 lavoura ou \u00e0s duas atividades ao mesmo tempo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Da rela\u00e7\u00e3o dos 469 imigrantes que no ano de 1851 constitu\u00edram o primeiro <em>&#8220;melting pot&#8221; <\/em>de Joinville, e dos quais 190 eram su\u00ed\u00e7os, 74 noruegueses, 3 suecos e os demais alem\u00e3es, constam os nomes dos seguintes m\u00e9dicos: <strong>W.A.<\/strong> <strong>Guilherme Moeller<\/strong>, chegado com o &#8220;Colon&#8221;, natural da Noruega, com 27 anos, tendo permanecido na Col\u00f4nia apenas um ano, apesar de benquisto. Desejando conhecer o Brasil, foi servir na legi\u00e3o alem\u00e3 no posto de m\u00e9dico-chefe, em Porto Alegre; <strong>Wilhelm Nikolaus Krebs<\/strong>, do Hanover, com 30 anos, bem como os seguintes farmac\u00eauticos, al\u00e9m de Augusto Stellfeld; <strong>S. Carlos Em\u00edlio Boedicker<\/strong>, que veio com a primeira expedi\u00e7\u00e3o de <strong>F. Bernhardt Bemba e J.<\/strong> <strong>Christian Schluemann<\/strong>, vindos com o &#8220;Gloriosa&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 poss\u00edvel que somente o doutor Krebs, chegado com a terceira leva, e Augusto Stellfeld tivessem por mais tempo permanecido em Joinville e exercido suas profiss\u00f5es, pois apenas aos dois \u00e9 feita uma refer\u00eancia <strong><em>&#8220;como o primeiro m\u00e9dico e o primeiro farmac\u00eautico&#8221;.<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">ngg_shortcode_1_placeholder<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Primeira farm\u00e1cia de Augusto Stelffel &#8211; clique para ampliar<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Rodowicz em seu livro pouco conhecido e cuja tradu\u00e7\u00e3o teria sido de grande significa\u00e7\u00e3o para as comemora\u00e7\u00f5es do centen\u00e1rio de Joinville, refere-se tamb\u00e9m ao farmac\u00eautico Boedicker, mas que Augusto Stellfeld era o farmac\u00eautico da Col\u00f4nia, possuidor, por sinal, de uma bem humilde casinha, localizada no lote 72. (Neste lote, atravessado pelo ribeir\u00e3o Mathias, com 1.166 bra\u00e7as quadradas e adquirido em 01\/09\/52, acha-se agora a tipografia Boehm &#8211; rua Visconde de Taunay, antiga dos Alem\u00e3es, esquina da rua Pedro Lobo). Escreveu ainda que Augusto Stellfeld exerceu por algum tempo as fun\u00e7\u00f5es de inspetor das mulheres e crian\u00e7as a servi\u00e7o da ent\u00e3o Sociedade Colonizadora Hamburguesa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A 16 de novembro de 1852, casa-se Augusto Stellfeld com <strong>Carlota Sofia Dorotea Halckmann<\/strong>, filha do propriet\u00e1rio feudal Wilhelm Heinrich Kalckmann que, por quest\u00f5es familiares, imigrou nesse ano para o Brasil, ruma \u00e0 Col\u00f4nia Dona Francisca, onde tamb\u00e9m adquiriu vastas glebas fora da sede. Veio acompanhado de seus filhos maiores, Carlota, J\u00falio, Berta e Ernestina, tendo tido a infelicidade de perder sua esposa, Carlota Guilhermina, falecida a bordo da barca &#8220;Florentin&#8221; no dia 6 de julho de 1852, e lan\u00e7ada ao mar nas proximidades da ilha Madeira, onde, dizem, ultimamente, vozes de <em>al\u00e9m t\u00famulo<\/em>, seu corpo foi naquela \u00e9poca recolhido e piedosamente sepultado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A emancipa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica da 5\u00aa Comarca da Prov\u00edncia de S\u00e3o Paulo foi, sobretudo, uma conseq\u00fc\u00eancia da ambi\u00e7\u00e3o pessoal, segundo os nossos historiadores, desde os primeiros movimentos em 1811, Pedro Joaquim de Castro Correia e S\u00e1, at\u00e9 o desenlace em 1853, quando se concretizaram os esfor\u00e7os e as lutas en\u00e9rgicas para a eleva\u00e7\u00e3o do territ\u00f3rio meridional paulista a uma nova Capitania e depois a uma nov\u00edssima Prov\u00edncia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Embora ambicioso e n\u00e3o pretendesse um s\u00f3 real, caso fosse o criador da nova Capitania, devemos ao terceiro neto de Salvador Correia de S\u00e1 Benevides, a origem, a express\u00e3o e o est\u00edmulo das primeiras manifesta\u00e7\u00f5es do movimento, que havia de triunfar em 1853, bem como o remate final ao tenente coronel da Guarda Nacional Jo\u00e3o da Silva Machado, o posterior bar\u00e3o de Antonina, cuja presen\u00e7a em Curitiba, por ocasi\u00e3o da revolu\u00e7\u00e3o de Sorocaba (1842), lhe inspirou duas resolu\u00e7\u00f5es, que ele levou a cabo com o mais inteiro sucesso: a de apossar-se de latif\u00fandios por todas as partes da Comarca e a de conseguir a eleva\u00e7\u00e3o dela \u00e0 categoria de Prov\u00edncia e fruir os proventos pol\u00edticos que da\u00ed advieram.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Elevada pela Lei 704 de 29 de agosto de 1853, a comarca de Curitiba da Prov\u00edncia de S\u00e3o Paulo \u00e0 categoria de Prov\u00edncia do Paran\u00e1 e tendo por capital a cidade de Curitiba, a instala\u00e7\u00e3o teve lugar no dia 19 de dezembro do mesmo ano, cabendo a honrosa presid\u00eancia da mais nova e \u00faltima Prov\u00edncia do Imp\u00e9rio ao conselheiro Zacarias de G\u00f3es e Vasconcelos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vendo, possivelmente, na nova Prov\u00edncia um campo maior e mais atraente para suas atividades profissionais e sociais, Augusto Stellfeld transfere sua resid\u00eancia e sua farm\u00e1cia para a cidade de Paranagu\u00e1, em data ainda n\u00e3o averiguada e a 1\u00ba de mar\u00e7o de 1854 nasceu nessa cidade o primeiro rebento do casal, Rosa Guilhermina Carlota Patr\u00edcia, cujos padrinhos foram Francisco Pinheiro e Patr\u00edcia Pinheiro, batizada, bem como todos os seus irm\u00e3os, na igreja cat\u00f3lica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Decreto Federal n.\u00ba 598 de 1850, melhorando o servi\u00e7o sanit\u00e1rio da Corte e de outras povoa\u00e7\u00f5es do Imp\u00e9rio, criava a Junta de Higiene com poderes de exercer a pol\u00edcia m\u00e9dica nas visitas de embarca\u00e7\u00f5es, nas boticas, lojas de drogas e em casas onde pudessem provir danos \u00e0 sa\u00fade p\u00fablica e cujo regulamento foi aprovado e mandado executar pelo Decreto n.\u00ba 828 de setembro de 1851.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Da situa\u00e7\u00e3o da medicina e da farm\u00e1cia em Paranagu\u00e1 nessa \u00e9poca pouco se sabe, entretanto, devia ser importante e bem agitada, assim \u00e9 que a 5 de outubro de 1854 o farmac\u00eautico pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, Jos\u00e9 Ferreira Guteris, estabelecido em Paranagu\u00e1, dirigiu uma en\u00e9rgica peti\u00e7\u00e3o \u00e0 C\u00e2mara Municipal local, dizendo<strong>: <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 120px;\"><strong><em>&#8220;que tendo estabelecido uma botica, exerce a arte farmac\u00eautica, mas n\u00e3o pode prescindir de solicitar a prote\u00e7\u00e3o dos dignos vereadores para que a sua profiss\u00e3o n\u00e3o continue a ser exercida sen\u00e3o por indiv\u00edduos que tenham um t\u00edtulo legal; que o fato mais inaudito e que deve ser condenado pela honestidade, \u00e9, sem d\u00favida, aquele que lan\u00e7aram m\u00e3o os indiv\u00edduos que, em Paranagu\u00e1 e contra o artigo 25 do indicado regulamento, exercem a nobre profiss\u00e3o de curar, escrevendo suas receitas em tal linguagem e com abreviaturas tais em ordem a serem as mesmas aviadas por certas e determinadas pessoas.&#8221;<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E, \u00e0 vista do que havia expedido, e n\u00e3o encontrando na Lei de 1850, que criou a Junta de Higiene, nenhum artigo que faculte o exerc\u00edcio da medicina a quem n\u00e3o tiver um t\u00edtulo conferido pelas escolas de Medicina do Brasil, n\u00e3o podia deixar de protestar perante a C\u00e2mara Municipal e perante todas as autoridades da Prov\u00edncia, contra t\u00e3o imprudente charlatanismo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O delegado de pol\u00edcia de Paranagu\u00e1 tamb\u00e9m recebeu uma carta do colega Guteris, que levou ao conhecimento desta autoridade que na cidade de Paranagu\u00e1 existem <strong><em>&#8220;certos indiv\u00edduos que, sem t\u00edtulo legal, exercem a medicina e a farm\u00e1cia&#8221;<\/em>, <\/strong>pedindo em seguida provid\u00eancias para cessar semelhante abuso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O arguto delegado, Manuel Leoc\u00e1dio de Oliveira, c\u00f4nscio de suas atribui\u00e7\u00f5es, escreveu ao presidente e vereadores da C\u00e2mara Municipal que,<\/p>\n<p style=\"padding-left: 120px; text-align: justify;\"><strong><em>&#8220;sendo puramente da atribui\u00e7\u00e3o da C\u00e2mara Municipal providenciar a respeito, \u00e9 de esperar do acurado zelo e patriotismo que distingue a C\u00e2mara Municipal de Paranagu\u00e1, a bem de seus mun\u00edcipes, que ela, tomando aquelas cautelas que a prud\u00eancia de seus dignos membros aconselha neste caso, possa dar as provid\u00eancias que, satisfazendo aos preceitos da lei, satisfa\u00e7a ao mesmo tempo aquele que t\u00e3o alto fala: o das necessidades p\u00fablicas.&#8221;<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ignora-se o ep\u00edlogo desta justa e curiosa campanha e quais as provid\u00eancias tomadas pelo presidente Zacarias de G\u00f3es e Vasconcelos, a quem o colega Guteris tamb\u00e9m dirigiu uma peti\u00e7\u00e3o e que foi em seguida encaminhada \u00e0 C\u00e2mara Municipal de Paranagu\u00e1 para informar, bem como se Augusto Stellfeld foi um dos visados pelo farmac\u00eautico Guteris, pois, de fato, n\u00e3o possu\u00eda ainda um t\u00edtulo legal para exercer a farm\u00e1cia no Brasil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O fato concreto \u00e9 que Augusto Stellfeld, possuidor de um diploma para exercer a farm\u00e1cia em sua terra natal e expedido a 15 de novembro de 1848, vai prestar exame de revalida\u00e7\u00e3o do seu diploma, previsto no Decreto de 1850, na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro e que se realiza no dia 18 de maio de 1855, sem nenhuma discrep\u00e2ncia; s\u00e3o seus examinadores os professores Jo\u00e3o Jos\u00e9 Carvalho, Manoel Maia de Morais e Vale e Ezequiel Corr\u00eaa dos Santos, adquirindo, conseq\u00fcentemente, os direitos para exercer a Farm\u00e1cia em todo o Imp\u00e9rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Regressando a Paranagu\u00e1, nasce a 22 de junho do mesmo ano seu segundo filho, Afonso Ant\u00f4nio, cujos padrinhos s\u00e3o o doutor Ant\u00f4nio Francisco de Azevedo e dona Ana Azevedo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Curitiba, na \u00e9poca de sua eleva\u00e7\u00e3o \u00e0 capital da Prov\u00edncia do Paran\u00e1, era uma insignific\u00e2ncia, que de cidade tinha somente o predicado oficial. Mas, j\u00e1 possu\u00eda quatro igrejas, embora uma delas inacabada e cujos pared\u00f5es enormes e sombrios, no alto do S\u00e3o Francisco, s\u00e3o os \u00faltimos remanescentes da pacata vila de outrora.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Existiam 308 casas e duas escolas prim\u00e1rias, uma para cada sexo e os lampi\u00f5es nas vias p\u00fablicas podiam ser contados. Mas, n\u00e3o havia uma \u00fanica farm\u00e1cia ou botica p\u00fablica e o \u00fanico m\u00e9dico, apenas h\u00e1 algumas semanas chegado, era o benem\u00e9rito doutor Jos\u00e9 C\u00e2ndido da Silva Muricy, natural da Bahia, com servi\u00e7os no corpo fixo da guarni\u00e7\u00e3o militar e que exercia ainda as fun\u00e7\u00f5es de vacinador e manipulador de bolas de estricnina para os c\u00e3es vadios e sem dono.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Seria perfeitamente admiss\u00edvel que com a instala\u00e7\u00e3o da Prov\u00edncia, aflu\u00edssem para sua capital farmac\u00eauticos, m\u00e9dicos e cirurgi\u00f5es dentistas, e iniciassem suas atividades profissionais. Entretanto, os primeiros an\u00fancios no jornal <em>Dezenove de Dezembro<\/em> referem-se a dentistas de passagem por Curitiba e especialistas em<\/p>\n<p style=\"padding-left: 120px; text-align: justify;\"><strong><em>&#8220;chumba\u00e7\u00f5es de ouro e em dentes posti\u00e7os minerais, americanos, incorrupt\u00edveis, presos em chapas de ouro fino, n\u00e3o deixando cheiro algum \u00e0 boca e servem para todos os intentos da fala e da mastiga\u00e7\u00e3o.&#8221;<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong> <\/strong>Outros anunciavam que tamb\u00e9m faziam a barba, cortavam os cabelos e aplicavam ventosas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>&#8220;N\u00e3o havendo botica alguma nesta cidade e sendo doloroso que a pobreza sofra nas suas enfermidades por falta de medicamentos&#8221;<\/em>, <\/strong>o presidente Zacarias de G\u00f3es e Vasconcelos autorizou ao doutor Muricy, n\u00e3o se sabe se tamb\u00e9m era farmac\u00eautico, dar rem\u00e9dio gr\u00e1tis \u00e0queles indiv\u00edduos que para esse fim a ele recorressem e que provassem ser, evidentemente, pobres, porquanto os remediados j\u00e1 eram naquela enfermaria atendidos, sempre, possivelmente, que n\u00e3o pudessem ser conseguidos os medicamentos em Paranagu\u00e1 ou em casos de grande urg\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sob forma de verdadeira pandemia o <strong><em>C\u00f3lera-morbus<\/em><\/strong>, depois de causar milhares de v\u00edtimas pela Europa, chegou ao Brasil no ano de 1855 e a primeira prov\u00edncia a ser atingida foi a do Par\u00e1, admitindo-se, a princ\u00edpio, que fosse algum anda\u00e7o, em conseq\u00fc\u00eancia do tempo e consumo de frutas e carne de m\u00e1 qualidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em vista dos estragos que o c\u00f3lera vinha fazendo no Par\u00e1, o vice-presidente da nossa Prov\u00edncia, Beaurepaire-Rohan, tratou logo de criar em Paranagu\u00e1 uma comiss\u00e3o de Sa\u00fade; preocupou-se com a constru\u00e7\u00e3o de um ou dois lazaretos, com a caia\u00e7\u00e3o das casas, com a limpeza e asseio da cidade, al\u00e9m de outras medidas <strong><em>&#8220;se n\u00e3o para impedir o c\u00f3lera, ao menos para minorar-lhe os danos e acudir a tempo aos que padecem.&#8221; <\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A imprensa curitibana, ali\u00e1s, o <strong><em>Dezenove de Dezembro<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">, tamb\u00e9m pedia vistas para o estado lament\u00e1vel de Curitiba, com suas ruas de lama e rodeada de charcos, <strong><em>&#8220;que se prestam para o desenvolvimento dos miasmas os mais delet\u00e9rios.&#8221; <\/em><\/strong>Convidados os cidad\u00e3os curitibanos a se reunir e consultar sobre os meios de garantir-se contra a invas\u00e3o da terr\u00edvel epidemia, entre outros meios considerados puramente preventivos e aconselhados pela higiene, apresentaram ainda outros, considerados indispens\u00e1veis, como o seguinte: <strong><em> <\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"padding-left: 120px; text-align: justify;\"><strong><em>&#8220;procurar obter, quanto antes, do Governo Geral ou Provincial, uma botica suficientemente sortida de medicamentos s\u00e3os e em quantidade conveniente para poder-se fornec\u00ea-los, n\u00e3o s\u00f3 \u00e0 popula\u00e7\u00e3o em geral, como a do interior, se por infelicidade se tornar isto preciso.&#8221;<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Come\u00e7am na matriz de Curitiba as preces ao Alt\u00edssimo, afim de preservar a popula\u00e7\u00e3o da peste que causava v\u00edtimas no Par\u00e1, na Bahia e na Corte. Ao mesmo tempo e durante longos meses o<em> <strong>Dezenove de Dezembro <\/strong><\/em>anuncia \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o dos fi\u00e9is e dos devotos a<em> <strong>milagrosa estrela do c\u00e9u<\/strong><\/em><strong> <\/strong>contra a peste, bem como a ora\u00e7\u00e3o de Nossa Senhora do Desterro e outras extra\u00eddas dos melhores livros de piedade, e pr\u00f3prias para implorar a miseric\u00f3rdia de Deus no tempo da peste.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O doutor Muricy, enviando um relat\u00f3rio ao Governo Provincial e indicando os meios para a preven\u00e7\u00e3o da epidemia, pediu a vinda de seis m\u00e9dicos e dois farmac\u00eauticos, pois, havia lugares populosos onde n\u00e3o havia ao menos um <strong><em>curandeiro<\/em><\/strong>.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 120px; text-align: justify;\"><strong><em>&#8220;E, porque de nada serviria a presen\u00e7a desses doutores \u00e0 vista da falta absoluta de rem\u00e9dios pr\u00f3prios para combater o c\u00f3lera, maxim\u00e9 serra acima, onde n\u00e3o h\u00e1 uma s\u00f3 botica&#8221;.<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esperava que tamb\u00e9m fosse solicitada a remessa de medicamentos que deixava de enumerar por deles se ter pleno conhecimento no Rio de Janeiro, e tamb\u00e9m os utens\u00edlios pr\u00f3prios para o preparo, n\u00e3o esquecendo outros para os casos ordin\u00e1rios.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As provid\u00eancias do Governo Provincial prosseguiam com efici\u00eancia e entusiasmo e as not\u00edcias vindas do Rio de Janeiro eram cada vez mais animadoras. O <strong><em>Dezenove de Dezembro<\/em> <\/strong>j\u00e1 anunciava a distribui\u00e7\u00e3o gratuita das <em>estrelas milagrosas <\/em>e no relat\u00f3rio apresentado a 7 de janeiro de 1857 \u00e0 Assembl\u00e9ia Provincial, o presidente Vaz Carvalhaes externou as seguintes id\u00e9ias no cap\u00edtulo <strong><em>Salubridade P\u00fablica.<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"padding-left: 120px; text-align: justify;\"><strong><em>&#8220;O conceito de geralmente salubre, de que goza esta Prov\u00edncia, quando n\u00e3o possa ser refor\u00e7ada pelo recente fato de n\u00e3o ter sido acometida pelo c\u00f3lera, tem incontrast\u00e1vel documento na falta quase absoluta de m\u00e9dicos e boticas nos distritos de serra acima. Os habitantes da capital quando atacados de mol\u00e9stia grave, superior \u00e0 capacidade dos experientes, t\u00eam por \u00fanico rem\u00e9dio o m\u00e9dico do corpo de guarni\u00e7\u00e3o fixa e os medicamentos do hospital militar. Os das povoa\u00e7\u00f5es do centro nem esse recurso possuem, arranjam-se como podem, e nem por isso a mortalidade ressente-se de semelhante falta.&#8221;<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"padding-left: 120px; text-align: justify;\"><strong><em>&#8220;Dir-se-\u00e1, senhores, que n\u00e3o \u00e9 a escassez das mol\u00e9stias, mas \u00e0 insignific\u00e2ncia das povoa\u00e7\u00f5es, que n\u00e3o suporta ainda a perman\u00eancia de m\u00e9dicos e farmac\u00eauticos, \u00e9 devido um tal fen\u00f4meno, mas dado mesmo, o que contesto, que o aumento procede em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s vilas do interior, n\u00e3o explica ela a mesma falta que se nota na capital. O certo \u00e9 que os m\u00e9dicos que por aqui aparecem n\u00e3o param, mudam logo de profiss\u00e3o, sem que se possa achar para isso outro motivo al\u00e9m da maravilhosa salubridade do clima.&#8221;<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"padding-left: 120px; text-align: justify;\"><strong><em>&#8220;Terminarei este cap\u00edtulo, Senhores, informando-vos que aproveitei a casual passagem por esta capital do m\u00e9dico franc\u00eas Evaristo Gautier, a quem a salubridade do clima j\u00e1 tinha transformado em negociante de tropas, para ajustar com ele o estabelecimento de uma botica bem sortida na capital, assegurando-lhe o fornecimento dos medicamentos precisos \u00e0s enfermarias sustentadas com o dinheiro p\u00fablico.&#8221;<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fosse para estender suas atividades profissionais, ou vendo que o campo em Paranagu\u00e1 se tornava cada vez mais limitado e qui\u00e7\u00e1 mesmo hostil, ou ainda para atender a um pedido do presidente da Prov\u00edncia ou ainda, a um apelo do doutro Muricy, a quem mais tarde se ligava por s\u00f3lidas rela\u00e7\u00f5es de amizade e de parentesco, Augusto Stellfeld transfere sua resid\u00eancia para Curitiba, publicando no <em>Dezenove de Dezembro<\/em> do dia 8 de abril de 1857 o seguinte an\u00fancio:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 120px; text-align: justify;\"><strong>&#8220;<em>Augusto Stellfeld, botic\u00e1rio formado na Alemanha e aprovado pela Academia do Rio de Janeiro, participa ao respeit\u00e1vel p\u00fablico que se acha estabelecido nesta capital com botica completamente sortida, e residindo provisoriamente no hospital da Santa Casa de Miseric\u00f3rdia.&#8221;<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"padding-left: 120px; text-align: justify;\"><strong><em>&#8220;O anunciante declara que brevemente passar\u00e1 o seu estabelecimento para a rua Direita, casa do senhor Miguel Miller.&#8221;<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Conquanto o <strong><em>Dezenove de Dezembro<\/em> <\/strong>n\u00e3o tivesse dado maior import\u00e2ncia \u00e0 instala\u00e7\u00e3o de uma botica em Curitiba, t\u00e3o seguidamente reclamada, o senhor Presidente da Prov\u00edncia no expediente do dia 31 de mar\u00e7o de 1857, enviou o seguinte of\u00edcio ao tenente coronel comandante do corpo fixo:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 120px; text-align: justify;\"><strong><em>&#8220;Tendo-se ultimamente estabelecido nesta capital uma botica, onde podem suprir os que carecem de medicamentos, fica cassada a autoriza\u00e7\u00e3o que tinha o m\u00e9dico desse corpo para poder vender para fora do quartel drogas e rem\u00e9dios preparados na botica do mesmo Corpo. O que lhe comunico para sua intelig\u00eancia e execu\u00e7\u00e3o.&#8221;<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A data 7 de abril, comemorada pela primeira vez em 1907, por ocasi\u00e3o do cinq\u00fcenten\u00e1rio da ent\u00e3o farm\u00e1cia Alem\u00e3, foi fixada, ao que parece, posteriormente, pois, no mais antigo livro que a firma possui, iniciado em Paranagu\u00e1 a 1\u00ba de mar\u00e7o de 1856, n\u00e3o se nota uma refer\u00eancia ao dia 7 de abril de 1857, que \u00e9 apenas uma seq\u00fc\u00eancia dos anteriores. Nesse mesmo livro o \u00faltimo registro em Paranagu\u00e1 foi a 12 de mar\u00e7o de 1857 e o prosseguimento, j\u00e1 em Curitiba, a 23 de mar\u00e7o, tendo assim dado motivos ao aviso presidencial de 31 do mesmo m\u00eas e acima referido. No relat\u00f3rio apresentado pelo 2\u00ba vice-presidente da Prov\u00edncia do Paran\u00e1, Jos\u00e9 Ant\u00f4nio Vaz de Carvalhaes, sobre o estado da administra\u00e7\u00e3o da Prov\u00edncia no ano de 1857, foi dito que &#8220;os recursos m\u00e9dicos desta cidade aumentaram-se este ano, com o estabelecimento de uma botica completamente sortida, dirigida pelo farmac\u00eautico Augusto Stellfeld.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como e porque Augusto Stellfeld inicia suas atividades profissionais na primitiva Santa Casa de Miseric\u00f3rdia, situada na rua dos Alem\u00e3es (a atual 13 de Maio), esquina da rua do Louro (atual Serro Azul), n\u00e3o sei, bem como os pormenores das mudan\u00e7as, at\u00e9 a derradeira para o Largo da Matriz, a atual pra\u00e7a Tiradentes, em fevereiro de 1866. Mas desde que chega em Curitiba e onde a 17 de abril de 1857 nasce seu primeiro var\u00e3o curitibano, Bruno Guilherme, e como se aqui residisse h\u00e1 longos anos e conhecesse perfeitamente seus habitantes e seus costumes, interessa-se de corpo e alma pela comunidade, tornando-se um cidad\u00e3o prestimoso, acatado e benquisto.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">ngg_shortcode_2_placeholder<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Farm\u00e1cia Stelffeld na Pra\u00e7a Tiradentes. O pr\u00e9dio existe at\u00e9 hoje &#8211; clique para ampliar<\/p>\n<div class=\"imgwrapper\" style=\"width: 320px; text-align: center; margin: 5px auto;\"><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter\" style=\"display: block; text-align: center; cursor: pointer;\" onclick=\"window.open('https:\/\/lh5.googleusercontent.com\/-I3us8kBEhSU\/UZfYaIXEhZI\/AAAAAAAAAG0\/BfDKatpJGLk\/w800-h600-no\/1294443873447', 'pop', 'toolbar=0, location=0, directories=0, status=0, menubar=0, scrollbars=0, copyhistory=0, resizable=1, width=820, height=625, left=0, top=0'); if((navigator.appName=='Microsoft Internet Explorer' &amp;&amp; navigator.appVersion.substring(0,3)=='4.0')==false) pop.focus();\" alt=\"O pr\u00e9dio da Farm\u00e1cia Stelffeld atualmente\" src=\" https:\/\/lh5.googleusercontent.com\/-I3us8kBEhSU\/UZfYaIXEhZI\/AAAAAAAAAG0\/BfDKatpJGLk\/w800-h600-no\/1294443873447\" width=\"320\" \/>O pr\u00e9dio da Farm\u00e1cia Stelffeld atualmente<\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tamb\u00e9m no Brasil os poderosos eram enterrados no sil\u00eancio das igrejas, em catacumbas de parede ou ao rez do ch\u00e3o, e como as igrejas nem sempre comportavam grande n\u00famero de corpos, aqueles lugares ficaram reservados aos mais chegados ao clero ou \u00e0s dinastias, contentando-se os demais em ser inumados nas proximidades dos templos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aqui, em Curitiba, tamb\u00e9m era assim. No tempo da velha matriz os defuntos eram sepultados nas suas adjac\u00eancias, bem como no interior das igrejas do Ros\u00e1rio e de S\u00e3o Francisco das Chagas. Contudo, com a chegada do presidente Zacarias de G\u00f3es e Vasconcelos, a constru\u00e7\u00e3o de um cemit\u00e9rio cat\u00f3lico, j\u00e1 cogitada em 1834, foi um dos seus primeiros atos. Embora iniciada em dezembro de 1854, somente foi conclu\u00edda em janeiro de 1866.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No dia 20 de agosto de 1857 faleceu em Curitiba o cidad\u00e3o hamburgu\u00eas Frederico Prohmann, imigrado tamb\u00e9m de Joinville, mas, protestante que era, n\u00e3o p\u00f4de ser enterrado no cemit\u00e9rio cat\u00f3lico, salvo extra-muros, com o que n\u00e3o concordaram seus parentes e amigos. O enterramento foi feito em uma das amenas eleva\u00e7\u00f5es da cidade, em pleno campo e em seguida foi dirigida uma peti\u00e7\u00e3o \u00e0 municipalidade, solicitando aquela \u00e1rea para o descanso eterno dos protestantes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Obtido o terreno, foi constitu\u00eddo o <strong><em>&#8220;Friedhofsverein&#8221;<\/em><\/strong> e como sinal de gratid\u00e3o aos servi\u00e7os que Augusto Stellfeld prestou para a efetiva\u00e7\u00e3o da doa\u00e7\u00e3o do terreno, o presidente e demais diretores da sociedade do cemit\u00e9rio, em manuscrito data do de 17 de agosto de 1862, concederam-lhe, gratuitamente, uma \u00e1rea designada sob n\u00famero 1 na planta, para jazigo de sua fam\u00edlia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por ocasi\u00e3o da guerra do Paraguai, enquanto os mo\u00e7os e os que tinham o esp\u00edrito b\u00e9lico apresentaram-se como volunt\u00e1rios e seguiram para os campos de batalha e l\u00e1 prestaram seus servi\u00e7os e deram o seu sangue e a sua vida, outros ofereceram ao governo seus pr\u00e9stimos, assim para o policiamento da cidade, desde que grande parte da companhia da for\u00e7a policial tamb\u00e9m havia seguido para a luta, incorporada aos volunt\u00e1rios da p\u00e1tria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Augusto Stellfeld \u00e9 nomeado sargento-quartel mestre do 1\u00ba batalh\u00e3o de reserva da Guarda Nacional a 22 de fevereiro de 1865 (fun\u00e7\u00e3o administrativa) e 12 dias antes havia enviado o seguinte of\u00edcio ao ent\u00e3o presidente da Prov\u00edncia, doutor Jos\u00e9 de P\u00e1dua Fleury:<em> <strong> <\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 120px; text-align: justify;\"><em><strong>&#8220;Como filho adotivo do Brasil, julgo do meu dever contribuir conforme as minhas posses para o bom \u00eaxito desta guerra e castigo a um inimigo insolente e traidor, e para vingar a honra nacional ofendida. Venho, pois, oferecer o fornecimento gratuito durante a guerra atual \u00e0s fam\u00edlias dos volunt\u00e1rios, soldados deste distrito, os medicamentos precisos, como tamb\u00e9m para aviar gratuitamente as receitas na enfermaria militar desta guarni\u00e7\u00e3o.&#8221;<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Este gesto, este desprendimento, esta prova de amor ao Brasil, foi esquecido poucos meses mais tarde pelo redator do <strong><em>Dezenove de Dezembro<\/em> <\/strong>que, em data de 25 de outubro de 1865, sob o t\u00edtulo <strong><em>&#8220;Antes tarde do que nunca&#8221;<\/em>, <\/strong>escreveu:<strong> <em> <\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"padding-left: 120px; text-align: justify;\"><strong><em>&#8220;Consta-nos por pessoa fidedigna que vamos ter a felicidade de em breve possuir nesta capital um farmac\u00eautico h\u00e1bil e inteligente brasileiro. Benvindo seja o senhor tenente Joaquim Antonio Pereira Alves e ansioso esperamos a sua chegada, pois, s\u00f3 assim mais livres estaremos da sujei\u00e7\u00e3o de um s\u00f3 competidor, havendo, como esperamos, o concurso do senhor Pereira Alves.&#8221;<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Apenas 20 anos mais tarde, Joaquim Pereira Alves, depois de cerca de 30 anos de exerc\u00edcio da profiss\u00e3o em Paranagu\u00e1, instala a farm\u00e1cia Pereira<em> <\/em>Alves no Largo do Mercado, n.\u00ba 30, contrastando o seu an\u00fancio circunspecto com ofertas espalhafatosas de milagrosos depurativos, estimulantes, anti-pe\u00e7onhentos, \u00f3leo animal, extra\u00eddo da banha de rins de carneiros das montanhas Rochosas dos Estados Unidos, espec\u00edfico para a cura do garrotilho, \u00e0 venda em&#8230; diversos armaz\u00e9ns de secos e molhados e quinquilharias de Curitiba.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o se lembrava mais aquele redator, especializado em <strong><em>morfinas<\/em><\/strong>, do nobre e altru\u00edstico gesto de Augusto Stellfeld que, al\u00e9m de tudo, era h\u00e1bil e inteligente e t\u00e3o bom brasileiro como quem mais sua origem lusa e ufania pela cidadania brasileira quisesse real\u00e7ar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o se recordava mais da not\u00edcia que em 12 de outubro de 1864 havia publicado, quando se originou no com\u00e9rcio paranaense um verdadeiro p\u00e2nico devido \u00e0 not\u00edcia que a moeda de prata chamada<em> <strong>&#8220;boliviano<\/strong><\/em><strong>&#8221; <\/strong>e que corria em profus\u00e3o em virtude da nossa exporta\u00e7\u00e3o de erva-mate para o Rio da Prata, quando n\u00e3o era falsa, n\u00e3o tinha o peso legal, e assim era recusada na cidade. Confiado pelo presidente da Prov\u00edncia o caso \u00e0 compet\u00eancia de Augusto Stellfeld, ele, depois de analisar a moeda, apresentou o seu laudo, declarando que cada boliviano tinha 172 gr\u00e3os de prata e 80 gr\u00e3os de liga, que seu peso era exato, n\u00e3o tendo encontrado uma \u00fanica moeda falsa, o que foi suficiente para tranq\u00fcilizar o com\u00e9rcio e reabilitar a moeda.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E, enquanto Augusto Stellfeld e comerciantes curitibanos declaravam pelo referido peri\u00f3dico que aceitavam o <strong><em>boliviano <\/em><\/strong>em suas transa\u00e7\u00f5es com o povo pelo pre\u00e7o corrente de 800 r\u00e9is, o pr\u00f3prio<strong><em> Dezenove de Dezembro<\/em><\/strong>, talvez apocrifamente, anunciava a compra da mesma moeda de prata por 550 r\u00e9is!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o se recordava mais o <strong><em>Dezenove de Dezembro<\/em> <\/strong>que em 1863, quando a quest\u00e3o <strong>Christie <\/strong>tocou intimamente nos brios e patriotismo dos brasileiros e quando foi aberta a subscri\u00e7\u00e3o nacional para auxiliar a despesa de seguran\u00e7a do Imp\u00e9rio e aplicada a aqui arrecadada, para a fortifica\u00e7\u00e3o dos nossos portos, Augusto Stellfeld foi um dos subscritores. N\u00e3o assinou, na verdade, uma import\u00e2ncia igual ou maior \u00e0 ofertada pelo presidente da Prov\u00edncia, seus auxiliares de alta categoria, pelos ricos da capital e do interior, mas tamb\u00e9m n\u00e3o foi inferior \u00e0 subscrita pelo jornalista!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E, n\u00e3o se recordava mais que, decorrido apenas um ano da abertura da botica Alem\u00e3, publicava o <strong><em>Dezenove de Dezembro<\/em> <\/strong>(17.04.1858) uma not\u00edcia que Augusto Stellfeld havia lido no seren\u00edssimo e enciclop\u00e9dico <strong><em>Jornal do Com\u00e9rcio<\/em> <em>do Rio de Janeiro <\/em><\/strong>de 25 de mar\u00e7o e por sua vez transcrita sem coment\u00e1rios do <strong><em>Correio de Minas<\/em><\/strong>, que anunciava o aparecimento da famigerada<strong> <em>gitiranaboia<\/em>: <\/strong><\/p>\n<p style=\"padding-left: 120px; text-align: justify;\"><strong><em>&#8220;este perigos\u00edssimo inseto, que cont\u00e9m em si o veneno mais sutil e que mata, irremediavelmente, em poucas horas o indiv\u00edduo que tem a infelicidade de por ele ser ferido; por debaixo do peito existe a mort\u00edfera arma como vulgarmente se diz, um ferr\u00e3o de meia polegada de comprimento e grossura de agulha entrefina. Se este inseto chega a tocar qualquer parte do corpo em que possa injetar o seu veneno, a morte \u00e9 a conseq\u00fc\u00eancia infal\u00edvel.&#8221;<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esclarece, em seguida, Augusto Stellfeld que o inseto \u00e9 inocente, que a chamada arma mort\u00edfera ou ferr\u00e3o \u00e9 a tromba com que costuma chupar as subst\u00e2ncias l\u00edquidas das flores e, portanto, n\u00e3o cont\u00e9m veneno algum; que tem dois exemplares de <strong><em>gitiranaboia<\/em> <\/strong>em sua cole\u00e7\u00e3o, um trazido de Santa Catarina e outro capturado aqui no Assungui e que ter\u00e1 muito prazer em mostrar em sua casa o interessant\u00edssimo e inocente inseto, que causou tanto espanto aos habitantes de Minas Gerais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Imagine-se o pavor e o desconhecimento absoluto desse fant\u00e1stico inseto cem anos atr\u00e1s, se ainda agora, C\u00e2ndido de Figueiredo em seu <em>Novo Dicion\u00e1rio<\/em> <em>da L\u00edngua Portuguesa<\/em> (4\u00aa edi\u00e7\u00e3o) diz que:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 120px; text-align: justify;\"><strong><em>&#8220;jequiranaboia \u00e9 uma esp\u00e9cie de cigarra, de cabe\u00e7a grande e cuja picada \u00e9 fatal aos homens e \u00e0s plantas!&#8221;<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A 30 de janeiro de 1880, na qualidade de suplente, entra em exerc\u00edcio do cargo de subdelegado de pol\u00edcia do distrito norte de Curitiba.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A 21 de maio do mesmo ano chegam a Curitiba D. Pedro II e Dona Tereza Cristina, acompanhados de dignit\u00e1rios da Corte e elementos representativos do governo. Al\u00e9m de satisfazer seu antigo desejo de visitar a capital da Prov\u00edncia, para cuja instala\u00e7\u00e3o tanto havia se interessado, D. Pedro viera assistir \u00e0 inaugura\u00e7\u00e3o do hospital da Santa Casa de Miseric\u00f3rdia e aos servi\u00e7os da estrada de ferro Paranagu\u00e1-Curitiba, com o lan\u00e7amento oficial do marco zero na cidade marinha.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Augusto Stellfeld, j\u00e1 capit\u00e3o da guarda nacional, faz parte da comiss\u00e3o organizadora do programa de recep\u00e7\u00e3o e tamb\u00e9m da comiss\u00e3o de organiza\u00e7\u00e3o dos batalh\u00f5es e do pr\u00e9stito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como prova de reconhecimento p\u00fablico aos relevantes servi\u00e7os prestados ao Brasil, D. Pedro II confere a Augusto Stellfeld a comenda da Ordem da Rosa, no grau de Cavaleiro e cujo diploma \u00e9 passado no Rio de Janeiro a 4 de setembro de 1880.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em julho de 1882 concorre \u00e0s elei\u00e7\u00f5es para vereadores da C\u00e2mara Municipal de Curitiba, conseguindo o primeiro lugar e com apenas 25 votos, dados pelos remanescentes daqueles homens de <strong><em>s\u00e3 consci\u00eancia<\/em><\/strong>. Foram seus companheiros o doutor Trajano Reis, Joaquim Ventura Torres, Joaquim Jos\u00e9 Belarmino de Bittencourt, Matias Taborda, Isaias Augusto de Andrade, entre outros. Agradece pela imprensa e promete empregar todos os esfor\u00e7os para corresponder \u00e0 confian\u00e7a que, t\u00e3o generosamente, nele depositaram os eleitores.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 1885, o doutor Bras\u00edlio Machado, presidente da Prov\u00edncia do Paran\u00e1, antecipando-se ao pr\u00f3prio governo real e as demais Prov\u00edncias do Imp\u00e9rio, p\u00f5e em execu\u00e7\u00e3o o ato de 3 de dezembro de 1883 do presidente Oliveira Bello, criando o ensino obrigat\u00f3rio. Lutou com dificuldade o Presidente e seus auxiliares na realiza\u00e7\u00e3o da nobre tarefa, pois, a popula\u00e7\u00e3o prolet\u00e1ria, principalmente, furtava-se a dar os meios necess\u00e1rios para o arrolamento escolar; uns pais pensavam que se procedia por este sistema a um recrutamento para a marinha; outros que se procurava desta forma fazer cobran\u00e7a de algum imposto novo e outros, finalmente, diz o <em>Dezenove de Dezembro <\/em>de 22.04.1885, procediam com maquiavelismo, aproveitando as crian\u00e7as em trabalhos dom\u00e9sticos, muito embora com preju\u00edzos da instru\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O periodista afirma com entusiasmo que os resultados da campanha j\u00e1 s\u00e3o observados e chega mesmo a comparar a efici\u00eancia do ensino no Paran\u00e1 com o dos Estados Unidos da Am\u00e9rica do Norte, onde, apesar do seu progresso, o setor do ensino prim\u00e1rio ainda apresenta suas defici\u00eancias. Faz uma exorta\u00e7\u00e3o aos pais, no sentido de poderem proclamar at\u00e9 o fim do ano que todos seus filhos, de 07 a 14 anos, sabem ler, pelo menos o primeiro livro de leitura, dada a excel\u00eancia do novo m\u00e9todo de ensino.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 publicado um recenseamento das escolas p\u00fablicas de Curitiba, em n\u00famero de 20, inclusive particulares e que constitu\u00edam a maioria, acusando um total de 1.136 alunos, al\u00e9m de 81 que freq\u00fcentavam as aulas noturnas e dos quais 23 eram adultos. Havia, ainda, alunos do Instituto Paranaense e das escolas dos corpos, todos maiores.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Havia um chefe da Superintend\u00eancia do Ensino Obrigat\u00f3rio. Augusto Stellfeld exerce as fun\u00e7\u00f5es de superintendente do 1\u00ba distrito de Curitiba e na visita que faz \u00e0 escola Alem\u00e3, constata a matr\u00edcula de 141 alunos, mais do dobro do Col\u00e9gio Curitibano e do Partenon, que eram os mais acreditados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mais tarde, o presidente Taunay relegando para um segundo plano o ensino obrigat\u00f3rio, considera de m\u00e1ximo interesse e mesmo vital para todo o Brasil a imigra\u00e7\u00e3o europ\u00e9ia, que aqui no Paran\u00e1 fora t\u00e3o bem iniciada pelo presidente Lamenha Lins. E, imbu\u00eddo destes prop\u00f3sitos, o autor da epop\u00e9ia da Laguna cria v\u00e1rias sociedades de imigra\u00e7\u00e3o, tanto no capital como no interior, e determina que nos pap\u00e9is e correspond\u00eancia oficiais, seja substitu\u00edda a denomina\u00e7\u00e3o <em>colono<\/em> pelo voc\u00e1bulo <strong><em>imigrante<\/em> , <em>muito mais expressivo e de maior<\/em> <em>exatid\u00e3o cient\u00edfica<\/em>, <\/strong>o que deu motivos a mais uma cr\u00edtica ao seu governo pelo \u00f3rg\u00e3o do partido liberal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A 6 de outubro de 1885 funda-se, em Curitiba, a filial da &#8220;Sociedade Colonial de Berlim&#8221;, recentemente fundada e que tinha por objetivo procurar estreitar as rela\u00e7\u00f5es da Alemanha com as col\u00f4nias e imigrantes alem\u00e3es em toda a parte do globo. Estava a Sociedade vivamente interessada pela imigra\u00e7\u00e3o das prov\u00edncias meridionais do Brasil, procurando para isso conquistar rela\u00e7\u00f5es comerciais e promover a imigra\u00e7\u00e3o para os nossos portos por meio de linhas diretas de vapores, comprando, ainda, terras para seus compatriotas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A reuni\u00e3o no Grande Hotel \u00e9 presidida por Augusto Stellfeld e honrada com a presen\u00e7a do presidente Taunay, ali\u00e1s, aclamado naquela noite presidente honor\u00e1rio da filial da Sociedade Colonial de Berlim, por unanimidade, em sinal de gratid\u00e3o e estima consagradas<strong> <em>&#8220;ao grande ap\u00f3stolo da imigra\u00e7\u00e3o.&#8221;<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aprovados os estatutos e eleita a primeira diretoria, Augusto Stellfeld integra o grupo de cinco conselheiros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na sess\u00e3o da C\u00e2mara Municipal de 7 de janeiro de 1886, Augusto Stellfeld \u00e9 eleito vice-presidente, ocupando, por\u00e9m, imediatamente, a presid\u00eancia at\u00e9 o fim do seu mandato.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A atual pra\u00e7a Tiradentes, onde a 29 de mar\u00e7o de 1693 reuniram-se os povoadores da par\u00f3quia de Nossa Senhora da Luz e Bom Jesus dos Pinhais de Curitiba, e aclamaram seis homens de <strong><em>s\u00e3 consci\u00eancia<\/em>, <\/strong>para que estes constitu\u00edssem as autoridades da administra\u00e7\u00e3o e da justi\u00e7a e, conseq\u00fcentemente, ficasse instalada a vila de Curitiba, at\u00e9 fins do s\u00e9culo XIX n\u00e3o passava de um largo deserto, &#8220;um imundo potreiro de animais, que por abuso inqualific\u00e1vel dos propriet\u00e1rios ali pastavam de noite e at\u00e9 de dia.&#8221; (Relat\u00f3rio do presidente Taunay).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Gra\u00e7as aos pr\u00e9stimos do coronel Pereira Gomes, comandante do 3\u00ba regimento de artilharia de campanha, a pra\u00e7a em pouco tempo foi radicalmente remodelada e ajardinada, com os passeios diagonais e em cruz. E, por ocasi\u00e3o da inaugura\u00e7\u00e3o, assistida, entre outros, pelo ent\u00e3o acad\u00eamico de medicina Vitor Ferreira do Amaral e que nos contou o epis\u00f3dio a seguir, Augusto Stellfeld, na qualidade de presidente da C\u00e2mara, exaltando em breves palavras o empreendimento p\u00fablico, em nome dela, faz a entrega da quantia de um conto de r\u00e9is (mil reais, em moeda atual) aos soldados que haviam participado das obras.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Do mesmo modo, o extenso charco em que se espraiava o rio Bel\u00e9m, merece a aten\u00e7\u00e3o dos governos provincial e municipal, formando-se, como por um encanto, o bel\u00edssimo Passeio P\u00fablico e que realmente se tornou, como prognosticava o <strong><em>Dezenove de Dezembro<\/em><\/strong>, um dos mais apreciados e procurados locais de recreio desta cidade e para o futuro motivo de justa ufania. Foi um dos principais <strong><em>&#8220;motores da transforma\u00e7\u00e3o<\/em>&#8220;<\/strong>, o senhor Francisco Face Fontana, nomeado depois seu diretor. Augusto Stellfeld faz tamb\u00e9m uma r\u00e1pida alocu\u00e7\u00e3o ao ato, entregando \u00e0 cidade o pitoresco logradouro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em maio de 1886 realizar-se-ia a Exposi\u00e7\u00e3o Sul Americana de Berlim, e Augusto Stellfeld faz parte da comiss\u00e3o nomeada para constituir-se centro receptor de todos os produtos da Prov\u00edncia e destinados \u00e0quela exposi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A 7 de janeiro de 1887, quando prestaram juramento e tomaram posse os novos vereadores da C\u00e2mara Municipal de Curitiba, Augusto Stellfeld l\u00ea o relat\u00f3rio da sua administra\u00e7\u00e3o, dizendo<strong> <em>&#8220;que nas circunst\u00e2ncias prec\u00e1rias em que se achavam os cofres da C\u00e2mara, devido a opera\u00e7\u00f5es dos anos anteriores, que comprometeram as suas rendas por muitos anos, n\u00e3o p\u00f4de a C\u00e2mara nos \u00faltimos tempos e sob a administra\u00e7\u00e3o atual, empreender obras de vulto, entretanto n\u00e3o fora inativa.&#8221;<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Enumera os principais problemas da sua gest\u00e3o, como a quest\u00e3o da d\u00edvidas, que passavam de 200:00$000 (duzentos contos de r\u00e9is); embora na administra\u00e7\u00e3o anterior fosse amortizada apenas a quantia de 300 mil r\u00e9is, no seu mandato foi poss\u00edvel sortear ap\u00f3lices no valor de Rs. 7:700$000 (sete contos e setecentos mil r\u00e9is), al\u00e9m do pagamento de juros da d\u00edvida consolidada, no valor de Rs. 11:239$000 (onze contos, duzentos e trinta e nove mil r\u00e9is).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 preciso ponderar que s\u00f3 a amortiza\u00e7\u00e3o das ap\u00f3lices representava uma grande parte da arrecada\u00e7\u00e3o anual da C\u00e2mara Municipal e que naquele tempo a edilidade ocupava uma das salas da cadeia nova,<strong> <em>&#8220;pr\u00e9dio de propor\u00e7\u00f5es acanhadas e de p\u00e9ssima constru\u00e7\u00e3o&#8221;, e obrigada ainda a pagar ao tesouro provincial o alto aluguel de 100$000 mensalmente.&#8221;<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Merecem refer\u00eancias no relat\u00f3rio a necessidade de um novo cemit\u00e9rio, apesar do excelente estado sanit\u00e1rio do munic\u00edpio, onde n\u00e3o apareceram certas enfermidades que continuavam a reinar na capital; o abastecimento de \u00e1gua pot\u00e1vel, a limpeza p\u00fablica, a ilumina\u00e7\u00e3o da cidade, que devia ser a g\u00e1s e n\u00e3o el\u00e9trica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na opini\u00e3o da comiss\u00e3o relatora da Assembl\u00e9ia Provincial:<strong> <\/strong><\/p>\n<p style=\"padding-left: 120px; text-align: justify;\"><strong><em>&#8220;o sistema de ilumina\u00e7\u00e3o el\u00e9trica ainda n\u00e3o est\u00e1 bem estudado e cujo processo tem sido v\u00e1rio&#8221;<\/em> e que <em>&#8220;o malogro a que se t\u00eam sujeitado as cidades que a experimentaram, nos afastam do mesmo caminho e nos aconselham a escolha de um sistema bom e j\u00e1 anos experimentado e conhecido.&#8221;<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Contudo, embora aprovada pela comiss\u00e3o relatora da Assembl\u00e9ia Provincial a ilumina\u00e7\u00e3o \u00e0 g\u00e1s, o melhoramento assim projetado n\u00e3o se efetivou, tendo sido Curitiba a segunda cidade do Brasil a adotar a ilumina\u00e7\u00e3o el\u00e9trica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A ojeriza partid\u00e1ria e racial que o <strong><em>Dezenove de Dezembro<\/em><\/strong>, bem como os liberais, em geral, tinham pelo presidente Taunay e tamb\u00e9m, indiretamente, por Augusto Stellfeld, manifestava-se ainda no carnaval de 1887, quando o grupo carnavalesco <strong><em>Nihilistas do Averno<\/em><\/strong>, apresentava um regular n\u00famero de carros aleg\u00f3ricos (<strong><em>carros de id\u00e9ias<\/em><\/strong>, como eram chamados naquelas \u00e9pocas), os quais pelas cinco horas do domingo entraram pela rua da Imperatriz (a atual Rua XV de Novembro ou a mundialmente conhecida <strong>Rua das Flores de Curitiba<\/strong>), precedidos de uma banda de m\u00fasica a cavalo e fantasiada, e de uma espl\u00eandida grande de honra, e percorrem a limitada \u00e1rea urbana de Curitiba.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O quarto carro aleg\u00f3rico, diz o <strong><em>Dezenove de Dezembro<\/em><\/strong>, de 24 de fevereiro de 1887:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 120px; text-align: justify;\"><strong><em>&#8220;apresenta a jardim da Pra\u00e7a Dom Pedro II, tendo no centro um ex-presidente de Prov\u00edncia, muito conhecido pelos imigrantes e um ex-presidente da C\u00e2mara Municipal, que n\u00e3o sabe falar portugu\u00eas&#8221;.<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Da porta da farm\u00e1cia, Augusto Stellfeld, h\u00e1 menos de dois meses que havia deixado a presid\u00eancia da C\u00e2mara Municipal, envergando a impec\u00e1vel sobrecasaca, com o cobi\u00e7ado bot\u00e3o da Ordem da Rosa na lapela, e coifando contemplativamente a bem tratada barba branca, e protegendo com a m\u00e3o esquerda a vista, j\u00e1 sensivelmente cansada, dos \u00faltimos raios solares douravam e aqueciam o rejuvenescido p\u00e1tio, e elevando assim um pouco aquele barrete de veludo vermelho, s\u00edmbolo da sua amada profiss\u00e3o e com o qual, quando crian\u00e7as, brinc\u00e1vamos, ignorando o seu significado e o seu inestim\u00e1vel valor que hoje e para sempre teria para n\u00f3s, percebe que um daqueles bonecos \u00e9 a sua pr\u00f3pria pessoa, como se estivesse refletida num espelho muito grande.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Indubitavelmente acha bem engra\u00e7ado, mas profunda e amargamente ingrata aquela cr\u00edtica; contudo, sente-se orgulhoso ser criticado publicamente ao lado de um Taunay.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A 8 de novembro de 1891 recebe o diploma e a medalha de <strong>Membro Fundador<\/strong> da <strong><em>&#8220;Societ\u00e9 Scientifique Europ\u00e9enne&#8221;<\/em><\/strong>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Campanha Federalista, com seus l\u00fagubres &#8220;<strong><em>dias fratricidas&#8221;, <\/em><\/strong>\u00e9 um dos \u00faltimos cap\u00edtulos da vida de Augusto Stellfeld, quase octogen\u00e1rio. Talvez n\u00e3o tivesse tido nenhuma participa\u00e7\u00e3o ativa, al\u00e9m da absoluta lealdade ao regime constitu\u00eddo, contudo seus filhos, Bruno, tenente da cavalaria, com curso na Escola Militar do Rio de Janeiro, e Edgard, tenente do sexto batalh\u00e3o de infantaria da guarda nacional, prestam servi\u00e7os de guerra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Augusto Stellfeld assina ainda uma cautela de empr\u00e9stimo, sob responsabilidade dos chefes da revolu\u00e7\u00e3o, de mar e terra no valor de Rs. 400$000, recebidos pelo bar\u00e3o do Serro Azul, a 30 de janeiro de 1894.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma semana mais tarde, a 7 de fevereiro de 1894, falece s\u00fabita e tranq\u00fcilamente, feliz com o justo e terno descanso que o Juiz Supremo do Universo lhe concede, deixando dois filhos, <strong><em>&#8220;h\u00e1beis e inteligentes&#8221;<\/em><\/strong> na dire\u00e7\u00e3o da sua farm\u00e1cia, a primeira de Curitiba.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando \u00e0 7 de abril de 1907, comemorando-se o cinq\u00fcenten\u00e1rio da funda\u00e7\u00e3o da Farm\u00e1cia Alem\u00e3, foi inaugurada a Rua Augusto Stellfeld, o peri\u00f3dico <strong><em>Di\u00e1rio da Tarde<\/em><\/strong>, ainda me recordo, glosando o acontecimento sob a forma de di\u00e1logo, pergunta: <strong><em>&#8220;quem foi Augusto Stellfeld?<\/em> <\/strong>Ao que o outro responde: <strong><em>foi o pai do deputado Edgard Stellfeld.<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Ahn! <\/em><\/strong>Exclama o primeiro, resignadamente e crente que a homenagem que hoje \u00e9 prestada t\u00e3o abusiva qu\u00e3o displicentemente, foi feita para satisfazer apenas a vontade de um deputado, um pol\u00edtico!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E quando o Brasil, na primeira guerra mundial declara guerra \u00e0 Alemanha, os gestos, as manifesta\u00e7\u00f5es patri\u00f3ticas dos exaltados, culminam, depois da depreda\u00e7\u00e3o em estabelecimentos de ensino, do com\u00e9rcio e da ind\u00fastria, arrancando apote\u00f3tica e violentamente as placas da Rua Augusto Stellfeld.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">[<a href=\"javascript:history.go(-1)\">Voltar<\/a>]<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"ngg_post_thumbnail":0,"footnotes":""},"categories":[20],"tags":[],"class_list":["post-6405","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-historia"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/antonini.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/6405","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/antonini.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/antonini.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antonini.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antonini.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=6405"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/antonini.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/6405\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":29845,"href":"https:\/\/antonini.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/6405\/revisions\/29845"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/antonini.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=6405"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/antonini.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=6405"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/antonini.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=6405"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}