{"id":6078,"date":"2009-10-20T21:30:06","date_gmt":"2009-10-21T00:30:06","guid":{"rendered":"http:\/\/antonini.med.br\/blog\/?p=6078"},"modified":"2025-08-23T00:38:39","modified_gmt":"2025-08-23T00:38:39","slug":"o-suplicio-do-pobre-e-infeliz-principe-orsini","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antonini.com.br\/?p=6078","title":{"rendered":"O supl\u00edcio do pobre e infeliz Pr\u00edncipe Orsini"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Ap\u00f3s a separa\u00e7\u00e3o da <strong>farm\u00e1cia <\/strong>da<strong> medicina<\/strong>, esta \u00faltima caiu na mais absurda e profunda estagna\u00e7\u00e3o, devido ao completo desconhecimento da qu\u00edmica e da biologia e \u00e0 aus\u00eancia de quaisquer crit\u00e9rios de observa\u00e7\u00e3o cient\u00edficos por parte dos novos profissionais que surgiram com essa dissocia\u00e7\u00e3o: <strong>os m\u00e9dicos, <\/strong>sendo que estes baseavam suas medicinas na autoridade dos &#8220;<strong>antigos<\/strong>, cultuados e venerados<strong> cientistas,&#8221; <\/strong>de cujos livros, bulas e sutras farmacol\u00f3gicas retiravam suas t\u00e9cnicas e tratamentos e, para se ter uma id\u00e9ia da situa\u00e7\u00e3o, basta apenas lembrar e descrever os supl\u00edcios do infeliz <strong>Pr\u00edncipe Orsini<\/strong>, regente de um dos Reinos que compunham o territ\u00f3rio da pen\u00ednsula it\u00e1lica, formado pela desagrega\u00e7\u00e3o do <strong>Sacro Imp\u00e9rio Romano Germ\u00e2nico<\/strong>, atual Rep\u00fablica Federal da It\u00e1lia, e que faleceu no ano de 1327 ap\u00f3s cometer um <strong>erro fatal<\/strong>: ap\u00f3s uma indisposi\u00e7\u00e3o devido \u00e0 algum prato do card\u00e1pio, ele, ao inv\u00e9s de repousar at\u00e9 cessar o mal, chamou os <strong>&#8220;m\u00e9dicos&#8221;<\/strong> que o rodeavam em sua corte e submeteu-se aos <strong>&#8220;homens da ci\u00eancias&#8221; <\/strong>que o torturaram durante o resto da tarde e pela noite adentro com repetidas sangrias (<em>As sangrias constitu\u00edam-se na t\u00e9cnica terap\u00eautica mais utilizada naqueles tempos, sendo realizada ou por meio de incis\u00f5es das veias cubitais ou pela utiliza\u00e7\u00e3o da<strong> sanguessuga &#8211;<\/strong> Hirudus medicinalis, sugava o sangue do &#8220;fregu\u00eas&#8221;, extraindo-lhe os maus esp\u00edritos ou humores<\/em>), e deram-lhe diversos purgantes e clisteres, tudo com o fito de extrair-lhe<strong> <\/strong>os <strong>&#8220;maus-humores&#8221;. <!--more--><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Seu pobre e maltratado est\u00f4mago teve que aceitar subst\u00e2ncias tais como: <strong>urina de \u00e9gua prenha enriquecida com ervas trituradas; p\u00e9rolas dissolvidas em vinagre com uma pitada de p\u00f3 de chifre de unic\u00f3rnio africano; p\u00f3 de asa de morcego em extrato de mandr\u00e1goras (extra\u00eddos na lua cheia); suco intestinal de basilisco<\/strong> <strong>com folhas de \u00e1rvore Giab <\/strong>e muitos outros tratamentos &#8220;medicinais&#8221; do mesmo g\u00eanero.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Claro que o tratamento a que foi submetido o pr\u00edncipe n\u00e3o era normal. Ele foi excepcionalmente bem tratado. <strong><em>Mandr\u00e1goras, \u00e1rvores Giab, basiliscos e chifres de unic\u00f3rnio<\/em><\/strong> eram importados de regi\u00f5es remotas e, portanto, car\u00edssimos. Contudo, ningu\u00e9m jamais viu esses estranhos seres, e \u00e0 exce\u00e7\u00e3o do <strong><em>unic\u00f3rnio,<\/em><\/strong> que talvez fosse um <strong>rinoceronte<\/strong>, os demais eram provavelmente <strong><em>&#8220;fabricados&#8221;<\/em><\/strong> nos arredores de Roma. Aos menos favorecidos pela fortuna e que n\u00e3o podiam pagar esses caros rem\u00e9dios, deviam contentar-se com tratamento \u00e0 base de <strong>v\u00edboras secas, pulm\u00e3o de raposa <\/strong>e <strong>cabelos de enforcados<\/strong>, sendo esses medicamentos mais simples e menos fantasiosos. De toda essa absurda terap\u00eautica sobreviveram algumas das muitas ervas utilizadas e que de fato apresentavam utilidades farmacol\u00f3gicas.<\/p>\n<h4 style=\"text-align: justify;\">A estagna\u00e7\u00e3o j\u00e1 nascente da medicina<\/h4>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o \u00e9 sem provas que se acusa a medicina de ter se estagnado em t\u00e3o pouco tempo de exist\u00eancia, basta ver que os m\u00e9dicos, ao se aliarem ao clero, renunciaram \u00e0 sua liberdade de pensamento, sua capacidade de investiga\u00e7\u00e3o e, acima de tudo, ao seu bom senso e ao seu esp\u00edrito criativo e tiveram que aceitar toda a doutrina\u00e7\u00e3o cat\u00f3lica que colocava o corpo como um santu\u00e1rio sagrado e inviol\u00e1vel e com isso, proibia terminantemente a pr\u00e1tica da disseca\u00e7\u00e3o de cad\u00e1veres no aprendizado m\u00e9dico daquelas \u00e9pocas sob pena de heresia, excomunh\u00e3o e processo religioso e, ainda por cima, condena\u00e7\u00e3o aos supl\u00edcios por bruxaria sendo que por isso os m\u00e9dicos n\u00e3o possu\u00edam os mesmos subs\u00eddios que os alquimistas, pois estes antecessores dos farmac\u00eauticos modernos perambulavam pelos cemit\u00e9rios \u00e0 noite, profanavam t\u00famulos, dissecavam cad\u00e1veres e os estudavam, mesmo estando c\u00f4nscios do que lhes poderia suceder, caso descobertos pelas autoridades sacerdotais. Provas disso podem ser encontradas em qualquer livro texto s\u00e9rio de hist\u00f3ria geral<em> (vide refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas no final do texto)<\/em>, onde aparecem as atividades de diversos alquimistas, entre eles <strong>Paracelso<\/strong><span style=\"font-family: Brush Script MT;\">,<\/span> e ainda de g\u00eanios como <strong>Leonardo da Vinci.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A medicina apenas se tornou uma ci\u00eancia s\u00e9ria e uma profiss\u00e3o confi\u00e1vel quando <strong><em>Mundinnus <\/em><\/strong>e <strong><em>Andr\u00e9 Ves\u00e1lio<\/em><\/strong> conseguiram convencer os Papas de suas \u00e9pocas, especialmente o <strong>Papa Sixto IV<\/strong> (1414-1484), e introduzir a pr\u00e1tica da disseca\u00e7\u00e3o de cad\u00e1veres nas escolas de medicina do final da idade m\u00e9dia, praticamente in\u00edcio da idade moderna, o que foi um esc\u00e2ndalo naqueles tempos, pois, apesar da primeira disseca\u00e7\u00e3o ter acontecido em 1315, ela fora considerada il\u00edcita pelo papa da \u00e9poca que a declarou imoral e her\u00e9tica, condenando seus praticantes \u00e0 excomunh\u00e3o por heresia. At\u00e9 hoje a medicina vive dependurada nas outras ci\u00eancias, tais como a <strong>farm\u00e1cia<\/strong>, a <strong>gen\u00e9tica<\/strong>, a <strong>imunologia<\/strong>, a <strong>bioqu\u00edmica<\/strong>, etc., e o interessante \u00e9 que a arrog\u00e2ncia e o corporativismo da classe m\u00e9dica induzem os meios de comunica\u00e7\u00e3o a manipular as informa\u00e7\u00f5es e a colocarem e veicularem ao p\u00fablico que as grandes descobertas que ocorrem s\u00e3o fruto de &#8220;pesquisas m\u00e9dicas&#8221;, sendo que n\u00e3o o s\u00e3o. Jamais um m\u00e9dico ir\u00e1 comunicar uma descoberta cient\u00edfica feita por um farmac\u00eautico, atribuindo \u00e0 este o m\u00e9rito do descobrimento. Dir\u00e1, em primeiro plano que a descoberta foi feita por m\u00e9dicos. Basta ver o exemplo de <strong>Alexander Fleming<\/strong>, descobridor da Penicilina e que era farmac\u00eautico, mas que aparece em tudo quanto \u00e9 livro m\u00e9dico como se fosse formado em medicina. Aqui cabe uma inevit\u00e1vel e crucial pergunta: <strong>O que seria da medicina, em todos os tempos, se n\u00e3o fossem os farmac\u00eauticos???<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong> <\/strong>Enquanto a <strong>medicina <\/strong>come\u00e7ava a ser ensinada em escolas, primeiramente em <strong>Salerno<\/strong> e depois em <strong>Bolonha <\/strong>e em <strong>Montpellier<\/strong>, a <strong>Alquimia<\/strong> j\u00e1 era ensinada nas milenares <strong>Escolas Alqu\u00edmicas<\/strong>, desde os tempos mais remotos da pr\u00e9-hist\u00f3ria da humanidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma vez separada a <strong>medicina <\/strong>da <strong>farm\u00e1cia<\/strong>, a <strong>psicologia<\/strong>, que ainda n\u00e3o era vista como uma ci\u00eancia, acabou incorporada \u00e0 primeira e passando a compor o que os m\u00e9dicos costumam chamar de <strong>&#8220;ato m\u00e9dico&#8221;<\/strong>, o qual, muitas vezes n\u00e3o passa de mera e esp\u00faria inger\u00eancia ou tentativa de gerenciamento m\u00e9dico das outras ci\u00eancias, problema que at\u00e9 hoje vem causando dores-de-cabe\u00e7a para todas as profiss\u00f5es da \u00e1rea da sa\u00fade, pois volta e meia o <strong>Conselho Federal de Medicina<\/strong> tenta baixar resolu\u00e7\u00e3o alterando o conceito de <strong>&#8220;Ato M\u00e9dico&#8221;<\/strong> e tentando trazer para si a fiscaliza\u00e7\u00e3o e a exclusividade do exerc\u00edcio da <strong>farm\u00e1cia<\/strong>, da <strong>psicologia<\/strong>, da <strong>fisioterapia<\/strong>, da <strong>nutri\u00e7\u00e3o <\/strong>e at\u00e9 da <strong>odontologia, <\/strong>ignorando os direitos e prerrogativas desses profissionais, de forma ilegal, inconstitucional e indecente. Para n\u00e3o causar confus\u00e3o, a hist\u00f3ria da psicologia ap\u00f3s a separa\u00e7\u00e3o da medicina da farm\u00e1cia, prossegue em outra se\u00e7\u00e3o (<a title=\"Hist\u00f3ria da Psicologia\" href=\"?p=5918\">Hist\u00f3ria da Psicologia <\/a>).<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">[<a href=\"javascript:history.go(-1)\">Voltar<\/a>]<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ap\u00f3s a separa\u00e7\u00e3o da farm\u00e1cia da medicina, esta \u00faltima caiu na mais absurda e profunda estagna\u00e7\u00e3o, devido ao completo desconhecimento da qu\u00edmica e da biologia e \u00e0 aus\u00eancia de quaisquer crit\u00e9rios de observa\u00e7\u00e3o cient\u00edficos por parte dos novos profissionais que &hellip; <a href=\"https:\/\/antonini.com.br\/?p=6078\">Continue lendo <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"ngg_post_thumbnail":0,"footnotes":""},"categories":[20],"tags":[],"class_list":["post-6078","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-historia"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/antonini.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/6078","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/antonini.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/antonini.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antonini.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antonini.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=6078"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/antonini.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/6078\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":29769,"href":"https:\/\/antonini.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/6078\/revisions\/29769"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/antonini.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=6078"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/antonini.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=6078"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/antonini.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=6078"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}