{"id":19940,"date":"2010-12-05T02:55:45","date_gmt":"2010-12-05T02:55:45","guid":{"rendered":"http:\/\/opatriota.org\/portal\/?p=13273"},"modified":"2022-02-15T03:26:05","modified_gmt":"2022-02-15T03:26:05","slug":"o-tocador-de-obras","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antonini.com.br\/?p=19940","title":{"rendered":"O tocador de obras"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-full wp-image-13280\" title=\"037marioandreazza\" src=\"http:\/\/opatriota.org\/portal\/wp-content\/uploads\/2010\/12\/037marioandreazza.jpg\" alt=\"\" width=\"114\" height=\"170\" \/>Mario David Andreazza \u00e9 o maior exemplo da seriedade e da honestidade com as quais os militares governaram o Brasil. Como os leitores poder\u00e3o ver no texto abaixo, transcrito integralmente da Revista Veja, ele viveu com simplicidade e n\u00e3o desviou um centavo dos bilh\u00f5es de d\u00f3lares que movimentou nos dois minist\u00e9rios que ocupou. Os que gritam que havia corrup\u00e7\u00e3o no governo militar, que apontem um coronel, tenente, sargento, ou qualquer outro militar de qualquer das tr\u00eas armas com fortunas em para\u00edsos fiscais e im\u00f3veis no exterior. Se houve corrup\u00e7\u00e3o nos governos militares, esta n\u00e3o foi praticada por militares, mas por civis que se aproveitaram da situa\u00e7\u00e3o para corromper e enriquecer ilicitamente.<!--more--><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><strong>C\u00e2ncer mata Andreazza, o ministro das pontes e estradas, que chegou a sonhar com o planalto.<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Integrado \u00e0 maioria das conspira\u00e7\u00f5es militares dos anos 50, em 31 de mar\u00e7o de 1964 o coronel M\u00e1rio David Andreazza tomou um bom de que daria muitas voltas, algumas triunfais. Era o bonde do ciclo dos presidentes militares. No 15 de mar\u00e7o de 1985, quando o bonde &#8211; apedrejado-e estacionou como sucata de um triste terreno baldio, M\u00e1rio Andreazza foi um dos \u00faltimos passageiros a descer &#8211; a maioria de seus antigos companheiros de viagem estava embarcada na vota\u00e7\u00e3o da chamada Nova Rep\u00fablica. Na quarta-feira passada, quando M\u00e1rio Andreazza, morto por um c\u00e2ncer no pulm\u00e3o, foi enterrado no cemit\u00e9rio S\u00e3o Batista, no Rio de Janeiro, ocorreu uma cena simb\u00f3lica. Personalidade ligada, de forma indissol\u00favel, o regime de 1964, foram seus companheiros do bonde 31 de mar\u00e7o, e que hoje integram o primeiro escal\u00e3o do governo do presidente Jos\u00e9 Sarney, que seguraram a carreta com seu caix\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Acompanhado por 300 pessoas, entre as quais 15 ministros de governos passados e outros cinco que integram a equipe do presidente Jos\u00e9 Sarney, o funeral de M\u00e1rio Andreazza foi uma cerim\u00f4nia com momentos muito delicados. Com seu temperamento folcl\u00f3rico e inconveniente, o ex-presidente Jo\u00e3o Figueiredo demonstrou, no cemit\u00e9rio S\u00e3o Jo\u00e3o Batista, que circula pelo mundo dos vivos &#8211; mas parece dialogar com os mortos. Uma rep\u00f3rter do Jornal do Brasil fez, ao longo do vel\u00f3rio, uma pergunta banal nessas situa\u00e7\u00f5es. Quis saber se ele havia &#8220;Sentido muito a morte do amigo&#8221;. &#8220;Isso \u00e9 pergunta que se fa\u00e7a&#8221;, respondeu o ex-presidente. &#8220;Eu s\u00f3 n\u00e3o lhe dou uma resposta por que voc\u00ea \u00e9 uma mo\u00e7a&#8221;, acrescentou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Desmancha-vel\u00f3rio<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">ngg_shortcode_0_placeholderEm 1974, quando estava no ponto mais alto de sua gest\u00e3o no Minist\u00e9rio dos Transportes, onde chegou em 1967 pelas m\u00e3os do presidente Arthur da Costa e Silva, atravessou per\u00edodo em que o pa\u00eds esteve sob o regime da Junta Militar de 1969, e s\u00f3 saiu com a posse de Ernesto Geisel, Andreazza cruzou a ponte Rio-Niter\u00f3i num passeio inaugural bordo de um Rolls-Royce em companhia do presidente Em\u00edlio M\u00e9dici. Na ocasi\u00e3o, Figueiredo estava bem perto de a Andreazza: sentado no banco da frente, ao lado do motorista, como chefe da Casa Militar. Dez anos depois, no final da traum\u00e1tica conven\u00e7\u00e3o do PDS onde acabou massacrado pelos votos do deputado Paulo Maluf, seu rival na disputa pela vaga de candidato a presidente contra Tancredo Neves, Andreazza ficou sozinho na hora de enrolar a bandeira de campanha. Figueiredo, que simularam apoiar seus movimentos contra Maluf na sucess\u00e3o, terminou para abandon\u00e1-lo. No cemit\u00e9rio, a grosseria do ex-presidente confirmou sua nova especialidade p\u00fablica &#8211; a de desmancha-vel\u00f3rio. Causou mal-estar entre os presentes e boa parte deles preferiu sair de perto. Em 1985, no vel\u00f3rio do ex-presidente Em\u00edlio M\u00e9dici, a presen\u00e7a de Figueiredo tamb\u00e9m fora motivo de outra cena constrangedora. &#8220;Vai l\u00e1, canalha&#8221;, disse-lhe Eduardo M\u00e9dici, neto do ex-presidente, quando Figueiredo chegou para o vel\u00f3rio no Clube Militar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-full wp-image-13282\" title=\"fotografia4\" src=\"http:\/\/opatriota.org\/portal\/wp-content\/uploads\/2010\/12\/fotografia4.jpg\" alt=\"\" width=\"188\" height=\"241\" \/>&#8220;Andreazza come\u00e7ou a morrer quando foi derrotado na conven\u00e7\u00e3o do PDS&#8221;, afirma o ex-ministro Camillo Penna, da Ind\u00fastria e Com\u00e9rcio. Ele chegou a contar, com ar pat\u00e9tico, que antes da conven\u00e7\u00e3o fora visitar Andreazza em sua casa, vizinha \u00e0 de Maluf, em Bras\u00edlia, e teve dificuldades para entrar &#8220;de tanta gente que havia \u00e0 porta&#8221;. Depois, lembra Camillo Penna, ocorreu o oposto. &#8220;havia tanta gente na porta do Maluf que quase n\u00e3o consegui chegar \u00e0 casa dele&#8221;. O comportamento observado por Camillo Penna n\u00e3o chega a ser espantoso, mas \u00e9 o resultado de uma soma de atitudes corriqueiras nos pol\u00edticos habituados a apertar a m\u00e3o dos vencedores &#8211; como ele pr\u00f3prio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>&#8220;Andreazza&#8221;: 1 trilh\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aluno bilhete no Col\u00e9gio Militar, Andreazza foi um ministro que, dentro do governo, tinha a fama de tocador de obras &#8211; entregou a Pasta dos Transportes, por exemplo, depois de pavimentar 25.000 quil\u00f4metros de estradas de rodagem, o dobro de tudo aquilo que havia no pa\u00eds quando tomou posse. Construiu uma estrada que serviu de bandeira para o &#8220;Brasil Grande&#8221; do AI-5, a Transamaz\u00f4nica, mas fez uma ponte, a Rio-Niter\u00f3i, que todos os dias \u00e9 utilizada 150.000 pessoas. Numa \u00e9poca de cr\u00e9dito internacional farto, Andreazza firmou o curr\u00edculo de maior tocador de obras do pa\u00eds desde Juscelino Kubitschek. Tanto nesse minist\u00e9rio como no outro, do Interior, Andreazza ficou \u00e0 frente de atividades que mobilizaram muito dinheiro. Ele gastava tanto que, ao deixar o governo Figueiredo, em 1979, o ex-ministro M\u00e1rio Henrique Simonsen cunhou uma moeda com seu nome, o &#8220;Andreazza&#8221;, para estabelecer a marca de uma grande fortuna em mat\u00e9ria de gastos p\u00fablicos, estimada, na \u00e9poca, em 1 trilh\u00e3o de cruzeiros &#8211; mais de 30 bilh\u00f5es de d\u00f3lares.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright size-full wp-image-13283\" title=\"fotografia2\" src=\"http:\/\/opatriota.org\/portal\/wp-content\/uploads\/2010\/12\/fotografia2.jpg\" alt=\"\" width=\"292\" height=\"425\" \/>Modesto, pelos seus h\u00e1bitos, e otimista, por temperamento, Andreazza era pessoa agrad\u00e1vel de se conviver. Ele mantinha um padr\u00e3o de vida pouco superior ao que lhe permitia o soldo de coronel da reserva &#8211; mas bastante inferior, por outro lado, ao dos donos e diretores de empreiteiras que fizeram neg\u00f3cios milion\u00e1rios gra\u00e7as \u00e0s obras que ele constru\u00eda. Sob o governo de Ernesto Geisel, o ex-ministro de uma das pastas mais ricas do governo foi obrigado a trabalhar para viver, com um emprego como vice-presidente da companhia Atl\u00e2ntica Boavista de Seguros. Consumidor de tr\u00eas ma\u00e7os de cigarros por dia, em 1986, M\u00e1rio Andreazza descobriu que tinha um c\u00e2ncer no pulm\u00e3o esquerdo. Chegou a fazer uma pequena cirurgia, para extrair um n\u00f3dulo no pulm\u00e3o. Mais tarde, a doen\u00e7a espalhou-se pelos g\u00e2nglios e vias respirat\u00f3rias. Internado no hospital S\u00edrio Liban\u00eas, em S\u00e3o Paulo, nos \u00faltimos dias M\u00e1rio Andreazza, aos 69 anos, submeteu-se a tratamento \u00e0 base de quimioterapia. Quando conclu\u00edram que nada mais poderiam fazer para salv\u00e1-lo, os m\u00e9dicos cuidaram para que n\u00e3o morresse pelo bloqueio das vias respirat\u00f3rias, bastante doloroso &#8211; mas de parada card\u00edaca, refor\u00e7ando transfus\u00f5es de sangue para for\u00e7ar o cora\u00e7\u00e3o a trabalhar. Com dificuldade para comunicar-se com as pessoas que o visitavam, na \u00faltima ter\u00e7a-feira*, \u00e0s 22 horas, sua mulher, Liliana, e os dois filhos, o engenheiro M\u00e1rio Gualberto Andreazza, 41 anos, e o administrador de empresas At\u00edlio Andreazza, 33 anos, aproximaram-se de sua cama. O ministro morreu abra\u00e7ando sua fam\u00edlia. <strong>Antigo chefe de uma pasta que movimentava bilh\u00f5es de d\u00f3lares, um grupo de amigos se cotizou para pagar o transporte, de avi\u00e3o, de seu corpo at\u00e9 o Rio.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">* Ter\u00e7a-feira, dia 26 de abril de 1988.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Transcrito da <strong>Revista<\/strong> <strong>Veja<\/strong>, publicada em 27 de abril de 1988, ano 20, edi\u00e7\u00e3o n\u00ba 17, p\u00e1ginas 26 e 27.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">[<a href=\"javascript:history.go(-1)\">Voltar<\/a>]<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mario David Andreazza \u00e9 o maior exemplo da seriedade e da honestidade com as quais os militares governaram o Brasil. 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